O circo, o trabalho e o pão

Com a palavra...


 

Antonio Jorge Ferreira Melo*

Em um mundo tão sério e racional, fundado num individualismo sem limites, ao reafirmar algumas características da identidade nacional, as festas de rua ainda têm uma função importantíssima, ao unir coletivamente todos/as em zonas e valores ligados à alegria, ao utópico.

Dentre todas as festas de rua, Bakhtin e outros historiadores e cientistas sociais que se têm voltado para o estudo da festa concebem o carnaval como a mais importante, mesmo que na quarta-feira tudo volte ao seu lugar. 

Mesmo no mundo havendo muitos carnavais, inegavelmente, o Brasil é o país onde o carnaval é tratado como uma política de Estado, e, como tal, tem atenção especial do governo. Não é sem sentido que a festa só se inicia quando o prefeito entrega a chave da cidade para o Rei Momo. 

Mas que porta é essa aberta por Momo? O prefeito, representante político da sociedade, sabe que, ao entregar ao monarca do Carnaval a chave de uma cidade portátil construída dentro da antiga, a ordem comum irá se inverter e, com ela, a política, ou seja, o que é comum à cidade passa a ser privado.

Se a cidade já é o centro das operações mercadológicas do capitalismo é natural que, durante o carnaval, seja reorganizada para evitar que esse audacioso ritual de libertinagem, patrocinado pelo poder e pelo “bom senso” de uma sociedade indiscretamente moralista, em meio à sedução da total entrega aos prazeres da carne se transforme numa explosão de violência sem pudor. 

Nessa lógica, o caráter do espaço público – fundamento para a estruturação das cidades modernas – passa a ser modificado e até os esquemas de policiamento não são pensados apenas para proteção, mas para a criação e reforço de espaços segregados e excludentes, onde a sensação de segurança tem fundamento maior na distância social do que na ausência de crimes. 

Mas, festas á parte, com exclusão ou não, quando o assunto é carnaval de Salvador, é necessário compreender o porquê de Momo, comandando um reinado efêmero e sem nenhum ministério, costume se haver melhor que governantes de mandato longo e secretariados robustos e onerosos.  

Por que no Reino do Carnaval, com ações inevitavelmente pontuais, solucionam-se problemas e atendem-se prioridades que não se adiam, mas, em meio às cinzas da folia, todas as quartas-feiras contem histórias sempre iguais? 

Por que os mesmos investimentos destinados para este evento não são aplicados com tanto empenho nas questões sociais? 

Alguém dirá que são… Mas, então, por que, então, no dia a dia, não vemos os resultados desses investimentos materializados com tanta clareza e objetividade como no carnaval?

Espero que, mais uma vez, a festa não termine com a devolução das chaves da cidade, com o fechamento do portal, mesmo sabendo que o Rei Momo não tem a obrigação de resolver os problemas que marcam o cotidiano na Bahia, mas, com certeza pode servir de conselheiro fora dos carnavais. 

Que os governantes deixem o papel de eternos devedores de políticas públicas, restaurando a conexão entre os recursos recolhidos através de taxas e impostos e o atendimento às necessidades dos contribuintes, foliões ou não, construindo a governabilidade, mobilizando e articulando recursos de governo e da sociedade, de forma contínua e processual como Momo faz no carnaval. 

Que fique claro que nada tenho contra o Rei Momo e o seu governo anual na nossa capital, pois, nesse sentido, penso, de certa forma, como o economista e escritor Armando Avena, no seu livro “A última tentação de Marx”: talvez o carnaval ajude o povo a esquecer os problemas tendo circo, mas quando há circo, há trabalho e, portanto, há, também, o pão.

 

* Antonio Jorge Ferreira Melo é coronel da reserva da PM-BA, professor e pesquisador do Progesp (Programa de Estudos, Pesquisas e Formação em Políticas e Gestão de Segurança Pública) da Ufba, da Academia de Polícia Militar e da Estácio FIB.

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Sobre Jaciara Santos

Jaciara Santos (jaciara@aqueimaroupa.com.br) é sergipana de Aracaju, mas atua como jornalista profissional em Salvador-BA, já há quase três décadas. Foi repórter, chefe de reportagem, pauteira, editora de Cidade, Política e Economia, colunista e subeditora de Segurança. Premiada duas vezes no extinto concurso de reportagens da Associação Bahiana de Imprensa, em 2003 conquistou também o prêmio Banco do Brasil na categoria reportagem por uma série de matérias sobre a ação dos grupos de extermínio na Bahia.