Pedro Santos, um artesão da música instrumental

Gente é pra brilhar


Pedro, o criador e suas criações: 'Nunca tive professor diretamente'

Até então carpinteiro, Pedro Santos, nascido e criado na fazenda Curral de Varas, próximo a Guanambi, cidade do sudoeste baiano, a aproximadamente 800 km de Salvador, já tinha a madeira como sua velha companheira. Matéria-prima que se transformava, em suas mãos, em objetos diferentes, com inúmeras formas e utilidades. Mas a música, apresentada a ele na infância, lhe foi guiando para outra profissão, não muito ou quase nada distante da anterior, mas intimamente ligada aos acordes e às notas musicais. Ele se tornou um luthier – palavra francesa que, traduzida em bom português, significa “fabricante de instrumentos de corda” – unindo a habilidade adquirida de carpinteiro com o gosto pela música e a sensibilidade, cultivados desde pequeno. Uma viola foi o primeiro instrumento construído e guardado até hoje como uma espécie de amuleto. Com habilidade e dedicação, a viola foi se formando, inaugurando sua carreira em 1990. Hoje, ele é um dos mais requisitados luthiers baianos, tanto por conta da qualidade dos instrumentos que fabrica, como pelo profissionalismo demonstrado no cumprimento de prazo nas entregas e no bom relacionamento com os clientes. Além da viola, Pedro tem em seu “cardápio instrumental”, violões, cavaquinhos e bandolins, mantendo uma clientela fixa onde figuram nomes de peso como Armandinho Macedo, Missinho Santos (ex-Chiclete com Banana), Pedro Moraes, entre outros. Confira a entrevista com Pedro Santos e saiba um pouco mais sobre ele e a sua profissão.

Você teve algum mestre que lhe ensinasse a fabricar os instrumentos?

Não. Nunca tive professor diretamente. Troquei ideias com algumas pessoas que entendiam alguma coisa do assunto, peguei informações de livros,  jornais, revistas etc…

Começou por qual instrumento?

Comecei por uma viola, que, inclusive, tenho até hoje.

Qual a sua relação com a música instrumental e com os instrumentos de corda? Vem desde a infância?

Sim, desde a infância já me relacionava com a música, ouvindo e tentando fazer alguns solos no cavaquinho e  com 12 anos passei para a viola de 10 cordas. Ainda hoje continuo tocando e fazendo alguns trabalhos instrumentais quando me sobra tempo, mas a minha dedicação exclusiva é na confecção de instrumentos.

Quantos anos de profissão? Já teve outra atividade profissional?

O primeiro instrumento eu fiz por volta do ano de 1990, mas com dedicação na profissão mesmo tem nove anos…
Antes da lutheria, eu era carpinteiro, e isso me ajudou muito, porque já tinha uma certa habilidade em trabalhar com madeiras.

 

O luthier, em seu atelier (Guanambi-BA)

Como é a sua rotina de trabalho?

Eu sempe trabalhei aqui no quintal da minha casa mesmo, um lugar muito improvisado, mas suficiente para realizar bem o meu trabalho… estou montando um novo atelier  bem mais espaçoso em um sítio perto daqui de Guanambi, e se Deus quiser, no início de 2011 já quero estar trabalhando lá.

 Como é o processo (passo a passo) da construção de um bandolim, por exemplo?

No meu caso não tenho um padrão rígido de construção a seguir, começo pela montagem das faixas laterais, tampo, fundo ou braço, pra mim tanto faz, o importante é realizar um bom trabalho…

“Todos (os instrumentos) exigem a mesma dedicação”


Qual o instrumento que exige mais tempo de confecção?

O tempo de trabalho não muda muita coisa  de um grande instrumento para um pequeno, pois todos exigem a mesma dedicação.

 

Armandinho Macedo com instrumento feito por Pedro Santos

Quando seu trabalho passou a ser mais conhecido?

Até 2004 eu fiz muitos instrumentos, consertos e reformas para Guanambi e região, a partir daí eu enviei um violão para um grande músico de Salvador, o Edson 7 cordas, para que ele experimentasse  e ele aprovou o meu trabalho, e assim comecei  a ficar conhecido no meio profissional, e não tive mais tempo para consertos e reformas, passando a me dedicar somente na fabricação de instrumentos para grandes músicos, tais como: o próprio Edson, Ronaldo do bandolim, Reco do bandolim, Dudú Maia, Jorge Cardoso, Armandinho e Aroldo Macedo, meu xará Pedro Moraes e tantos outros, e sempre exporto algum instrumento também.

Conversando com um violonista, ele me disse que antes, “a moda” era dizer que tinha instrumentos de marca, como Fender, Yamaha, Gibson, mas hoje é bem mais “elegante” dizer que faz o instrumento com um luthier. Por que você acha que ocorreu essa mudança de pensamento?

Olha, eu acho que tem muitos instrumentos de primeiríssima qualidade de marcas famosas, mas quando um músico compra um instrumento desses e ele vem com algum defeito é aquela dor de cabeça,  procura alguém para consertar e, às vezes, é difícil encontrar. Quando encontra e o conserto fica bom… tudo ok! Mas também corre o risco do instrumento nunca ficar bom…  é por isso que nós luthiers somos bastante solicitados para a construção de um bom instrumento, porque o músico entra em contato diretamente com a gente e passa os detalhes que ele acha necessários para o seu conforto, como tocabilidade, sonoridade do  instrumento etc. E, graças a Deus, eu tenho conseguido atingir uma grande porcentagem do que os meus clientes esperam de mim… Sem contar que é uma relação gostosa entre luthier e músico, ambos realizando um projeto com dedicação, amor e carinho, aguardando ansiosamente pelo resultado que, graças a Deus, tem sido bastante satisfatório.

 

Qual a diferença de um instrumento feito por um luthier e um industrializado, de marca?

A diferença é que a gente faz cuidadosamente, um por um, corrigindo todos os detalhes da construção, enquanto que os industrializados são produzidos em grande escala  e não são corrigidos cuidadosamente como a gente faz.

“Planos? Cada dia realizar um bom trabalho…’


Você também toca algum instrumento? Qual?

Sim, toco viola sertaneja, a nível profissional, e os demais instrumentos que fabrico somente para testar sonoridade, afinação e regulagem em geral, a pedido dos meus clientes.

Na fabricação, você trabalha sozinho ou tem ajudantes?

Trabalho sozinho, nunca encontrei alguém com disponibilidade suficiente para aprender.

Já pensou em ensinar seu ofício para alguém?

Sim. Pretendo deixar o meu ofício para alguém que se interesse em dar continuidade.

 Como está o mercado para o luthier baiano?

Olha, pelo que eu sei, tem muito pouco luthier no estado da Bahia, mas para mim, o mercado está ótimo! Tenho muitas encomendas.

 Como você divulga o seu trabalho?

Através dos meus clientes , amigos, internet etc…

Quais os planos para o futuro?

Cada dia realizar um bom trabalho, procurar honrar todos os meus compromissos para que os meus clientes não venham a ficar decepcionados. Viver bem do meu trabalho e que Deus em Cristo Jesus abençoe a todos nós!

Contatos de Pedro Santos:

Telefone: (77) 3452-0848

Site:  www.pedrosantos.com.br

msn: pedroluthier@hotmail.com

Orkut: http://www.orkut.com.br/Main#Profile?rl=ls&uid=12673589336328835944

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Sobre Flavia Vasconcelos

Flavia Vasconcelos (flavia@aqueimaroupa.com.br) ingressou na Unijorge em 2004, iniciando o curso de Comunicação Social em Jornalismo, finalizando em abril de 2008. Atua na área de jornalismo cultural, produzindo e prestando assessoria de comunicação em eventos culturais (exposições, festivais). Foi assistente de direção do Festival Nacional A Gosto da Fotografia e coordena, junto com o fotógrafo Marcelo Reis, o Projeto Modos de Ver. Adepta do jornalismo literário e humanista, é autora do livro-reportagem Jornaleiros Militantes, feito para trabalho de conclusão de curso de graduação. Pretende seguir carreira no jornalismo literário.