Sou Alfredo José Rosendo/Filho de Modesto e de dona Brisdinha/
Se eu não faço um poema melhor/É porque não frequentei a escolinha”
As gotas geladas de uma suave garoa tocam suavemente na terra seca e árida, em um fim de tarde em que o chão quente do semiárido agradece aos céus pela benção de encontrar com sua fonte de energia, exalando assim, o cheiro de terra molhada, sinônimo de prosperidade na vida do sertanejo. O São João, árvore típica da biodiversidade local, abre suas flores, amarelas feito ouro, provando para quem duvidar que a beleza surge no improvável. Em torno deste cenário, que flerta entre o belo e a simplicidade, encontro seu Alfredo Rosendo, um lapoense de expressão forte, alto, de voz firme e corpo esguio, com 89 anos de histórias, causos e lições de vida. Em uma casa antiga, feita com as próprias mãos, “Seu Fredo” como é carinhosamente conhecido, mora em companhia de ilustres convidados: a música e poesia.
O cheiro do café passado na hora abre as portas para uma longa conversa sobre a vida, sonhos e a arte, despertada em 1985, quando seu município de origem, Lapão-BA, tentava se emancipar. Em versos simples, de um homem que nunca foi à escola, Fredo foi de encontro aos velhos coronéis da terra e declamou com garra e coragem a seguinte estrofe:
Deixa de tanta promessa/ deixa de tanto esperar/ agora chegou a vez/ de Lapão emancipar. Lapão já foi muito atrasado/ só quem viu sabe contar / Só tinha duas escolas, mesmo assim particular/ Hoje, o Lapão já conta, no setor da educação / Com um dos melhores colégios da microrregião. Lapão tem um povo hospitaleiro / Isso eu não nego / só faz muito fuxico na época da eleição / deixa de tanta promessa/ deixa de tanto esperar/ agora chegou a vez/ de Lapão emancipar”.
De acordo com Alfredo, na época, algumas famílias tradicionais reuniram 500 assinaturas em um manifesto contra a emancipação. “Eles alegavam que a cidade era a ponta da rua do município de Irecê, mas eles tinham interesses pessoais por trás disto, achei que não tava certo, porque Lapão já estava desenvolvida, foi então que tive a vontade de fazer meu primeiro verso e dei uma chicotada neles”.
Frequentar uma sala de aula foi o maior sonho do poeta sertanejo, porém os tempos difíceis da época de criança não deixaram sua aspiração virar realidade. Apesar de não poder ir à escola, sua vontade era maior que a maioria dos obstáculos. Com uma “banda” de toucinho de um porco gordo, doado pelo seu avô, foi para cidades vizinhas vender a mercadoria. Ao todo conseguiu 200 réis, dinheiro suficiente para comprar um livro ensinando a arte do ABC. “Quando meu avô trouxe o livro, só fui dormir quando aprendi a primeira carreira de letra, gravei até o ‘é’, depois fui tocando meus estudos para frente. Em quinze dias, já sabia ler. Meu avô morreu na grande crise de 32, e fomos trabalhar numa roça que só tinha onça e caititu. Lá, passei de inteligente e fiquei conhecido por fazer um cavaquinho com uma faca com apenas 12 anos, ficou tão bom que muitas pessoas quiseram comprar, acabei vendendo para comprar uma roupa bem bonita que fazia tempo que não tinha”.
Apesar do esforço, o garoto promissor ainda não sabia escrever até que a noiva do tio questionou: “Você já sabe fazer seu nome?” triste e envergonhado ele respondeu: “Não”. Foi então que a jovem segurou em sua mão e com um toco de madeira riscou o nome do menino para ele copiar. “Fiquei muito feliz, gravei aquilo e nunca vou me esquecer, saí correndo para mostrar a todos, mas muita gente não acreditou. Meus parentes só acreditaram de verdade quando a moça chegou e confirmou tudo. Sonhava tanto em aprender que quando ia comprar alguma coisa montado no lombo de um jumento, passava por perto da escola, amarrava o animal e ficava ouvindo eles aprenderem e passava a tarde toda. Quando chegava em casa minha mãe questionava você foi no Lapão ou no Japão?”, lembra o poeta.
‘Não tinha como estudar, e chorava’
Infelizmente, a vontade de aprender chocava com a dura realidade e o sonho de frequentar as salas de aula para se tornar “um homem letrado” se tornava cada vez mais distante. “Foi muita vontade, mas fiquei só na vontade. Minha mãe era viúva e tinha seis filhos, ela me dizia: ‘Vamos plantar um algodão se a lagarta não comer compro sua farda, e você vai para escola’, mas foram anos duros, a região passava por uma seca danada, sobrevivíamos com cuscuz de mucunam, que é um caroço vermelho e venenoso, mas colocávamos de molho, quebrava a casca e tirava uma folhazinha que tem dentro e moía. Então, realmente, não tinha como estudar e chorava que as lágrimas desciam. Fiz até um verso que é mais ou menos assim:
Na idade de dez para onze anos / sorri pouco porque a coisa era muito feia / só comia um alimento que não era do mato / se fosse em casa alheia”.
“Hoje sei escrever um pouquinho e fazer umas continhas. Não leio cantando como um formado, mas graças a Deus, não sou cego”, ele diz. Mas, nem só de poesia se inspira Alfredo, o poeta sertanejo, que também “toca uns tonzinhos” para se divertir. “Comecei a tocar com 12 anos, na época que fiz o cavaquinho, via meu tio fazendo uns tons e fui aprendendo. Logo as pessoas me chamavam para bater uma sanfona e tocar violão, mas hoje é só para se divertir em casa. Toco umas músicas de igreja, uns sambinhas e uns sucessos de Amado Batista, Waldick Soriano, Vicente Celestino e Alvarenga e Ranchinho”.
Alfredo casou a primeira vez com 16 anos, teve dois filhos e ficou viúvo. Ainda jovem começou a labuta. Após a vida do campo, trabalhou durante 40 anos como barbeiro e marceneiro e conta orgulhoso que todo serviço era feito com prazer. “Gostava quando cortava o cabelo e o cliente exigia o corte e qualidade no serviço. Se fosse fazer um móvel, fazia com todo capricho, escolhia sempre uma madeira boa e buscava a perfeição. Fiz móveis que até hoje nunca descolaram uma placa. Ganhei fama por aqui, o povo comentava: ‘Esse é bom no machado’.”
Apesar de nunca ter lido um livro de poesia, os versos de Alfredo brotam com naturalidade. Com uma linguagem regional, rica em detalhes e lembranças de um povo sofrido e lutador, o poeta sonha em publicar seus versos, já impressos artesanalmente, feito cordel, e distribuído na cidade. Porém, esse almanaque vivo, simples, inocente e sábio, precisa de apoio para imortalizar suas lembranças, seja para falar de um sorriso de uma criança, uma gameleira ou de uma gruta, Alfredo deseja publicar um livro, e contribuir para deixar escrita na história a riqueza e a poesia do homem do campo.
CONTATO:
Telefone para recados: (074) 3657-1372
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Que lindo, vocês não imaginam a emoção que esse texto me levou.
Lembrei de meu pai
a poesia nordestina tem um valor especial, o site podia fazer uma campanha para tentar publicar um livro de alfredo e tentar realizar o seu segundo sonho.
Conheço seu rosendo desde pequena, me recordo de uma epoca onde ele fez uma bela poesia sobre a gruta do lapão. foi emoção geral ver ele declamando
Muito emocionante essa matéria sobre Alfredo Rosendo, principalmente para mim que sou afilhada dele. Fiquei muito feliz em ver que existe um site que traz jornalistas capazes de escrever tão bem e nos deixar tão emocionados, que busca sempre textos inovadores, que trazem na sua essência a realidade do nordeste e principalmente da minha cidade Lapão.
Fico muito feliz ao ler uma materia desse nivel!!! Seu Alfredo exemplo de vida! A poesia brota como um botão de rosas… Parabéns ao A Queima Roupa.E muita Luz para esse poeta maravilhoso.
texto de tão suave que dá vontade de ler novamente.
É muito ver um site dando oportunidades a figuras ilustres como o senhor alfredo, é uma honra conhecer a história dele, apesar de ser triste. Mas essa é a vida do homem do campo, pelo menos os dessa geração, parabéns a equipe
Que velhinho fofo, que Deus te dê muitos anos de vida e que seus sonhos sejam realizados
Pura poesia. Relação linda entre o jornalista e entrevistado. Parabéns ao site
RETRATO DO POVO BRASILEIRO! A HISTORIA DESSE HOMEM É SEMELHANTE A MUITOS HOMENS E MULHERES QUE LARGARAM SEUS SONHOS PARA DAREM CONTA DO PRATO DE COMIDA DO DIA-A-DIA. É A MINHA HISTORIA. AQUI EM GENTIO DO OURO, PERTO DE XIQUE-XIQUE, QUANDO ERA CRIANÇA SONHAVA EM SER MÚSICO, MEU PAI TINHA UMA SANFONA VELHA, E LOGO COMECEI A TOCAR, MAS COMO TOCAR SE QUANDO CHEGAVA EM CASA SÓ TINHA PALMA, FEIJÃO E TOUCINHO? É… TIVE QUE LARGAR ESSE SONHO DE LADO E IR PARA O MUNDO, DANDO ASSIM O SUSTENTO PARA MINHA MAE, MEU PAI E AGORA MEUS FILHOS. É UMA PENA QUE AS VEZES NOSSOS SONHOS MORRAM NO RELENTO
ótima história
É uma maravilha encontrar tantas histórias do povo lapoense! Seu alfredo é um homem puro, muito honesto e um dos fundadores da cidade, adoro passar para bater um dedo de conversa com ele.
honestamente nunca li nada igual! Jaciara escolheu uma bela equipe
Olá, querido!
Suas palavras abrilhantam ainda mais a história, a riqueza, a cultura e a poesia da Bahia e do “Seu Fredo”. Adoro o modo como vc escreve, é muito agradável de lê-lo!
Este texto me serviu de inspiração para uma aula de Filosofia na escola para Jovens e Adultos – CEEBJA – na qual leciono aqui em Toledo – PR. Meus alunos, muito mais jovens que este senhor; alguns até adolescentes, outros com idade entre 30 e 50 anos, encantaram-se com a força de vontade desse poeta, sentiram-se motivados a perseguir e batalhar com afinco pelos seus sonhos.
Abraços, Peu.
:*
A poesia é um bem que surge com naturalidade. Para ser poeta não precisa de esforço, não preisa ser letrado ou um acadêmico o poeta basta ter sensibilidade, e isso o Alfredo tem de sobra! Falando em sensibilidade:
“As gotas geladas de uma suave garoa tocam suavemente na terra seca e árida, em um fim de tarde em que o chão quente do semiárido agradece aos céus pela benção de encontrar com sua fonte de energia, exalando assim, o cheiro de terra molhada, sinônimo de prosperidade na vida do sertanejo. O São João, árvore típica da biodiversidade local, abre suas flores, amarelas feito ouro, provando para quem duvidar que a beleza surge no improvável. Em torno deste cenário, que flerta entre o belo e a simplicidade, encontro seu Alfredo Rosendo, um lapoense de expressão forte, alto, de voz firme e corpo esguio, com 89 anos de histórias, causos e lições de vida”
quanta sensibilidade tem esse reporter. História emocionante, bela e contada de forma magistral!
SEU ALFREDO
GOSTEI DE LER A SUA HISTÓRIA! EXEMPLO DE VIDA E DE SABEDORIA!
Seu Alfredo
Um Homem simples, com tamanha Sabedoria! Parabéns!
SENHOR ALFREDO
GRANDE POETA, EXEMPLO DE SABEDORIA E DE VIDA! PARABÉNS!
QUE MARAVILHA A VIDA DESSE SENHOR ALFREDO. SIMPLICIDADE E SABEDORIA!!!!
Senhor Alfredo!
Quanta beleza existe nesse Senhor Alfredo. Parabéns Grande Poeta!
Fiquei muito emocionada com a história do Senhor Alfredo. Parabéns pela Vida e pela Poesia.