Que a Bahia é terra de ritmos e sons, não é novidade para ninguém. Mas, atualmente, um movimento muito digno vem se alastrando na noite baiana: o reconhecimento aos compositores, principalmente, de samba.
E tal notoriedade, promovida pelos intérpretes, vem sendo legitimada pelo público. A noite de ontem, na praça Tereza Batista (Pelourinho) foi um belo exemplo. A sambista Juliana Ribeiro, que realiza nos sábados de outubro o projeto “Cantando com os Compositores” recebeu Jota Veloso e Walmir Lima. Ambos levaram o público a cantar seus sucessos, já consagrados em tantas vozes Brasil afora. Um momento marcante foi quando o simpático e bonachão Walmir Lima começou a cantar “Ilha de Maré”. Já no primeiro acorde, um grande coral popular se formou, seguido de muitos aplausos a esse grande mestre. Tal episódio levou Juliana às lágrimas e Walmir saiu do palco aplaudido de pé pelos músicos da banda. Já passaram pelo projeto Roberto Mendes, Edil Pacheco, Mateus Aleluia e Walter Queiroz. No próximo sábado, dia 30, será o último dia do projeto que, além de reconhecer o talento dos compositores baianos, também tem cunho social, pois a entrada se dá por 2 pacotes de leite em pó.
Outro compositor em foco é Roque Ferreira que, também no Pelô, às sextas-feiras, está sendo homenageado pela cantora Mariene de Castro, na Praça Pedro Arcanjo. Comemorando o nascimento de mais um filho, a artista leva a público canções do autor que não só está presente na carreira de Mariene, mas se funde à trajetória da cantora, que já gravou 16 músicas do compositor em seus dois CDs. Devido à recuperação da recente gravidez, os shows acontecem mais cedo e têm menor duração como de costume. Com preços populares (R$ 5 e R$ 2,50) o projeto já é sucesso garantido de público e terá sua última edição na próxima sexta, dia 29.
Outra merecida homenagem a Roque Ferreira está correndo o país com a cantora Roberta Sá, que lançou o CD “Quando o Canto é Reza”, que teve a estreia em setembro na sala principal do TCA. Com casa lotada, a cantora expôs todo o lirismo das letras e melodias de Roque Ferreira, com arranjos minuciosos e ritmos variados que transcendem ao samba. Muito descontraída, Roberta nos leva a uma viagem a vários ritmos puramente brasileiros. Releituras que, acima de tudo, trazem à tona toda a poesia de Roque, antes não tão observada, devido ao forte e sacolejante batuque típico do samba. Um destaque é a música “Água da minha sede”, consagrada na voz de Zeca Pagodinho. O novo arranjo bastante requintado garantiu ao público um estado de contemplação e já é sucesso em várias rádios do Brasil. Quem acompanha Roberta é o Trio Madeira Brasil.
Água da Minha Sede
Roque Ferreira
Eu preciso do seu amor
Paixão forte me domina
Agora que começou
Não sei mais como termina
Água da minha sede
Bebo na sua fonte
Sou peixe na sua rede
Por do sol no seu horizonte
Quando você sambou na roda
Quando você sambou na roda
Fiquei afim de te namorar
Fiquei afim de te namorar
O amor tem essa história
Se bate já quer entrar
Se entra não quer sair
Ninguém sabe explicar
O meu amor é passarinheiro
O meu amor é passarinheiro
Ele só quer passarinhar
Ele só quer passarinhar
Seu beijo é um alçapão
Seu abraço é uma gaiola
Que prende meu coração
Que nem moda de viola
Na gandaia (na gandaia)
Fruto do seu amor me pegou (na gandaia)
Sua renda me rodou (foi a gira)
Foi cangira que me enfeitiçou
Apaixonado
Preciso do seu amor
Roberta Sá & Trio Madeira Brasil – Quando O Canto É Reza – 05 – Água Da Minha Sede
Outro projeto de sucesso foi o show ” O samba da Bahia”, em 2007, com a grande dama do samba Beth Carvalho. O show virou CD e DVD e recebeu grandes nomes da música baiana e relembrou sucessos como Filho da Bahia(Walter Queiroz), Cada Macaco no seu Galho (Riachão), Siriê (Edil Pacheco), entre tantos outros.
E, por falar em compositor baiano, não podíamos esquecer de nomes como Saul Barbosa, que recentemente partiu para outra dimensão e o também saudoso Batatinha, que muito colaboraram para a difusão da música baiana. E, como “o samba nasceu lá na Bahia”, já dizia Baden Powel e Vinícius, é lindo ver o samba renascendo a cada dia em largos, bares e, principalmente, no coração de cada um de nós.
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Caro Abbade,
Ouvi a música “Ilha de Maré” pequeno e anos depois ela me emocionava exatamente na lavagem do Senhor do Bonfim. Desde então passei a apreciar o samba daqui. Infelizmente outros rítmos passaram a ter maior apelo popular e o samba ficou em algum plano distante.
Fico tão contente em presenciar este retorno do samba aos palcos porque ele nunca deixou de lado as mesas, as rodas e os terreiros.
Em meu ponto de vista o CD “Abre Caminho” de Mariene de Castro, por ter conquistado alguns prêmios, como o Braskem de Música e Teatro, além do projeto Santo de Casa, colocaram novamente o bom samba de volta para o nosso deleite e isto acabou por nos apresentar novos bons intérpretes e a trazer de volta a referências aos nossos excelentes compositores.
Todos nós, apreciadores – intérpretes – compositores e os projetos como estes citados por você, estamos a atender àquele apelo:
“Não deixe o samba morrer
Não deixe o samba acabar
O morro foi feito de samba
De samba pra gente sambar”
O samba renasceu na Bahia… aliás, recuperou suas forças pois sempre esteve, ainda que timidamente, em bares e encontros populares. Agora todas as classes sociais se deleitam ao som não só dele, mas também de seus ritmos variantes.
O trabalho de Mariene de Castro realmente abriu caminho para vários artistas iniciantes e reabriu para os veteranos que estavam esquecidos. Hoje o samba e outros ritmos regionais são mais bem aceitos e tocam em vários pontos da cidade.
Chego a me emocionar em seus shows, diante de suas interpretações cheias de emoção e personalidade, ao retratar a beleza singular do nordeste, contando e cantando as belezas do nosso povo. Isso sem falar que nos seus trabalhos, desde o início, valoriza as manifestações populares, que merecem mais visibilidade mesmo! Sou fã declarada do trabalho dessa artista e considero o seu primeiro CD uma fonte rica de prazer cultural
.
Estou à espera do seu DVD, que certamente será mais uma importante contribuição para a autêntica música regional… e mostrará para o Brasil que não vivemos somente de arte pasteurizada e comercial.
Viva essa nova fase da música baiana!
Marília Alves.
José, parabéns!!!!! Continue escrevendo assim! Pena nao poder estar desfrutando com vocês ai, de tao interessante acontecimento. Abraços
Caros do AQR. Bom feriado para todos! Fui ao show de Juliana Ribeiro, com uma pitada do Poeta baiano Nelson Rufino no meio, e fiquei muito feliz com o trabalho dentro do samba que essa linda mulher vem fazendo. Casa lotada, o Pelô é o Pelô e muita música boa rolou!
Parabéns pelo trablho Juliana, muito sucesso na sua vida e viva o Samba!
Já disse para Nelson que estou aguardando o seu DVD e o site, que está muito amarrado!