Fotos: Paulino José
A entediante e às vezes tensa viagem de ônibus é animada pela presença extravagante e alto astral de uma figura que conta casos e improvisa piadas, enquanto transforma passageiros, motorista e cobrador em personagens (ou seriam vítimas?) das suas histórias. Tímidas a princípio, aos poucos as pessoas terminam caindo no clima e o riso se torna fácil. E como resistir ao jeito cativante e até ingênuo de Rosamunda Tereza Francisca Batista, que não tem pudor em dividir, com a agora platéia e quase cúmplice, aspectos desconcertantes de sua intimidade, como os 13 filhos gerados de pais diferentes e todos de coito interrompido? Nessa hora, é aconselhável que os homens não se arrisquem em dar gargalhadas, pois podem ser apontados pela chorosa mãe como pais desnaturados das crianças. Afinal, a situação em casa não está nada fácil e é preciso alimentar a faminta prole. As mulheres também não escapam da língua afiada de Rosamunda e sua mal disfarçada inveja, ao criticar roupas, fadadas a encolher e desbotar, bolsas, classificadas como de qualidade duvidosa, ou os cabelos de chapinha, incapazes de resistir à chuva. “Quando eu saí de casa, meu cabelo estava assim, igualzinho ao seu. Foi só tomar chuva e olha como eu fiquei”, diz apontando para a enorme peruca de cor clara em estilo hippie dos anos 60, diante de uma jovem risonha, dona de madeixas longas e lisas.
A cada parada do ônibus, novos passageiros engrossam o coro de risos, ao se deparar com aquela estranha mulher, que não pode ser considerada exatamente um modelo de elegância, em combinações improváveis de saia longa preta, camiseta cor de abóbora, botas de couro, enorme bolsa vermelha e óculos escuros, seja qual for a estação. Mas não adianta se entusiasmar. O chamego dela, sem dúvida, é voltado para o cobrador e o motorista. Até parece paixão recolhida quando dirige o olhar a um dos dois e se desmancha em gentilezas, oferecendo jantares de pratos exóticos, a exemplo de rabo aberto com bem pimenta, o favorito do motorista, ou o bacalhau, salgado na medida, como gosta o cobrador. Pena que ele é hipertenso e só poderá cheirar. Quem sabe um castigo divino, por não assumir o filho e nunca colaborar com a pensão alimentícia, numa total insensibilidade aos apelos de Rosamunda, sempre com uma extensa lista de necessidades nas mãos. “Quando for pra casa, leve pelo menos pão e café”, insiste, com voz embargada.
Numa tentativa de se mostrar importante, chora emocionada dizendo que recebeu um convite para atuar na televisão. “Breve, vocês irão me ver na capa da Globo Rural. Obrigada, gente. Eu devo isso a vocês”. Como num passe de mágica, essa mulher alta e de voz bem colocada, muda radicalmente o vocabulário e simula falar ao celular. Na fictícia conversa, lembra o direito dos idosos, portadores de deficiência e grávidas de viajar sentados, observa a postura dos homens, “aqui, eles não sentam de perna aberta”, e elogia o gesto gentil de quem está sentado e segura objetos daquele que tenta se equilibrar em pé. A viagem está chegando ao fim. Cédulas e moedas são sacadas de bolsas e carteiras, numa generosidade poucas vezes vista. Pelo menos por hoje, está garantido o alimento dos filhos de Rosamunda.
Antes, eu pedia para entrar nos ônibus. Hoje disputam minha presença’
Por trás da caricatura, o ator, diretor e autor teatral, George de Sousa Santos, baiano, 48 anos, casado e pai de três filhos, se diverte com Rosamunda, a quem deu vida há um ano, tornando-a conhecida de quem frequenta os ônibus que fazem linhas em Salvador e na região metropolitana. Ao batizá-la com nome tão extenso quis homenagear as mulheres e sua importância para a o mundo (Rosa-munda), sua mãe (Francisca) e o concunhado (Batista). Todos unidos pela força de Tereza “que amarra, que faz junção”. Ele conta que gasta duas horas para se transformar em Rosamunda, devido ao uso da lycra praia, uma espécie de segunda pele que veste e que reduz em 30% a sua capacidade respiratória.
“É uma dor muito grande, porque eu trabalho muito com o diafragma e ainda tenho que deixar a voz acima dos ruídos internos e externos”, explica. Mas ele reconhece que a aceitação do trabalho vale o preço. “Antes, eu tinha que pedir aos motoristas para entrar nos ônibus. Hoje, eles disputam a minha presença e eu fico em falta porque não posso atender a todos. É gratificante demais pra mim, quando termino o trabalho e vejo que está todo mundo conversando e descontraído dentro do ônibus”. A empatia com Rosamunda é tanta, conta George, que muita gente já chegou a chorar e uma mulher se urinou de tanto rir. Outros demonstram a satisfação através do dinheiro. “Já recebi notas de 20, 50 reais. Teve uma senhora que meu deu cinco reais, dizendo que daria mais se tivesse, porque eu a fiz feliz”.
Em sua opinião, tanta receptividade pode ser atribuída a fatores como a inibição da violência nos veículos, maior integração entre as pessoas e até como uma forma agradável de passar o tempo, principalmente quando há engarrafamentos. Aceito pelos rodoviários e passageiros, George agora sonha em fazer uma parceria com os empresários do sistema de transporte coletivo. “Não uma parceria financeira, mas um envolvimento. Eles poderiam produzir e colocar cartazes de Rosamunda nos ônibus. Isso criaria uma expectativa em quem ainda não conhece a personagem”. Com a mesma desenvoltura com que anda de ônibus na sua missão de formar plateias e levar mensagens de cunho social, Rosamunda tem percorrido diversos eventos, dentre os quais aniversários e recepções, enquanto o seu criador é convidado a dar aulas de teatro em escolas, condomínios e empresas, onde também presta consultoria na área.
Quando o nome do rei foi anunciado eu entrei cantando Emoções’
Tão surpreendente quanto a trajetória de Rosamunda, foi o início da carreira de George, uma aventura que tinha tudo para dar errado. Formado em administração de empresas, ele trabalhou no Pólo Petroquímico de Camaçari até 1989, mesma época em que seria realizado um festival de Santo Antônio em Dias D’Ávila, cidade da região metropolitana de Salvador. “Como eu tinha uma facilidade muito grande pra mentir, eu dizia a todo mundo que era ator, sem saber que isso já era a manifestação do ator que morava dentro de mim”. O fato é que a organização do festival solicitou que George escrevesse uma peça, no curtíssimo espaço de 48 horas. Como alternativa, em lugar do texto que ele não tinha a mínima idéia de como escrever, decidiu satirizar Roberto Carlos. E ele se levou tão a sério, que convenceu o prefeito local de que o cantor se apresentaria na praça do município. “Coincidentemente, o rei estava em Salvador visitando Irmã Dulce. Como, politicamente, seria um evento maravilhoso para o prefeito, ele não pensou duas vezes em me ajudar”.
E não foi pouca a ajuda. As exigências de George a la Roberto Carlos foram todas generosamente atendidas. A Prefeitura de Dias D‘Ávila alugou e pôs à sua disposição cinco carros zero quilômetro, cada um com quatro seguranças, e o prefeito acompanhou o ator nas emissoras de rádio da cidade para divulgar a apresentação de RC. Na noite do suposto show, o camarim, decorado em tom claro como o cantor prefere, foi abastecido com toalhas brancas e bandejas de doces. A praça ficou lotada, inclusive com caravanas vindas de cidades vizinhas. “Combinei com uns amigos para dar um blecaute na cidade. Quando o nome do rei foi anunciado, em meio a aplausos e gritaria, eu entrei cantando Emoções. Na hora em que a luz voltou, houve um breve silêncio e depois muitas gargalhadas. Minha trajetória começa a partir daí”.
Longe de transformar o fato em um problema, o prefeito reconheceu o talento de George, de quem se tornou amigo e incentivador da carreira. “Ele financiou minha ida ao Rio de Janeiro, onde ganhei experiência com teatro, mas percebi que precisava voltar e fazer um curso”. E, mais uma vez, ele acertou. Com orgulho, conta ter conseguido ser aprovado no disputado curso de formação de atores do Teatro Castro Alves. “O teatro é algo na minha vida que vem dando certo e eu não consigo fazer mais nada”, conclui.
Contatos
Telefone: (71) 8803-7431
E-mail: george-brasil@hotmail.com.
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