As águas de março em pleno abril

Banho de sol


A semana que passou foi literalmente inundada de tragédias oriundas das fortes chuvas que ainda assolam parte do Brasil. Como um trator, essa tal frente fria vem varrendo o país, desde o Rio de Janeiro e já causa estragos em estados do nordeste, chegando até Pernambuco. Dos municípios atingidos, o mais castigado foi Niterói, com a catástrofe no Morro do Bumba e demais pontos da cidade, ou melhor, da minha cidade, pois foi lá que vivi quase 30 anos. O fenômeno natural que é tão reverenciado por poetas, cantores e tribos na famosa “dança da chuva”, também é capaz de trazer estragos irreparáveis. Até que ponto a natureza é responsável por tais eventos?

Em momentos de crise como este, todos procuram, ávidos, por um culpado ou, ao menos, uma explicação para fatos ocorridos como a avalanche de terra e detritos que dizimou vidas e sonhos em Niterói. Culpa do prefeito? Dos moradores? Dos que, clandestinamente, até hoje, despejam lixo em lugares inapropriados? Do desmatamento? Da ocupação irregular de solo? Do aquecimento global? Enfim, são tantas as possibilidades e cada uma delas tem sua parcela de responsabilidade. Acusar o poder público é a primeira saída, uma vez que tudo que ocorre de ruim é culpa do governo. É mais prático e já virou mania. O papel do À Queima Roupa não é defender, muito menos acusar ninguém, mas é fato que todos têm (e temos) nosso quinhão de cumplicidade, que vai desde um papel jogado no chão (que entope bueiros  e causa alagamentos em dias de chuva) até a derrubada ilegal de árvores no que resta de nossa mata.

Morro do Bumba - Niterói/RJ (O DIA online)

No caso do Morro do Bumba, especificamente, o agravante foi a comunidade ter sido construída sobre um lixão desativado. Além de pau e pedra, o tombo da ribanceira trouxe caco de vidro, demais detritos tóxicos e muitas vidas no fim do caminho… e no rosto o desgosto de muitos cidadãos que, apesar do alívio de estarem vivos, recomeçam do zero o projeto da casa em meio a tanta lama.

A música Águas de Março foi escolhida para este Banho de Sol. Ao analisar a letra, percebe-se um mosaico de objetos, num emaranhado de imagens misturadas, bem como a montanha de terra e detritos que se formou aos pés do morro.


Águas de Março

(TOM JOBIM)

É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um caco de vidro, é a vida, é o sol
É a noite, é a morte, é o laço, é o anzol

É peroba do campo, é o nó da madeira
Caingá, candeia, é o MatitaPereira
É madeira de vento, tombo da ribanceira
É o mistério profundo, é o queira ou não queira

É o vento ventando, é o fim da ladeira

É a viga, é o vão, festa da cumeeira
É a chuva chovendo, é conversa ribeira
Das águas de março, é o fim da canseira

É o pé, é o chão, é a marcha estradeira
Passarinho na mão, pedra de atiradeira
É uma ave no céu, é uma ave no chão
É um regato, é uma fonte, é um pedaço de pão

É o fundo do poço, é o fim do caminho
No rosto o desgosto, é um pouco sozinho
É um estrepe, é um prego, é uma ponta, é um ponto
É um pingo pingando, é uma conta, é um conto

É um peixe, é um gesto, é uma prata brilhando
É a luz da manhã, é o tijolo chegando
É a lenha, é o dia, é o fim da picada
É a garrafa de cana, o estilhaço na estrada

É o projeto da casa, é o corpo na cama
É o carro enguiçado, é a lama, é a lama
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um resto de mato, na luz da manhã

São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração

É uma cobra, é um pau, é João, é José
É um espinho na mão, é um corte no pé

São as águas de março fechando o verão,
É a promessa de vida no teu coração


Em contrapartida, na luz da manhã, a mobilização de voluntários, bem como doações de todos os lugares do país, trazem a promessa de vida aos corações das vítimas que, apesar de terem perdido parentes e pertences, recebem a ajuda de tantos brasileiros que,  anônimos ou não,  comprovam o valor dessa nossa Nação tão complicada e, ao mesmo tempo, tão especial.

Saiba como (e o que) doar  no link do G1.com:

http://g1.globo.com/Noticias/Rio/0,,MUL1561659-5606,00.html

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Sobre José Abbade

José Abbade (abbade@aqueimaroupa.com.br) é publicitário e poeta, pós-graduado em Docência do Ensino Superior (ABEC) e graduando de Letras na UCSAL. Autor do livro Bagagem de Mão – poesia em verso e prosa. Além de trabalhar na área de comunicação, desenvolve oficinas e cursos de expressão oral, recitais de poesia e saraus, através do seu projeto “Bem-dita Poesia, os deslimites da palavra viva”.