Mulher decidida

Com a palavra...


Domingo. O sétimo dia de março vinha a galope e as últimas horas do sexto maquinavam suas traquinagens, sobretudo a poucas dezenas de milhas náuticas de onde me encontrava. Abrigado sob um dos tamarineiros plantados aos fundos do hotel em Salinas da Margarida, baixo, de tronco robusto, podado, por isto dono de uma copa avolumada e longos galhos que pendiam do seu cume, a lembrar um belo espécime de afro-descendente com densa cabeleira de tranças longas, curtia uma brisa agradável vinda dos lados da Baia de Todos os Santos, a ingressar no vale onde deságua o Paraguaçu.

Conseguia naquele privilegiado ponto definir as duas faces de uma mesma festa, podia sentir o povo explodindo colorido nos circuitos do carnaval soteropolitano e enxergar ao longe as luzes frágeis da Barra do Paraguaçu, adornando a calma, lúdica e telúrica noite dos nativos e visitantes que lá dormiam sem acordes, longe e a salvo dos sons reverberados pelos trios elétricos que agitavam as ruas da capital, na ponta contrária, separados uns e outros pelas águas que compõem a imensa e belíssima baia.

De um lado, imaginava mulheres maravilhas fugindo da monotonia, enfeitadas, suando e pulando espremidas por seus supermans, conduzidas pelos caminhões a derramar sua música sobre os seguidores frenéticos. Em contrapartida, na outra península que avistava, as sentia calmas, agitadas levemente por seus sonhos embalados pelo leve roncar das águas que se encontravam naquela foz magnífica, emoldurada pelas construções típicas do lugar. Quando não entregues a Morfeu, seus enfeites eram silhuetas nuas, seus suores eram reflexos de corpos quentes amando, seus frenesis eram os orgasmos múltiplos que se proporcionavam mulheres maravilha e supermans à beira-mar, exercitando o nada monótono privilégio de transformar suas paixões em carinhos. Um celular do recepcionista do hotel, no modo rádio, agitava minha malícia tocando repetidamente o refrão: foge, foge, mulher maravilha, foge com o superman.

O Tarapaca merlot, envasado no Chile, também compunha o cenário e a toalha branca sobre a mesa posta debaixo da árvore contrastava com sua cor forte, os eflúvios resultantes dos goles já sorvidos aguçavam igualmente as fontes das minhas imaginações e meus desejos. Sozinho, acompanhava os últimos casais de desconhecidos que se recolhiam como pombos arrulhando e lembrava dos conhecidos que também já se tinham aninhado perto dali, numa casa especial, de gente não menos distinta, sempre aberta ao  meu chegar, onde fazia a base para meus dias de folga.

Eram dias de regalias vividas por um elenco de pessoas que se dispõe a fazer tudo, nada fazendo, além de comer, beber, jogar cartas e conversa fora, beneficiados por poder descobrir e redescobrir navegando de mansinho, nas sucedâneas manhãs, as belezas de Saubara, Bom Jesus dos Pobres, Paraguaçu, Jaguaribe, Ilha do Medo, para em seguida relaxar nas águas límpidas e tépidas destes paraísos mais que caribenhos e outros tantos do lugar. Como obrigações complementares, amar e rezar.

Aos solitários, como eu nestes dias, a prerrogativa do limbo, nem inferno, nem purgatório, nem paraíso, além da preservação da vida ao prazer de boas mesas, das gargalhadas ao talante de piadas novas ou requentadas, tempo de meditar, de certa maneira, uma forma clara de oração.

O vinho encorpado ativou meu paladar e pediu um acompanhamento, a sorveteria e pizzaria da praça ainda expunha sua porta aberta, muito embora fosse evidente a morte do movimento naquela square. O pequeno trio que tocara durante o dia sob um sol causticante amainara logo depois de cair a noite o ímpeto dos parcos foliões praieiros, como de resto dos muitos banhistas que, exaustos, capitularam ou findavam por fazê-lo, buscando seus merecidos descansos.

Enchi minha taça e fui até o Beijo Doce, os pedidos cessavam, portanto, minhas fatias de massa cobertas com atum e calabresa não tardaram a ser embaladas e voltei equilibrando em cada uma das mãos o de comer e o de beber que findava no cálice de vidro. Venci os metros da recepção vazia, apenas o funcionário continuava a ouvir seu celurádio no comando da portaria. Havia lhe pedido que me conseguisse prato e talher, fui atendido, mas, notei que a mesa estava posta para dois, sob aquele falado tamarineiro e não entendi o motivo. Repus o vinho, expus a pizza, comecei a lhe fazer os cortes e de repente descobri o porquê daquele segundo conjunto para servir que minutos antes imaginei ter sido posto indevidamente sobre o aparador.

No vazio pleno da mesa, pude sentir em frente a presença de alguém que muito queria estivesse ao meu lado e a distância que nos separava foi removida naquele momento, as discórdias imotivadas que nos colocou em corners opostos nestes derradeiros dias, deixaram de propagar seus sons. Vibrou apenas a felicidade espelhada na energia de sua presença e no espalhar do seu cheiro que sabia vir de um quarto de boneca, encravado num prédio de flores no bairro de Ondina.

Intui que atravessou a rua, deitou-se nas ondas e veio flutuando no mágico espelho d’água silencioso, para dominar alegremente meu jantar, a partir de então um candelabro de prata iluminou a varanda e fausto banquete se fez à luz de velas, na força da sua doce companhia imaginária, mas, que me afigurava real, mesmo no seu completo surrealismo.
Sem os desencontros das palavras ásperas, na sua maioria trocadas em mensagens escritas, ou dos silêncios lancinantes, pontuados nas duas semanas derradeiras, pude, por ter sabido viver o frescor daquela presença etérea tão querida sem dizer palavra, ouvir os seus murmúrios e entender suas razões.

Deveria estar satisfeita, não comeu e não bebeu nada, apenas discursou, atentei com paciência seus argumentos seguintes:

Jamais se faria submissa, não se permitiria romper seus propósitos por quaisquer razões, vantagens ou ofertas, não desejava as paragens bucólicas ou as metrópoles reluzentes como forma de convencimento para ir ou vir a qualquer quanto que não fosse aquele em que desejasse verdadeiramente estar.

Não se faria obrigada a explicar suas decisões, na construção de sua vida pessoal tinha que se entregar aos sacrifícios e às renuncias, para se dar ao luxo de encontrar a porta de entrada das suas conquistas, não queria escadas alheias, desejava escalar seus muros e romper os obstáculos, mesmo que fosse ao preço do sangue das suas próprias garras.

Nada disto ferira o seu propósito de se entregar às amarras de um amor incondicional e seus redundantes compromissos, mas as enlaças de um amor compromissado não subjugam, não vendam os olhos e nem amordaçam, o principio de qualquer amor verdadeiro se funda na liberdade e no respeito, é necessário que cada um seja seu um, para encontrarem a amálgama milagrosa de fazê-los dois, sem desfazer suas individualidades.

Ah! os seus ciúmes, porque não tê-los, pouco importa se são fruto das suas inseguranças, se estão suportados nos seus medos, se têm origem nas suas marcas pueris ainda não analisadas, o que interessa é que são seus e precisam ser considerados, entendidos, virão e voltarão por toda a vida enquanto houver amor, como as virações que fazem de um mar calmo, de repente, do nada e por nada, à aparência, pontos de redemoinhos gigantes capazes de engolir barcos repletos de concórdias.

As músicas no celurádio cessaram, deixei o que sobrara do repasto para seu dono que já cochilava no posto de serviço debruçado sobre o balcão e subi aos meus aposentos. Uma calma me invadia o espírito. Recolhido ao quarto no segundo andar, cochilei, olhando pela varanda o movimento das águas junto à ponte, suavemente iluminadas por uma réstia de lua e adormeci, certo de que me encostava no corpo quente de meu bem querer, mulher decidida. Sonhei ouvindo o refrão daquela música executada mais cedo, agora com outra letra que assim me soava: foge, foge mulher decida, foge com o superman e me senti o tal, sim vez que ela houvera fugido do seu casulo, para compor a fantasia de minha noite.

Coincidência ou não, pouco depois das quatro o telefone toca, a madrugada ainda não mandara seus primeiros raios de sol, por isso me assustei. O sinal em Salinas é péssimo, mas a chamada se completou. Era ela, então não tive dúvidas de que dormira comigo e voltara cedo para seu quarto de boneca nas asas dos ventos Elíseos. Queria que eu confessasse algo inconfessável, já que não ocorrido, insistiu na admissão, determinou que declarasse, argumentou incisivamente, sem suspeitas era ela.

A ligação caiu, tentei retornar a chamada várias vezes e não pude, cheguei a ter dúvidas se minha dama realmente houvera ligado ou falara ao meu ouvido antes de partir nos braços do vento, buscando arrancar uma informação naquele limiar entre a consciência e a inconsciência do meu sono, dirimindo uma dúvida que a maltrata impiedosamente. Pena que não pude lhe dar a resposta, ou porque saiu muito rápido antes que a brisa que lhe conduziria de volta cessasse, ou porque a chamada não pôde ser recomposta. Não tive tempo de dizer e repetir como direi e repetirei mil que vezes que é única. Mas, continuei acordado, cantando: foge, foge mulher decidida, foge com o superman. E pensando, contanto que seja eu! Caso seja este o destino.

Salinas,

Carnaval 2011

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Sobre Valdir Barbosa

Valdir Barbosa é delegado de polícia e se encontra à disposição do Tribunal de Contas do Estado da Bahia.