Cláudia Pugliesi: ensinando e aprendendo com a dança do ventre

Gente é pra brilhar


Mistura de vários compostos, leve, livre e fluido, esse é o ar. Presente em todos os cantos, desregrado e desobediente a grades e barreiras, o ar se movimenta conforme o seu ritmo e perpassa os ambientes de forma delicada quando é brisa ou intensa quando é ventania. Para algumas religiões, ele é a manifestação da energia divina e é muitas vezes representado por uma pena ou pelo incenso. O que pode ser mais leve do que uma pena, mais fluido do que a fumaça que sai do incenso queimado? E assim, livre, é que a bailarina de dança do ventre e professora, Cláudia Pugliesi, se define quando está dançando. A associação é tamanha que, dos quatro elementos da natureza que a dança do ventre reconhece – o ar, a água, o fogo e a terra –, ela é do elemento ar. No palco, Cláudia diz não conseguir dançar seguindo uma coreografia. Naturalmente e instintivamente os movimentos começam a surgir, e vai se formando ali, no momento presente, os passos, a sua própria criação. Ela é improvisação. Percorre todo o palco, todos os cantos, como o ar. Desobediência divina ou simplesmente ela mesma, sem ensaio.

Há dez anos a mulher tímida, que quase não falava nas rodas de amigos e familiares, ingressava no mundo místico da dança do ventre. Embora pouco conversasse, a música, qualquer que fosse, sempre foi o maior e mais infalível antídoto contra a sua inércia ou pouca expressão. Bastava uma melodia para o seu corpo se soltar e, dançando, esquecer a vergonha, interagindo com as pessoas, com o ambiente. O caminho já estava traçado. A dança era mesmo o seu oásis. E foi atraída pela dança que, ao ver um cartaz de divulgação de aulas de dança do ventre, que exibia a foto de uma mulher muito bonita, com roupa típica, e o corpo indicando ritmo, decidiu experimentar. Fez algumas aulas em algumas academias de Salvador, mas foi com Márcia Mignac, bailarina e estudiosa de dança do ventre, que ela se encontrou.

Cláudia, mostrando na dança, o elemento ar. (www.aldeiaventre.com.br)

Em paralelo, a mulher que começava a desabrochar, ocupava outro papel. Era auxiliar administrativa numa multinacional. “Eu ganhava muito pouco. Trabalhava para pagar a babá da minha filha”, conta. Cláudia formou-se em contabilidade, tornou-se técnica em enfermagem, tinha um emprego padrão e se comportava como a mulher recatada, boazinha e imaculada. Era uma funcionária exemplar, mas infeliz. E a dança foi dando mais colorido a sua vida.

Matriculou-se nas aulas de dança do ventre, com muito sacrifício, pois não tinha muitos recursos financeiros. Em pouco tempo já freqüentava as turmas mais avançadas até tornar-se professora. “Enquanto as meninas já estavam cansadas, eu pedia mais! Cheguei a fazer quatro horas de aula seguidas. Ficava cansada, mas muito feliz.”, relembra Claudia. Começou a vender saias, xales, e outras roupas para dança do ventre, e obteve sucesso neste ramo. A dança começou a ocupar mais espaço na sua vida e ela resolveu demitir-se da multinacional. A bailarina passou a conhecer as origens da dança do ventre e a entender que vai muito além das coreografias. “A mulher que começa a fazer a dança do ventre ficar com um ar diferente, como se estivesse apaixonada.”, define. Para Claudia, a dança desenvolve a intuição, faz a mulher olhar para dentro de si e conhecer o seu corpo. Por isso, segundo ela, é mais do que natural as turmas começarem com 10 alunas e terminarem com cinco, por exemplo. “Não é fácil. A dança mostra o que a pessoa esconde, ou por preconceito ou porque, historicamente foi tolhida de se mostrar como é. A essência é quem passa a dançar, e isso mexe muito com a gente”, explica.

O corpo e a mente passam a ser mais percebidos. Isso Claudia notou logo de cara. Começou a atentar-se mais para as “dicas” que o seu corpo mostrava. Uma dor de estômago, antes irrelevante, passou a ter significado além do físico. E, após viver uma experiência desagradável de doença, a bailarina se comprometeu ainda mais com ela mesma e com o seu bem estar. O seu corpo passou a ser seu amigo fiel, que denunciava tudo que havia de errado. E, lendo alguns autores que fazem relação direta do corpo com energia e a mente, assim como na dança do ventre, ela aprendeu que alguns problemas de saúde, sobretudo o que ela teve, “acumulam” todos os nãos que a mulher deveria ter dito ao longo da vida e não teve coragem. Agradar o outro e não a si mesmo, e por ai vai. E, a partir desse fato, ela é, mais do que nunca, Cláudia, com todas as suas vontades e planos atendidos, na medida do possível, mas agora colocados como prioridade.

Cláudia e suas alunas no I Festival Aldeia Ventre, em 2008. (www.aldeiaventre.com.br)

E são ensinamentos como esses que a professora transmite em sala de aula, para as suas alunas. Ela ensina que para se iniciar na dança do ventre não basta somente querer aprender a ser sensual para o marido ou perder uns quilinhos a mais. A dança do ventre tem história, magia e muitos princípios. Hoje, ela tem um espaço onde reúne aulas de dança do ventre, tribal, cigana e de salão, além de pilates, yoga, loja de artigos para dança, organiza excursões para o Egito, entre outras coisas. É a Aldeia Ventre, localizada na Pituba. Uma casa confortável e acolhedora que, durante o dia, é iluminada pela luz do sol. Exala um cheirinho de lavanda, que deve vir, talvez, de aromatizantes artificiais ou incenso. Tem um quintal com plantas e as salas de aula são climatizadas e espaçosas.  Tem vida. Energia boa.

E assim, Cláudia Pugliesi tornou-se profissional naquilo que sempre te fez feliz, mesmo em momentos casuais, de festa e lazer, sem perceber. Ela é dançarina. Busca ser ela mesma e compartilha essa realidade com outras mulheres, através da dança do ventre que tanto a transformou. Este é seu trabalho, que a sustenta, paga as contas, etc., e que também pode ser chamado de sonho concretizado.

Contatos de Cláudia Pugliesi

Tel: (71) 9983-8500

Aldeia Ventre: Rua São Paulo, nº 773, Pituba.

Tel: (71) 3248-6242.

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Sobre Flavia Vasconcelos

Flavia Vasconcelos (flavia@aqueimaroupa.com.br) ingressou na Unijorge em 2004, iniciando o curso de Comunicação Social em Jornalismo, finalizando em abril de 2008. Atua na área de jornalismo cultural, produzindo e prestando assessoria de comunicação em eventos culturais (exposições, festivais). Foi assistente de direção do Festival Nacional A Gosto da Fotografia e coordena, junto com o fotógrafo Marcelo Reis, o Projeto Modos de Ver. Adepta do jornalismo literário e humanista, é autora do livro-reportagem Jornaleiros Militantes, feito para trabalho de conclusão de curso de graduação. Pretende seguir carreira no jornalismo literário.