Antonio Jorge Ferreira Melo*
Um dos poemas mais conhecidos de Carlos Drummond de Andrade diz: “No meio do caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra”.
Com certeza, desde que foram escritos, esses versos de Drummond tiveram sentidos e significados diferentes para muitas pessoas que os leram. Mas, se esse texto for relido, com outros olhos, talvez adquira um sentido novo e poderemos estar nos referindo a algo que se assemelha a uma pandemia de grandes proporções e de altíssimo nível de mortalidade, reveladora do mal-estar da civilização na qual vivemos.
As drogas sempre despertaram fascínio nos seres humanos e, dinâmica, a indústria do tráfico sempre reconverte suas atividades e lança novos produtos, com modo de produção e preços cada vez mais acessíveis. Assim, depois da maconha, do LSD, da cocaína, heroína, passamos pela merla, pelo ecstasy e, hoje, a pedra no caminho é o crack.
Composta por pasta básica de cocaína sólida em forma de cristal e denominada “crack” porque emite pequenos estalos quando queimada, essa pedra é um drama mundial por causa do preço, considerado muito baixo, e pela facilidade de consumo que favorece a sua disseminação, já que não necessita de seringa – basta um “cachimbo”, na maioria das vezes, improvisado com uma lata de alumínio furada.
A verdade é que essa pedra “democratizou” o acesso ao mundo das drogas, no passado, possível apenas aos ricos e à classe média. Assim, nos tornamos um grande mercado consumidor, onde, especialmente nas camadas mais carentes de nossa sociedade, em meio à miséria e à falta de oportunidades reais de inclusão social, alimentadas principalmente pelas classes de renda média e alta, formam-se amplas redes de traficantes, distribuidores e consumidores. Não é sem sentido que nas cidades brasileiras mais violentas é possível identificar uma espécie de geografia da morte, onde as maiores vítimas são jovens negros e pobres.
Após o curto período de duas décadas, o consumo de crack cresceu no Estado da Bahia a ponto de já ser encarado como uma epidemia e considerado pelas autoridades governamentais como um dos mais sérios problemas sociais, por ser um dos maiores desagregadores de famílias que se conhece, e de saúde pública, tornando-se causa subjacente de muitos tipos de crimes.
A exemplo de outras capitais, Salvador também tem a sua cracolândia, localizada no Centro Histórico, essa espécie de parque temático da dignidade social derretida pela chama de um cachimbo, onde crianças e adultos consomem-se no crack pelas calçadas, transformados em resquícios humanos, sobrevivendo basicamente em função da mendicância e dos mais diversos tipos de delinquência.
Mas os reflexos dessa epidemia não se traduzem apenas na degradação das vítimas mais visíveis dessa tragédia, pois, segundo dados da Secretaria de Segurança Pública do Estado, 85% dos 1.577 assassinatos e latrocínios ocorridos na Bahia em 2009, tiveram sua gênese no tráfico de drogas, tendo o crack como principal vetor.
Sem discordar da gravidade do problema, nem do papel importante que as drogas têm na dinâmica da violência que se estabeleceu e se aprofundou nas duas últimas décadas, através das redes de tráfico e consumo de drogas ilícitas, deve-se cuidar para que, simplesmente, esse argumento não se torne uma cômoda justificativa para o baixíssimo índice de esclarecimento de delitos da polícia baiana, pois, o fato de a maioria dos homicídios permanecer sem autoria identificada, sem indiciados e nem punidos potencializa o motor propulsor do cometimento de novos crimes violentos.
Como sobreviventes de uma guerra à espera de um armistício feito de segurança, assistência social e urbanismo que nos devolva algum traço de cidadania, nós continuamos aqui estáticos, sem pular a pedra, sem tirá-la do caminho, sem desviar dela ou mesmo sem mudar o percurso, assistindo ao aumento de policiamento violento e repressivo; as lutas entre facções rivais pelo controle dos pontos de distribuição e venda de drogas e, principalmente, a ausência dos poderes públicos favorecendo com isto o estabelecimento e a ampliação do controle territorial de extensas áreas urbanas por grupos armados de traficantes.
Se apostando na via repressiva, “na guerra contra as drogas”, temos demonstrado não possuir nem meios reais de reprimir o comércio e o consumo, o que se dizer então de uma política de educação de massa que seja realmente eficaz ou de instituições com pessoal qualificado para o tratamento da dependência?
O crack não é coisa de rua, de mendigo. Não, esta pedra encontra-se em todo lugar fazendo suas vítimas diárias, derretendo a dignidade humana e reduzindo pessoas a mortos vivos, ou melhor, vivos mortos. Não podemos ficar fingindo não ver, tapando o sol com a peneira para enxergar apenas o que nos é conveniente, até que essa pedra atravesse o nosso caminho, nos consumindo em brasa. Enquanto isso, Drummond segue dono da razão: “No meio do caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra”.
* Antonio Jorge Ferreira Melo é coronel da reserva da PM-BA, professor e pesquisador do Progesp (Programa de Estudos, Pesquisas e Formação em Políticas e Gestão de Segurança Pública) da Ufba, da Academia de Polícia Militar e da Estácio FIB.
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Realmente um panorama da realidade que fingimos não ver, nos limitando a atacar as policias quando ocorre o enfrentamento, passou da hora de se exigir a presença do estado nas comunidades carentes, os jovens se viciam por por falta e opção, a unica presença é a policia militar, numa guerra desigual, o horizonte para estes garotos é o sucesso e o sucesso é ter bermuda ciclone, batidão, cabelo desenhado e promover festas a fim de demonstrar “riqueza”.a solução?
Caro Cel. Antonio Jorge Melo, embora somente o conheça de nome, fico feliz com a sua trajetória. Agora ao ler esse artigo de sua lavra fique a pensar quantas vezes eu já escrevi a cerca deste tema, e em especial um, que foi publicado aqui em Vitória da Conquista, no endereço: http://www.blogdaresenhageral.com.br, onde eu traço um perfil com relação a solidão da cidadania. Embora eu tenha somente 53 anos de idade, porém 30 anos de advocacia, exercendo a minha profissão em diversas comarcas do sudoeste da Bahia, e norte de Minas Gerais, sempre observei o crescimento pouco a pouco dos usuários desta maldição que se chama crack. Aqui em Vitória da Conquista, onde os gestores municipais se orgulhvam de possuir um programa “Conquista Criança”, que aliás, já recebeu vários prêmios internacionais caiu no ostrascimo. O que nós assistimos são crianças, com seus rostos inocentes nas ruas e avenidas mais movimentadas pedindo uma moeda, que a princípio servirá para ajudar a família que está passando necessidades. No entanto, essa mesma criança começa cheirando cola, depois fumando maconha, é recrutado pelos traficantes, e logo com o uso “só para experimentar” de uma única pedra fica logo viciado. Tivemos aqui o assassinato de uma criança de 12 anos, executada com vários tiros, tudo porque devia aos traficantes, conforme declarações prestadas pela própria genitora da vítima. Outro assassinato ocorrido na quarta feira de cinzas, é o de um rapaz que além de receber vários tiros teve o seu corpo aberto, como o de um animal e jogado em uma das escadarias que dá acesso a reserva do Poço Escuro. O comum entre o dois crimes é a drogra. O que nós falta, é um local que poderia ser cedido pela própria prefeitura para ser construído um Centro de Acolhimento ao Menor Infrator, conforme está estatuído no Estatuto da Criança e do Adolescente. Não foi uma nem duas vezes que alertei nos clubes de serviços os quais sou filiado, que com o combate ao crime organizado no Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo forçaria, como realmente veio a ocorrer o deslocamento dos laranjas do tráfico organizado para o nosso estado, e não deu outra, conforme recente informações prestadas pela Policia Federal, que aponta como rota do tráfico Vitória da Conquista e Feira de Santana. Aqui tenho eu a certeza, que as autoridades policiais sabem onde estão as bocas de fumo e onde residem os traficantes, mas nada é feito. Se quando eu era uma criança, e meu pai mandou-me estudar no Ginásio da Bahia, o medo era de que fossemos alcóolotras, hoje o medo de tantos pais como eu, que ainda tenho 2 filhos menores, é de que um maldito traficante ofereça drogas aos meus filhos ou à seus colegas de escola, e sei que não aceitariam pois são criados à moda antiga, aprendendo o temor a DEUS, valores familiares e éticos. Acredito mais, que a estatística apresentada pelo senhor em seu artigo já esteja devassada ou desatualizada. Mas no meio do caminho não há uma pedra, mas sim várias pedras. Queira aceitar os meus parabéns pelo seu oportuno artigo, e de excelente qualidade, agradável de ler e ótimo para que possam refletir. Como costumo afirmar, atualmente não existe uma política definida de segurança pública na Bahia. Policias Militares e Civis são mal pagos e até desprestigiados. Não possuem armamento adequado, e nem as viaturas necessárias. Traficante anda de veículo “top line” com motor 2.0 acima, a polícia com veicúlos popular, é como pedir que alguém com um carrinho de rolimã ganhe uma corrida contra um veículo da Fórmula 1. Abraços.
Dr. Afranio Garcez.