Eu gosto de ir para a Estrada

Com a palavra...


 

Valter Souza Menezes* 

Afirmo que se tem uma coisa que gosto de fazer quando tenho uns dias de folga é ir para a Estrada. Coloco-a em letra maiúscula, em preto e sublinhada inicialmente, porque ela é um lugar de responsabilidade, de respeito, de cumprimento de regras e porque existem coisas e coisas para serem apreciadas, como as paisagens que lateralmente elas cortam.

Tem muita gente que sabe dirigir bem nas vias urbanas dentro das cidades, mas nas estradas não deveriam se arriscar, pois um simples erro pode ser fatal. Fatal mesmo, com morte e tudo! Daí, já vai uma crítica: a maioria das escolas de motoristas do Brasil, não dá o mínimo de aulas práticas necessárias, de como o condutor de um veículo deve ser comportar nas rodovias da vida. Quem passou por uma dessas escolas, sabe que depois que recebeu a CNH, ou antes, no período de curso, não fez sequer uma pequena viagem para conhecer alguns macetes, algumas técnicas de como deve se comportar. Deveria ser obrigatório. A prática é uma coisa, a teoria é outra!

Segundo a imprensa local, no período junino de 2010, os dados apontaram para um aumento de pelo menos o dobro das ocorrências registradas nas estradas em 2009, quando dez pessoas morreram em mesmo período. A quantidade de feridos cresceu 67%, passando de 75, para 125 ocorrências. E a alta de acidentes revela o perigo nas estradas em 2010. Neste ano, foram 258 acidentes, contra 174 no ano passado. Um aumento de 48%. (Fonte: Jornal Tribuna da Bahia – 29/06). Esse número deve até ter sido maior, pois existem aqueles acidentes que não entram nas estatísticas, mas causam danos enormes.

Talvez se possa atribuir esse aumento ao excesso de velocidade dos veículos que verificamos, em virtude das visíveis melhoras das pistas. Existem condutores que, imprudentemente, estão voando baixo, fazendo ultrapassagem em locais proibidos, trafegando pelos acostamentos e se arriscando mais e mais. Registro que não vi um equipamento eletrônico limitando a velocidade, mas notei placas dizendo que ele existe. E nem vi nenhuma “blitz”. A chuva desse período junino também pode ter contribuído para esse aumento, assim como o grande número de condutores novos nas vias, sem o mínimo de experiência nessa condução.

Meu primeiro encontro com um acidente grave em uma estrada, foi em 1974, quando retornava do Rio de Janeiro. Um carro pequeno ultrapassou um ônibus, perdeu a direção, cruzando da esquerda para a direita o ônibus da Empresa Penha em que eu estava. Esse fato foi na BR 324, já bem próximo de Salvador. Foram três vítimas fatais. Depois, ficou comprovado que o erro foi do condutor do carro pequeno.

Em 1994, tive o grande prazer de dirigir uns 250 quilômetros, na madrugada, entre o Norte da Itália até Zurique, na Suíça, com mais três amigos. Foi a primeira vez em que entendi o motivo de os europeus saírem de um país para o outro, com tanta facilidade. Além da proximidade, da qualidade dos veículos e condutores, eram as vias magníficas, bem sinalizadas, policiadas, um verdadeiro tapete!

Não tenha dúvida de que, nos últimos anos, as estradas melhoraram muito. O asfalto tem sido renovado e em alguns lugares estão concretando as pistas. Pode levar o seu carro até o grande Nordeste pela BR 101, que você verá muitos trabalhadores recuperando as estradas, inclusive o Exército Brasileiro está trabalhando na construção, recuperação e duplicação de rodovias federais, além de fiscalizar obras executadas por empreiteiras da iniciativa privada.

Em alguns pontos, ela está sendo duplicada, o que seria ótimo se fosse em todo Brasil, ou pelo menos para as principais vias de trânsito, pois ainda, e por muito anos, teremos muito tráfego nas estradas brasileiras.

Claro que não é só asfalto em bom estado de conservação que faz uma boa estrada, mas ainda notamos muitos trechos com placas de sinalização vertical proibindo a ultrapassagem, mas, no mesmo local, a sinalização horizontal – aquela amarela que fica no meio da pista -, autorizando a manobra de ultrapassagem, inclusive em ladeiras. As laterais das vias não têm sinalização horizontal, o que dificulta a condução do veículo à noite ou quando o tempo está ruim, com neblina. Assim, você não sabe o que é pista ou acostamento!

Muitas lombadas sem sinalização da sua presença, ou então na cor do asfalto, o que representa um grande risco de acidentes. Ou, ainda, a placa está ao lado da lombada, dizendo: “Aqui lombada”. É de matar! Que tal colocar placas antes 300, 200, 100 e no local?

O motorista ao fazer uma curva muito fechada, sem conhecer a via, está se arriscando a avançar pelo canteiro lateral ou pela outra pista contrária, pois não tem placa de sinalização indicando a proximidade da curva e sua intensidade. Também não observamos os importantes “guard-rails” (guardas de proteção) pintados em cores vivas, que evitam que carros caiam em ribanceiras etc. Por falar em placas de sinalização, ainda registramos placas furadas a balas, com publicidades, escondidas entre o mato verde, sujas, quebradas e jogadas nas vias. É terrível a falta de manutenção!

Ainda temos os animais presos ou soltos nas proximidades das pistas e muitos, mais muitos locais sem sinalização alguma, o que fere o Código de Trânsito Brasileiro no seu artigo 88:

Nenhuma via pavimentada poderá ser entregue após sua construção, ou reaberta ao trânsito após a realização de obras ou de manutenção, enquanto não estiver devidamente sinalizada, vertical e horizontalmente, de forma a garantir as condições adequadas de segurança na circulação.”

Muitos veículos continuam fazendo transporte irregular de pessoas. São vans, ônibus sem identificação pegando passageiros etc. Volto a dizer que todos temos o direito de trabalhar e levarmos o pão para as nossas famílias, mas, a exemplo dos “mototáxis” de Salvador, que até hoje estão sem regulamentação, isso é uma afronta ao Estado e a quem anda corretamente. Essa coisa só tem repressão forte, quando ocorre um acidente grave com mortes, como já ocorreram vários no nosso Brasil, com repercussão internacional.

Claro que sou um motorista observador dessas coisas, pois já fui instrutor de trânsito, mas, para terminar este texto, as coisas importantes que vimos diariamente em todas as estradas do Brasil, são ainda os veículos trafegando nas vias com o farol apagado, inclusive das grandes empresas de ônibus e transportadoras. Não é luz de estacionamento, é farol baixo aceso direto, minha gente! Apesar de ainda ser uma recomendação para veículos e uma obrigação para motos, essa ação nas estradas é positiva. Inclusive nos dias de chuva fiz esse registro. Farol ligado representa mais atenção e menos acidentes. O pior é que muitos passam por você dizendo que seu farol está aceso.

É necessário que a imprensa faça mais matérias sobre esse assunto, com fotos e dados, pois isso significa mais esclarecimento e menos acidentes e menos mortes. E que as instituições que têm o dever legal de fiscalizar, recuperar, operar as nossas estradas, independentes de que sejam federais ou estaduais, ou ainda municipais, tenham mais atenção referente às situações relatadas acima.

Que possamos ir para a Estrada certos que teremos mais segurança e motoristas mais conscientes!!!

*Valter Souza Menezes é major da PM-BA, comandante da Rondesp/Atlântico e bacharel em Direito.

Textos relacionados:

  1. Fé em Deus, pé na estrada
  2. Um assalto na estrada
  3. Crimes são constantes na estrada em que delegado foi morto
  4. Eu gosto da Suíça
  5. Usuário de drogas ilícitas – me engane que eu gosto…

Os artigos publicados nesta seção são de responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, a posição do À QUEIMA ROUPA.

Sobre Jaciara Santos

Jaciara Santos (jaciara@aqueimaroupa.com.br) é sergipana de Aracaju, mas atua como jornalista profissional em Salvador-BA, já há quase três décadas. Foi repórter, chefe de reportagem, pauteira, editora de Cidade, Política e Economia, colunista e subeditora de Segurança. Premiada duas vezes no extinto concurso de reportagens da Associação Bahiana de Imprensa, em 2003 conquistou também o prêmio Banco do Brasil na categoria reportagem por uma série de matérias sobre a ação dos grupos de extermínio na Bahia.