Crimes sobre duas rodas

Com a palavra...


motoValter Souza Menezes*

Na verdade não ia escrever sobre este tema esta semana, pois já está ficando enfadonho e maçante, mas, a pedidos, escrevo novamente sobre os crimes cometidos por motociclistas marginais. Para início de conversa, digo que estou me referindo a quem usa o veículo de duas rodas na prática de crimes nos centros urbanos ou na zona rural, para que entidades de classe não venham dizer, outra vez, que se trata de briga policial ou de uma luta desproporcional contra os profissionais que sustentam suas famílias sobre uma moto. Aliás, sou a favor do mototaxista, motoboy ou qualquer outra forma legal de se ganhar o pão sobre uma motocicleta.

Como um delegado proibiu que pessoas da Ilha de Itaparica usassem capacetes quando estivessem conduzindo uma moto – o que deu o maior alarde, até em nível nacional – fiquei mais animado em falar do assunto. Já tivemos ordens judiciais em algumas cidades no mesmo sentido e no estado de Goiás, no ano de 2006, o tema foi discutido em audiência pública na Assembleia Legislativa.

Em 2007, realizei a pesquisa Crimes praticados por marginais conduzindo motocicletas.  O trabalho reúne recortes de matérias publicadas, exemplos do cotidiano policial e relatos de ações promovidas em outros estados e até fora do país. A repercussão foi positiva e atingimos o objetivo de alertar os interessados sobre este assunto. Ações legais operacionais e administrativas, que poderiam ser tomadas pelo conjunto de órgãos envolvidos, infelizmente não foram tomadas naquela época, e olha que esperava ansiosamente que algo acontecesse. Por conta disso, os crimes continuam aumentando.

Esses crimes têm crescido de forma assustadora no Brasil, pois os marginais descobriram que têm mobilidade e rapidez com as suas motos durante a fuga. Já sabem que, onde eles passam, as viaturas de quatro rodas não vão, não têm acesso e, quando desembarcam das viaturas para fazer a perseguição, os policiais não conseguem alcançá-los. Além disso, o capacete esconde a face do criminoso, que também costuma se ocultar sob máscaras.

O policial a pé não acompanha a velocidade de uma moto. Depois de consumado o crime, os marginais descem escadarias, passam em passarelas, sobem em passeios públicos, pontes, becos, cruzam canteiros de avenidas, passam por caminhos apertados e saem em outras ruas ou becos. Os bandidos têm também total mobilidade nos engarrafamentos das cidades, o que é mais um ponto a favor da realização dos delitos e à sua fuga vitoriosa. Os marginais escondem as motos dentro de casas, atrás de outros carros, cobrem com lonas, jogam no mato. É muito fácil esconder esse tipo de veículo.

moto 2 (placa)

Bandidos adulteram placa da moto para evitar identificação

A placa de identificação da moto (que só tem uma, o que considero um grande erro dos órgãos de trânsito) é tapada com um pano, uma cueca de criança, folhas verdes ou secas, com adesivo; com a mão de quem está de carona, é dobrada ao meio, pintada com pasta de sapato preto, alterando suas letras e números e com pasta de dente pode-se fazer também essa camuflagem. Já foram registrados casos em que as motos eram usadas em serviços de entrega, durante o dia, para a prática de crimes, à noite.

A famosa “saidinha bancária”, que é um roubo violento, onde o meliante identifica seu alvo dentro do banco, depois faz o assalto e foge em uma moto, na maioria das vezes, tem se tornado um delito frequente nas cidades. Também identificamos muitos homicídios. Vou citar alguns só para se ter uma ideia: Office-boy de concessionária (Americar Veículos) morre ao reagir a assalto - Abordado por dois ladrões dentro da Jerônimo Rocha tentou evitar assalto e acabou fuzilado (Correio da Bahia – 20/11/2007). Motociclistas matam professor de capoeiraDois motociclistas mataram a tiros o professor de capoeira Everaldino dos Santos Sacramento, 30 anos, e feriram o amigo… Correio da Bahia – 09/02/08). Jovem é assassinado por motoqueirosA tranquilidade do domingo foi quebrada, ontem pela manhã, na Avenida Hilda, Pernambués, depois que dois homens numa moto assassinaram a tiros Eduardo Leandro, de 21 anos. (Jornal A Tarde 18/10/2004). Motoqueiro ataca viatura e fere policial no pescoçoO policial civil de 35 anos, foi baleado no pescoço por um motoqueiro, na Avenida Bonocô, quando dirigia uma viatura da Delegacia de Proteção ao Turista (Deltur)… (Jornal Correio da Bahia – 19/09/2006). Tenho mais de uma centena dessas histórias trágicas guardadas, pois existem pessoas que leram meu artigo e continuam me mandando relatos de casos semelhantes registrados em outras cidades do país.

Essas ações delituosas ocorrem tanto nas cidades, quanto nas estradas ou zona rural, por isso o combate tem que ser integrado. É responsabilidade de todas as instituições policiais e órgãos de trânsito – nas esferas municipal, estadual e federal – trabalhar em conjunto para diminuir essa onda criminal. Já registramos grupos de bandidos saindo de cidades da região metropolitana de Salvador para agir na capital.

Rapidez, mobilidade e anonimato

Os marginais já descobriram os três aspectos que ajudam nas suas ações: a rapidez na fuga, a mobilidade no deslocamento e o anonimato, seja através da placa coberta ou do uso do capacete. Os alvos dos meliantes são pessoas selecionadas, pois, devido aos três fatores que acabamos de citar, eles se mostram confiantes no êxito das ações criminosas. Eles não vão para os pequenos furtos ou roubos de coisas de baixo valor; por isso a “saidinha bancária” é um apelo forte, porquanto, em uma só ação, é possível levantar uma grande soma de quem acaba de sacar dinheiro num banco.

Em fevereiro de 2007, seis marginais, em três motos, roubaram um malote contendo dinheiro que ia ser depositado no Banco Bradesco, da Avenida Barão de Cotegipe, aqui em Salvador. No assalto, um PM foi baleado e uma senhora também ficou ferida. Os três meliantes-motoqueiros fugiram em direção ao bairro da Liberdade.

Estas ações são cometidas por marginais experientes, com prática em roubos ou homicídios. Atuam sempre em dois, normalmente o carona é quem atira contra a vítima, quem puxa o objeto de valor, quem puxa a bolsa ou maleta com dinheiro do cliente recém-saído da agência bancária. O carona é o marginal que aponta a arma em direção ao rosto do dono do carro e o manda descer ou sair do carro-alvo, para levar o veículo ou outra moto. É ele também quem cobre com a mão a placa da moto, muitas vezes regular, na hora de fugir ou ao passar nos semáforos.

Movido pela preocupação com o assunto, apresentei, à época da pesquisa algumas sugestões, que republico aqui na esperança de que sejam aproveitadas: intensificar em todo o estado as operações-comando – blitz – de forma integrada (PM-BA, PC, PF, PRF, órgãos municipais de trânsito, Detran etc.) de forma que os motociclistas-criminosos sejam reprimidos, de maneira uniforme e dentro da lei, pelo poder público; propor a edição de norma no sentido de tornar obrigatório o uso de mais uma placa de identificação na motocicleta; tornar obrigatório o porte do documento original do certificado de registro de veículo (CRV), devidamente assinado e datado, para veículos de duas rodas recém-comprados; colocar em alto relevo no tanque da motocicleta a placa de identificação com números e letras.

E mais: pesquisar soluções adotadas por outros estados-membros da Federação e outros países para arrefecimento dessa modalidade de crime; mapear a evolução dessas práticas, de forma técnica, por todos os órgãos envolvidos, considerando que não há estudo específico de tal problema;  envolver os sindicatos e demais empresas congêneres no processo de discussão em busca de soluções a curto, médio e longo prazo; pintar no capacete as letras e números da placa de identificação; intensificar a fiscalização em oficinas e sucatas de veículos, para evitar o desmanche de motos roubadas ou furtadas; realizar reuniões bimensais com os órgãos envolvidos, para avaliar a evolução das ações e se estão surtindo ou não efeito as medidas tomadas; centralizar as informações das ações delituosas realizadas por motociclistas-marginais em um único órgão público.

Você, caro leitor, pode até pensar que estou exagerando, mas comece a acompanhar a evolução continuada desses delitos, e verá que não estou errado.

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Sobre Jaciara Santos

Jaciara Santos (jaciara@aqueimaroupa.com.br) é sergipana de Aracaju, mas atua como jornalista profissional em Salvador-BA, já há quase três décadas. Foi repórter, chefe de reportagem, pauteira, editora de Cidade, Política e Economia, colunista e subeditora de Segurança. Premiada duas vezes no extinto concurso de reportagens da Associação Bahiana de Imprensa, em 2003 conquistou também o prêmio Banco do Brasil na categoria reportagem por uma série de matérias sobre a ação dos grupos de extermínio na Bahia.