“Quando não existe poder capaz de manter os homens em respeito, temos a condição que se denomina guerra civil; uma guerra de todos os homens contra todos”.
Thomas Hobbes
Antonio Jorge Ferreira Melo*
A morte, essa inexorável ceifadora, sempre chega de surpresa. Assim, no domingo, ao retornar de uma viagem ao interior do Estado, ao receber a notícia da brutal morte de Elton Oliveira Mota Junior, um dos meus alunos mais queridos, vítima da violência que busco combater com a paz, confesso que precisei de muita fé, para dizer, como Fritz Zorn: “Eu ainda não venci aquilo que combato; mas também ainda não fui vencido e, o que é mais importante, ainda não capitulei.”
Se não existe consolo pessoal na perda, cerremos nossas fileiras ainda mais estreitamente. Assim, não nos pode desviar das nossas lutas as baixas nas nossas hostes, nem a derrota de algumas batalhas. Construímos muito até aqui, e nos anima a convicção de que o grande sonho chegará ao momento da transformação de uma nova realidade.
Das promessas do nosso nascimento só temos uma certeza, portanto sei que não deveria me entristecer ao constatar, mais uma vez, a transitoriedade da matéria, pois Deus, através da morte, mostra a importância da vida. Mas, mesmo os mais velhos e vividos soldados também têm um coração que se entristece, chora, sente e eu chorei, mesmo acreditando que o ser humano, feito à imagem e semelhança de Deus, é como Ele, imortal.
Somos só Homens, como todos nós somos só Homens. Filhos e pais, plebeus e nobres, brancos e negros, pobres e ricos todos nivelados pelo horror da tempestade de ferro e fogo da violência que não poupa ninguém. Em meio a tantas diferenças entre todos nós, a morte permanece única e constante.
Elton Oliveira Mota Junior era cadete da Academia da Polícia Militar da Bahia. Foi assassinado a sangue frio, durante um assalto a um lava a jato, simplesmente, por ser identificado como policial militar. Ele foi o 17º policial militar a ser assassinado na Bahia neste ano.
Não deveríamos nos denominar “profissionais de segurança pública”. Essa denominação exclui a doença, o medo, a angústia, a dor e até a morte. A meu ver enganamo-nos, nos dias atuais, “profissionais de risco” seria uma denominação mais adequada.
Nessa ótica, é bem oportuno o questionamento de Stephen Kanitz: “Um policial, normalmente pouco treinado pelo Estado, se no cumprimento do dever errar um tiro, será trucidado e execrado pela opinião pública. Quem se candidata a um emprego desses, que exige a rapidez de um executivo, a coragem de um herói, o discernimento de um juiz, o tato de um psicólogo e um salário vil?”
Elton Mota aceitou o desafio, pois, como muitos jovens de sua classe e posição social, tinha um sonho: ser oficial da Policia Militar, mas tinha um diferencial: era um guerreiro, tinha a fibra de um verdadeiro soldado… era policial militar por vocação.
Nesse sentido, parodiando Grodeck, ouso transformar a afirmativa do seu Livro do Id em uma pergunta: “Por que não morre senão aquele que quer morrer, aquele para quem a vida se tornou insuportável?
Elton Mota, um jovem cheio de sonhos foi mais uma vítima da violência, um jovem vítima de outros jovens, amados ou não, drogados ou não, quase todos perdidos de armas na mão…
Quando morre um guerreiro, um guerreiro da justa justiça, do bem comum, combatente do bom combate, o seu sonho renasce nos sonhos das futuras gerações, nos novos guerreiros do bom combate.
Se os agentes da lei são vítimas da violência e da criminalidade, seja no exercício da profissão ou no cotidiano de suas vidas, simplesmente por serem identificados como policiais, o próprio Estado está sendo confrontado. Nesse sentido, estou em luto pelos policiais. Estou em luto pelos baianos. Estou em luto pelos brasileiros. Estou em luto pelo moribundo Estado brasileiro.
Com os acordes do toque de clarim, o Cadete PM Mota recebeu a última continência, mas aqui estão nossas saudades, vivas, duráveis, reais! A lembrança do jovem alegre, corajoso e leal fica entre nós, pela recordação de todos os momentos, mas, acima de tudo, pelo legado do soldado que soube honrar a farda e a corporação que escolheu mesmo no curto tempo que a ela pertenceu.
Nada mais será como antes na minha sala de aula, pois o luto pela morte é a experiência mais universal e, ao mesmo tempo, mais desestruturante e assustadora que o ser humano pode viver. Mas ainda assim há vida no luto, há esperança de transformação e de recomeço, porque há um tempo de chegar e um tempo de partir. A vida é feita de pequenos e grandes lutos, através dos quais, o homem se dá conta de sua condição de ser mortal.
* Antonio Jorge Ferreira Melo é coronel da reserva da PM-BA, professor e pesquisador do Progesp (Programa de Estudos, Pesquisas e Formação em Políticas e Gestão de Segurança Pública) da Ufba, da Academia de Polícia Militar e da Estácio / FIB.
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Assim como em qualquer mortes de policiais, não apareceu ninguém dos direitos humanos, nem deputados do Governo ou oposição, nem os opinadores de causa segurança pública, que só se manifestam quando o policial erra. É sempre assim! Nem o Secretario de Segurança foi. Nem juiz, nem promotores. Mas se matassem um desembargador, um senador ou um ex-qualquer com nomes sujos pelo colarinho branco, o cemitério estava cheio. Poucas materiais nos jornais, mas o dever de enterrar o honras o nosso cadete, é da PM. Vá em Paz nobre Cadete Mota.
Parabéns Coronel Jorge Melo pelas palavras.
Só desejaria que todos policiais que morressem tivessem essas homenagens, com texto, tiros etc.
@Simone Gomes
Simone
Você está correta. E a PMBA cumpre o seu ritual funebre com todos os seus herois.
No Brasil, particularmente na Bahia, mortes de policiais, de “milicianos”, de criminosos e de moradores das “favelas” são mortes anunciadas e toleradas nessa guerra, alimentada pela exclusão social, econômica e educacional, às quais o Estado, o Governo e a sociedade, no fundo, conferem muito pouco valor afinal as baixas ocorrem basicamente na “infantaria” e na “periferia”. Policiais mortos em serviço não são considerados heróis neste país. Feridos, disputam vagas em UTI e penam para custear suas despesas com medicamentos. Mortos, dependem da solidariedade dos colegas, da ajuda de familiares ou de arranjos administrativos feitos pela corporação, para terem um funeral, no mínimo, decente.
Os cidadãos precisam entender que a vitimização de agentes do Estado, no exercício da profissão, merece, no mínimo, o nosso pesar. Não se pode aceitar a banalização das mortes de policiais. Um policial morto em defesa da sociedade deveria ter seu nome lembrado como herói e seus feitos gravados em rocha no panteão da história
Cuida-se aqui dos policiais que morrem como mártires, pois, há os que são mortos por bandidos por se encontrarem envolvidos com a criminalidade ou por enfrentá-los no local onde residem, em circunstancias que precisam ser melhor investigadas pelas Corregedorias e pelo Ministério Público, pois, segurança clandestina ou “milícias” formadas por policiais e ex-policiais, bombeiros, vigilantes, agentes penitenciários e militares, seja como movimento de reação, tentando resgatar sua dignidade e ao mesmo tempo proteger a si mesmo, a sua família e a comunidade, seja com objetivos financeiros e/ou políticos, não podem ser entendidas como uma atividade complementar aos serviços da polícia, posto que ilegais.
Esta não é uma homenagem institucional. É uma homenagem pessoal de um mestre para seu discipulo…para um amigo.
Coronel, como editora, tive o privilégio de ler em primeira mão sua homenagem ao cadete Mota e fiquei muitíssimo emocionada. Só quando se dá rosto a um nome é que se percebe a dimensão das nossas tragédias cotidianas e particulares. Para a maioria de nós, Elton é o 17º policial militar assassinado em 2009. Um número, uma estatística. Mas ele era mais que isso. Lendo o seu texto, tem-se a dimensão de que ele era, sobretudo, pai, marido, filho, irmão, neto, amigo, colega, aluno… de alguém. Acompanhei o noticiário sobre o caso e, para mim, a imagem mais pungente foi a da mãe dele com o seu quépi à cabeça. Um quépi que ainda devia guardar o cheiro do filho, um resquício do aroma dos seus cabelos, do seu suor, coisas que só o ancestral instinto materno sabe identificar… Parabéns, professor Jorge, pela oportunidade de dar um rosto e uma cor àquela dor anônima, aquela dor que, como diz o poeta, é uma dor que não sai no jornal.
Há uma máxima no militarismo “soldado morto, farda em outro”.Quem são o agentes público que estão sendo executado pelo crime organizado na Bahia? Em sua grande maioria são soldados ou sargentos (praças). E porque isso ocorre? porque são os praças os principais responsáveis pela manutenção da ordem pública, são os praças que estão no cotidiano da sociedade e no embate direto com a marginalidade. Porém ao meu ver, não só por isso mas, pela discriminação institucional que começa na diferente forma de juramento que compromete completamente os praças enquanto os oficiais limitam suas palavras ao efetuar o juramento.
Art. 8º – O compromisso a que se refere o artigo anterior terá caráter solene e será prestado pelo policial militar na presença da tropa, no ato de sua investidura, conforme os seguintes dizeres: “Ao ingressar na Polícia Militar do Estado da Bahia, prometo regular a minha conduta pelos preceitos da moral, cumprir rigorosamente as ordens legais das autoridades a que estiver subordinado e dedicar-me inteiramente ao serviço policial militar, à manutenção da ordem pública e à segurança da sociedade mesmo com o risco da própria vida”.
Parágrafo único – Ao ser promovido ou nomeado ao primeiro posto, o Oficial prestará compromisso, em solenidade especial, nos seguintes termos: “Perante as Bandeiras do Brasil e da Bahia, pela minha honra, prometo cumprir os deveres de Oficial da Polícia Militar do Estado da Bahia e dedicar-me inteiramente ao seu serviço”.
Em suma, praça tem que está preparado para morrer. Já oficial…?