Sorvete, sangue e compaixão…

Infinito Cotidiano


Não me considero uma pessoa das mais sensíveis, mas ontem fiquei atordoado com uma sequência de acontecimentos dos quais fui mero espectador.

O desenrolar não durou mais que alguns minutos, tempo suficiente para passarem pela minha cabeça um milhão de coisas, mas foi o desfecho inesperado que realmente me tirou o chão.

Praça Municipal. Como de costume, muitos ambulantes na porta do Elevador Lacerda abordando os turistas, muitos pombos sobrevoando o largo e mais um bocado no chão comendo restos. Mesmo em época de eleições, ainda era possível ver alguns sacizeiros andando freneticamente para um lado e para outro da praça. Tinha também alguns seguranças do Elevador, policiais e algumas pessoas que pareciam ter hábito de frequentar o lugar, tal era a intimidade com a qual conversavam com os funcionários. Um reduzido grupo de pessoas batucava instrumentos de percussão, seguravam faixas e cartazes fazendo campanha para um candidato pouco expressivo.

Eu tinha acabado de almoçar junto com um colega de trabalho e alguns funcionários de uma empresa cliente, então resolvemos ir até a Cubana, que fica na entrada superior do Elevador Lacerda, para tomar sorvete. Para mim, depois da Sorveteira da Ribeira, a Cubana tem os melhores sorvetes da cidade, especialmente os de fruta. Eu já fui almoçar sonhando em saborear essa delícia. Quando atravessei a praça, eu não me importei com ninguém, não observei nada, eu só pensava em chegar o mais rapidamente possível à sorveteria.

Fui até o caixa (lá é assim: paga-se primeiro e pega-se depois). Para meu desespero total e absoluto, mais alguns minutos me separavam de minha tão esperada sobremesa. Quando finalmente tomei posse daquele copinho de uma bola – não posso abusar por causa do peso – foi que me dei conta do burburinho logo ali em frente. As pessoas que estavam comigo já haviam se reunido mais à frente para assistir a alguma coisa, que eu ainda não sabia o que era.

Foi justamente ao colocar a primeira colherinha na boca que a multidão se afastou um pouco e eu pude ver o motivo do alvoroço.

Uma mulher tão suja e maltratada que mal dava para saber a idade, vestida de trapos, sem dúvida nenhuma uma sacizeira. Metade do rosto coberto de sangue já quase seco, um lado da camisa lavado do mesmo sangue. Tinha um grande pedaço de esparadrapo preso somente pela parte superior colado sobre o ferimento, mas não se pode dizer que chegava a ser um curativo.

O sorvete não chegou a perder o gosto porque, além de guloso, fui criado no centro da cidade, no Largo Dois de Julho, então já estou mais do que acostumado com esse tipo de cena grotesca. Mesmo antes do crack já se viam bizarrices, principalmente nas imediações do Pelourinho.

Nessas horas, sempre aparece alguém para contar o que houve, só ouvi a voz vinda de trás:

- A outra disse não desça, mas ela desceu… então ela (a outra) meteu a faca na cara dela.

Então imaginei que tratou-se de alguma briga por causa de crack, cachaça, dinheiro…

A voz continuou:

- Ó lá, ó! Desde cedo que eles estão tentando pegar ela. Quando começaram a fazer o curativo, ela saiu correndo…

Olhei e vi uma ambulância do Samu que estava a andar para frente e para trás lá no asfalto, acompanhando os movimentos da pobre coitada, mas ninguém efetivamente saiu daquele veículo em direção à mulher ensanguentada.

Então entendi que o Samu já havia tentado tratar da mulher mais cedo e devem ter sido os responsáveis pelo curativo mal acabado.

- A gente já chamou eles (sic) três vezes, mas não conseguiram pegar ela.

Me virei para ver quem estava falando. Era uma daqueles ambulantes que atam fitinhas do Sr. do Bomfim nos turistas, sob o falso pretexto de estarem oferecendo um presente, para atraí-los e envolvê-los numa conversa de tom amigável que no final das contas tem sempre o mesmo objetivo: tirar uma grana dos caras. Tenho horror a esse tipo de gente, mas foram justamente eles que fizeram o que não havia se passado, nem de longe, pela minha cabeça, chamaram a ambulância. Não apenas uma ou duas, mas três vezes.

Pensei: esse povo se importa com alguém? Eles devem estar querendo tirar aquela pessoa que era a verdadeira visão do inferno das vistas de seus clientes turistas.

Podia até ser verdade, mas logo percebi que não só os “aproveitadores de turistas” mas também os ambulantes, estavam de fato preocupados com a moça, eles a chamavam pelo nome e ficavam correndo ao redor tentando tangê-la para a ambulância. Com toda a razão, ninguém queria tocá-la mas o esforço deles era evidente.

Nem a policial, nem os seguranças, nem os turistas, nem eu, fizemos absolutamente nada além de assistir.

O pessoal que eu estava acompanhando começou a dar sinais de que precisava voltar ao trabalho. Eu não queria sair até saber o desfecho daquela história digna de um punhado de páginas de um dos livros de Jorge Amado, mas eu tinha que ir com eles.

Me distraí por um segundo e quando olhei novamente a porta da ambulância da Samu já estava aberta e a moça estava sendo colocada no interior do veículo por um dos paramédicos.

Como era possível que todo aquele corre-corre tivesse sido resolvido tão facilmente?

Quem foi que conseguiu finalmente pegar a moça?

Este pensamento estava me torturando, quando ouvi um rapaz mal vestido, calçado com sandálias havaianas mais do que gastas e carregando no ombro uma caixa de isopor, dizer:

- Eu dei dois reais a ela, pra ela entrar na ambulância.

E ele dizia aquelas palavras com um sorriso de campeão no rosto, enquanto seus colegas comemoravam sinceramente o feito e o parabenizavam com tapinhas nas costas.

Para descrever a quantidade de coisas que esta frase simplória me fez repensar eu precisaria de mais não sei quantas páginas, então prefiro resumir e deixar que cada um de vocês tire as suas próprias conclusões:

  • O vendedor de picolé, que trabalha duro pelo dinheiro, foi quem deu seus dois reais pela maluca. Sem sombra de dúvidas, esse dinheiro fará mais falta a ele do que faria à maioria dos espectadores, incluindo a mim.
  • A sacizeira feroz, disposta a atacar quem aparecesse em sua frente, se rendeu por um trocado, como fazem as criancinhas birrentas na frente do vovô. Assim como eu, acredito que a maioria dos espectadores nem havia imaginado que isso funcionaria.
  • Eu, que gosto de pensar que me preocupo com as pessoas, haja vista a minha experiência anterior com Responsabilidade Social (veja a seção Caminhando Juntos) percebi que ao menor descuido podemos nos tornar insensíveis e sair rotulando as pessoas, esquecendo que todos somos, antes de tudo, apenas pessoas.

Se eu pudesse resumir em uma palavra tudo o que senti com essa experiência, eu diria: vergonha.

E parece que, no fim, o sorvete acabou mesmo perdendo o gosto.

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Sobre Daniel Bagdêve

Daniel Bagdêve (daniel@aqueimaroupa.com.br) é o responsável pela parte tecnológica do projeto À Queima Roupa. Com formação na área de Gestão de Redes, é consultor atuante na área de tecnologia da informação e comunicação. Siga-me no Twitter