Alcoolismo: uma fantasia para enfrentar os problemas

Especial


  

   

Já era tarde. Aproximadamente 2h da madrugada de uma quinta-feira, o empresário Marcelo*, pai de quatro filhos, casado, 45 anos, não estava em casa com a família, mas apenas começando mais uma noite, sentado numa mesa de bar, comendo carne assada e curtindo uma rua quase vazia, regada a muito álcool. E aquele não era um dia atípico na vida dele e sim sua rotina.

Na mesma cidade e noite, em outro bar, encontro o agricultor Fernando*, um jovem de 25 anos, cabelos compridos, de visual rebelde, porém tímido. Sentado à frente de um balcão sombrio, repleto de copos mal lavados, o rapaz se queixava da vida, em um cenário triste e revelador, que se tornara o palco para seu passatempo e fuga diários: se embriagar.  

“Colega, vamos fechar”, diz o garçom, mas Marcelo não tem vergonha de insistir na terceira “saideira” da noite. A cerveja, com uma fina camada de gelo sobre a garrafa, chega à mesa transformando o ato em quase um orgasmo, o já embriagado empresário sorri e diz com indisfarçável prazer: “Essa Antártica está gostosa!”.  

“Tive um dia estressante”, comenta Marcelo. “Trabalho o dia todo e, quando chego em casa, só tem problemas para resolver, por isso preciso tomar uma para relaxar”, justifica-se. Ele revela que bebe quase todos os dias e lista algumas das razões para manter essa rotina:  

- Mudo bastante quando dou um gole. Sou tímido, fico falante; se estou estressado, fico calmo; se triste, logo começo a rir. Nunca pensei em parar de beber. Minha mulher não gosta, todo dia que chego de madrugada é sempre uma confusão diferente, mas, ela querendo ou não, preciso curtir um pouco – diz o empresário.  

Fernando procura um efeito diferente. Para ele, o álcool é uma ferramenta auxiliar às técnicas da sedução, porém, o tiro sempre sai pela culatra.  

- As mulheres não gostam de homens que não bebem. Quando tomo alguma coisa, tenho coragem para chegar em uma garota e trocar uma ideia, mas quando estou sem beber, a noite fica chata e nada acontece. O problema é que, quando começo a beber, não consigo parar e faço coisas que normalmente nunca faria: xingo pessoas que gosto, falo mal, brigo se encherem meu saco e me sinto tão livre que faço desta cidade um Woodstock – conta.  

Segundo amigos, o comportamento de Fernando quando bebe é tão irreverente que acaba afastando a todos, inclusive as possíveis pretendentes e familiares, gerando preconceito e solidão. “Muita gente fala mal de mim sem nem me conhecer, me julgam pela aparência, dizem que me viram cheirando cocaína ou fumando maconha. Não tenho nada contra as pessoas que fazem isso, porém é muito ruim levar fama de algo que não fiz e quando isso acontece, fico ruim e bebo ainda mais”, desabafa Fernando.  

*Marcelo e Fernando são nomes fictícios para preservar as identidades das fontes.  

Roberto, ao lado da família

Fé e persistência para se livrar do alcoolismo  

Ao contrário de Marcelo e Fernando, com fé e determinação ele venceu o álcool, enfrentou os problemas e o preconceito, refazendo os rumos de sua vida que estava direcionada para o final de um túnel sem esperança e luz. Influenciado pela figura paterna, João Roberto começou beber com nove anos.  

- Lembro que fazia compras nos povoados com meu pai e quando ele estava sóbrio me dava uma tubaína (tipo de refrigerante muito popular no interior da Bahia) para tomar, mas quando ele começava a beber, dizia: “Você tem que ser igual ao seu pai!”. Então, lembro que ele bebia e me dava uns goles, ficava rapidamente bêbado. Quando ele ia fumar sempre fazia dois cigarros, um para ele e outro para mim – recorda.  

Mas, apesar de o pai lhe ter influenciado no uso abusivo de bebida e cigarro, Roberto não guarda mágoas dele, mas ressalva: “Tenho certeza de que a única coisa boa que meu pai me ensinou foi a ser honesto e trabalhador”, entende.  

Da euforia ao fundo do poço  

Quando se tornou adolescente, Roberto deixou as más influências ganharem “pernas próprias” e o álcool começou a tomar conta do seu dia a dia. Ao perceber o erro, o pai tentou corrigir, oferecendo conselhos e sermões, porém, era tarde, o menino tinha crescido e a droga se tornou uma “amiga” ajudando-o a ficar mais solto para conquistar as garotas e se divertir. 

- Comecei a tomar umas duas quando frequentava uma festa, depois esse processo foi evoluindo. Na época, estava trabalhando e, com um dinheirinho no bolso, fui cada vez mais me afundando. Tem gente que bebe para cair, no meu caso, a situação estava tão feia que estava com a lógica invertida, quando eu parava de beber eu caía – relata. 

A dependência de Roberto com o álcool realmente era grande. Ele confessa que quando ia colher cenouras, deixava um litro de cachaça escondido no reboque do trator e colocava uma mangueira na boca da garrafa, trazendo-a até o banco. Quando sentia vontade de beber, era só puxar a cachaça pela mangueira. Fazia isso para camuflar o vício, ele explica,”porque um alcoólatra não gosta de ficar mostrando esse defeito a ninguém”. 

Roberto teve um relacionamento rápido com uma namorada e teve um filho. Depois, conviveu com outra mulher por dez anos, tendo mais três crianças. Nesse período, ele começou a trilhar, em passos mais largos, sua caminhada para um submundo que parecia sem volta, chegando a ter diversas convulsões e discussões dentro de casa. 

- A primeira coisa que aconteceu comigo foi considerar como inimigos os meus verdadeiros amigos e familiares que se preocupavam comigo e me davam conselhos para parar de beber. Não me lembro de nada, bater nela eu sei que nunca bati, mas verbalmente sei que a machuquei bastante, fazendo diversas acusações – narra.  A companheira  não resistiu à convivência e saiu de casa com os filhos. “Ela levou tudo, só deixou um colchão” diz Roberto. 

Daniel, de 16 anos, filho mais velho de Roberto, recorda de uma época que, ele espera, não tenha volta: “Meu pai me mandava comprar bebidas para ele, mas me sentia triste, não gostava de ver as pessoas me dizendo que ele estava louco e que iria morrer. Ouvia aquilo e ficava quieto, não falava nada, mas por dentro orava para que Deus ajudasse ele. Pai foi para um centro de recuperação e oramos ainda mais”, lembra o adolescente.  

“Sabe Lázaro? O personagem bíblico?” – pontua Roberto -  “a única diferença que tinha dele era o fôlego da vida, mas já estava cheirando mal, foi então que Militão do Maanaim me procurou e me levou para o centro de recuperação”. 

O começo foi difícil, a abstinência do álcool no organismo é uma fase complexa à qual muitos não resistem e terminam abandonando o tratamento. Para Roberto, foram os piores dias da sua vida. 

- Quanto mais injeções de tranquilizantes aplicavam em mim, parecia que ficava mais forte. Chegaram a me amarrar sozinho em um quarto, parecia um louco. Nos dez primeiros dias sem álcool, não comia por minhas mãos, tremia muito, ficava envergonhado e esperava todos comerem para que quando estivesse mais vazio começasse a me alimentar. Mas não conseguia fazer aquilo sozinho, pegava um copo de água e me molhava, foi então que comecei a dar valor a coisas simples, como tomar um banho, usar desodorante ou comer. No centro, via pessoas que nem me conheciam se dedicando, me ajudando e orando por mim, isso me comoveu – diz.  

Uma trajetória de sucesso 

Após essa etapa, Roberto, sentiu que estava curado e três meses depois do internamento pensou em sair do tratamento. “O centro é um local para pessoas com problemas, todos rejeitados, quando alguém fica em um local desses, sozinho, você se pergunta: o que estou fazendo aqui? Foi então que tive um encontro verdadeiro com Deus, senti a presença dele e descobri que não estava ali para buscar apenas libertação do álcool  e sim uma mudança radical em minha vida.  A partir disso, meu cotidiano mudou e percebi que tinha encontrado um alicerce, que é Jesus. Logo  passei de aluno interno para voluntário e comecei a ajudar os obreiros, viajando com eles para ajudar outras pessoas e captar recursos para instituição”. 

 Roberto voltou para Lapão – município baiano da microrregião de Irecê, a a 495 quilômetros da capital - recuperado, porém, quando chegou, muitos indagavam: será que ele melhorou mesmo? “A sociedade não era obrigada a me receber de braços abertos”, reconhece. Mas,  mesmo assim, ele conseguiu um emprego na construção de uma rede de esgoto e depois outro de padeiro, readquirindo a confiança da sociedade. Com a ajuda da mãe (a “Dona Sinhá”), ele conheceu Célia, com quem está casado oficialmente há quase quatro anos. Ela não pode ter filhos, mas o ajuda a cuidar dos quatro filhos dele que moram com o casal. “Graças a Deus, tudo tem dado certo e vivemos em harmonia”, alegra-se Roberto.  

- Hoje sou uma referência, era a ovelha negra da família e depois de sair do fim do poço, me tornei diácono de uma igreja evangélica, continuo como padeiro e estou inserido na sociedade. Minha família e amigos se dirigem a mim para pedir conselhos e orações, sinto orgulho da transformação que Jesus fez na minha vida, por isso, dou um testemunho de superação a cada dia com atos, ações e palavras  mostrando a todos que realmente mudei – conclui. 

Ajuda para a recuperação 

Como Roberto, que se recuperou através da religião, depois de atingir fundo do poço, o empresário Marcelo e o agricultor Fernando podem buscar ajuda e apoio especializados. Além de entidades como a Manaaim, organizações como a irmandade Alcoólicos Anônimos também atuam no combate ao abuso do álcool. 

De acordo com o site da organização, existem na Bahia, hoje, 216 grupos AA distribuídos por cinco macrorregiões do estado: Salvador, Feira de Santana, Vitória da Conquista, Jacobina e Paulo Afonso. Para saber as cidades em que existem grupos do AA, clique aqui

OS DOZE PASSOS DOS ALCOÓLICOS ANÔNIMOS 

1. Admitimos que éramos impotentes perante o álcool – que tínhamos perdido o domínio sobre nossas vidas. 

2. Viemos a acreditar que um Poder Superior a nós mesmos poderia devolver-nos à sanidade. 

3. Decidimos entregar nossa vontade e nossa vida aos cuidados de um Poder Superior, na forma em que O concebíamos. 

4. Fizemos minucioso e destemido inventário moral de nós mesmos. 

5. Admitimos perante o Poder Superior, perante nós mesmos e perante outro ser humano, a natureza exata de nossas falhas. 

6. Prontificamo-nos inteiramente a deixar que Deus removesse todos esses defeitos de caráter.

7. Humildemente rogamos a Ele que nos livrasse de nossas imperfeições.

8. Fizemos uma relação de todas as pessoas a quem tínhamos prejudicado e nos dispusemos a reparar os danos a elas causados.

9. Fizemos reparações diretas dos danos causados a tais pessoas, sempre que possível, salvo quando fazê-las significasse prejudicá-las ou a outrem.10. Continuamos fazendo o inventário pessoal e quando estávamos errados, nós o admitíamos prontamente.

11. Procuramos, através da prece e da meditação, melhorar nosso contato consciente com Deus, na forma em que O concebíamos, rogando apenas o conhecimento de Sua vontade em relação a nós, e forças para realizar essa vontade.

12. Tendo experimentado um despertar espiritual, graças a estes Passos, procuramos transmitir esta mensagem aos alcoólicos e praticar estes princípios em todas as nossas atividades.

Fonte: http://www.aabahia.org.br

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Sobre Pedro Moraes

Pedro Moraes (pedro@aqueimaroupa.com.br) se formou em jornalismo na UNIJORGE e fez especialização em cinema pela UCSAL. Atuou como assessor de imprensa para deputados, vereadores e prefeitos, tem experiência com fotojornalismo e dirigiu alguns curtas-metragens, como o documentário Ankh. Atualmente, é repórter e editor do Jornal Keta, Moço! na microrregião de Irecê-BA.