Dijalma de Ogum, aos 19 anos, o pai-de-santo mais jovem da Bahia

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Dijalma: 'Respeito todos que seguem outras religiões'

Respeitado pela comunidade e por integrantes mais velhos da religião, o jovem Dijalma dos Santos, 19 anos, ou simplesmente Dijalma de Ogum, líder do terreiro Ylê Axé Orixalá, no bairro Ida Cardoso, em Lapão, cidade do semiárido baiano, é reconhecido pelo programa do governo federal “Terreiros do Brasil” como o pai-de-santo mais jovem da Bahia. Dijalma que herdou os conhecimentos da avó Rosália, sacerdotisa de um terreiro em Lagoa do Gaudêncio, comunidade remanescente de quilombola, conheceu a religião ainda pequeno e logo sentiu a vocação para o candomblé.

- Comecei  a zelar de santo (cuidar das imagens e do ambiente) com apenas sete anos, via minha avó fazendo as obrigações dela no terreiro e sempre tive vontade de fazer também. Três anos depois, com dez anos, ela parou e comecei a herdar as coisas dela:  meu tio jogou os búzios e os orixás me apontaram como o seu sucessor – conta.

Depois de alguns meses se preparando,Dijalma  tornou-se pai-de-santo. “A primeira vez que incorporei foi muito forte, senti uma força que não sei de onde veio. Certa vez, tentei parar, mas a força dos orixás foi maior que a minha e sigo até hoje”, lembra.

O terreiro Ylê Axé Orixalá é uma casa de Oxalá. Ali predomina o branco (a cor do orixá) e vê-se imagens, entre incensos e velas. As portas são pintadas em azul, numa referência a Ogum, o orixá guia de Dijalma. O templo é frequentado por pessoas das mais diversas faixas etárias - não é raro ver crianças e adultos dividindo o mesmo espaço, todos respeitando Dijalma como líder e conselheiro espiritual.

- A relação é de pai. Muitos me chamam de padrinho. Temos filhos de santo na casa, que vão dos quatro aos 50 anos. Crianças ou adultos todos me respeitam – diz, o babalorixá. Ele conta que muitas pessoas lhe procuram em busca de paz, às vezes por falta de saúde e trabalho ou devido a desavenças sentimentais. “Elas chegam para pedir conselhos e serem ouvidas, converso  muito com elas e fazemos orações. Algumas vezes indico uns banhos, com plantas da mata, morada de Oxóssi”. De acordo com Dijalma, os banhos com as folhas de Ossanha, proporcionam paz, força e afastam os espíritos ruins que, por ventura, estejam “atrapalhando” o cliente: “Muitos deles, com apenas um banho, já se sentem melhor”, garante o jovem pai-de-santo.

Existe preconceito, mas  já mudou muita coisa’

O terreiro de Dijalma realiza frequentemente aulas com pessoas interessadas sobre a cultura negra, falando de ensinamentos do candomblé com as histórias dos orixás e os cânticos, ajudando a preservar e imortalizar a cultura afrodescendente.  “Também ajudamos pessoas a se libertarem de vícios e de coisas ruins desse mundo”, assegura. “Aqui mesmo, veio um rapaz alcoólatra. Ele e a mulher bebiam bastante, deixando a família desestruturada. Ele veio aqui, conversamos muito e trabalhamos para resolver isso. Agora ele está aqui conosco e largou o vicio”, exemplifica.

Apesar ser uma religião secular, o candomblé, assim como outras manifestações da cultura negra, ainda é alvo de represálias e preconceitos em várias partes do mundo. Não seria diferente por aqui. Apesar de afirmar não se incomodar, Dijalma diz que até viatura policial já esteve no terreiro por conta de uma falsa denúncia. “Tinha uma senhora que dizia que fazíamos coisas para o diabo, chamou a polícia uma vez, mas ela nunca conseguiu fazer nada demais conosco”, revela. “Existe muito preconceito, mas em nove anos de trabalho, percebo que já mudou muita coisa”, admite.

Convicto quanto à importância dos dons de que é portador, o mais jovem pai-de-santo da Bahia diz não ter vergonha de divulgar amplamente a sua religião, “que é bela e prega o bem”, ressalta. “Cada um segue o caminho que Deus abriu para seguir, por isso respeito todos que seguem outras religiões”, conclui, com humildade.

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Sobre Pedro Moraes

Pedro Moraes (pedro@aqueimaroupa.com.br) se formou em jornalismo na UNIJORGE e fez especialização em cinema pela UCSAL. Atuou como assessor de imprensa para deputados, vereadores e prefeitos, tem experiência com fotojornalismo e dirigiu alguns curtas-metragens, como o documentário Ankh. Atualmente, é repórter e editor do Jornal Keta, Moço! na microrregião de Irecê-BA.