Tudo como dantes no quartel d’Abrantes

Com a palavra...


A frase “está tudo como dantes no quartel d’Abrantes” remonta ao início do século XIX, quando Napoleão Bonaparte invadiu a Península Ibérica e Portugal foi tomado pelas forças francesas sob o comando do General Junot. Àquela época, uma das primeiras cidades invadidas pelos franceses foi Abrantes, próxima a Lisboa, em 1807 e lá, o general francês instalou seu quartel-general e se fez intitular Duque d’Abrantes.

Como Portugal se encontrava politicamente acéfalo, pois, D. João VI e sua corte se encontravam no Brasil, o General Junot permaneceu no poder sem resistências, provocando o surgimento de um dito irônico, pois, a quem se perguntasse como iam as coisas, a resposta era sempre a mesma: “Está tudo como dantes no quartel d’Abrantes”.

A verdade é que, independentemente de nomes e pessoas, a segurança pública na Bahia vem se transformando visivelmente em um gigantesco quartel de Abrantes, porém com uma diferença: a impressão que se tem é que, ao invés de tudo estar como dantes, tudo parece estar cada vez pior. Não é pessimismo. É pura e irrefutável constatação.

Quem duvidar que leia a entrevista concedida ao AQR pelo atual titular da pasta da segurança pública na Bahia, pois, mesmo sem o estilo bufão de uns e a arrogância de outros, mesmo sem tergiversar ou apelar para a demagogia ou populismo e sem posar de forte, como convém a um inteligente homem de inteligência, quando se trata das questões que envolvem a falta de condições de trabalho e a insatisfação reinante entre os profissionais de segurança pública de um estado tão importante e rico como a Bahia, o Senhor Secretario cai no lugar comum de negar o óbvio.

Não será negando o óbvio que se irá esconder o desprestígio e o descaso com que os policiais e, principalmente, os militares, têm sido tratados neste governo de todos nós. Com isso não quero dizer que a situação fosse muito diferente em governos anteriores, mas não era isso que se esperava de um governo, onde o “Comandante em Chefe” da corporação usou o contracheque de um policial militar como peça de campanha.

Como na alegoria do escritor português José Saramago, no livro Ensaio sobre a Cegueira, nossos governantes parecem estar adaptados a viver em um mundo onde perdem a capacidade de enxergar a história que se repete. Nesse caso, a história de uma crise repetidas vezes anunciada, mas sempre negada pela contagiosa cegueira do poder.

Nesse sentido, vale relembrar a lição de Gramsci quando nos diz: “A crise consiste precisamente no fato de que o velho está morrendo e o novo não consegue nascer. Nesse interregno uma grande variedade de sintomas mórbidos aparece”.

No ano do seu 186º aniversário, vive a Polícia Militar do Estado da Bahia um grave momento, ante a falta de investimentos do Estado no que há de mais importante em segurança pública: o policial.

Sem querer ser irônico, hoje, neste 21 de abril, dia dedicado a José Joaquim da Silva Xavier, O Tiradentes, patrono das polícias civil e militar, se me perguntarem como vão as coisas na segurança pública da Bahia, a minha resposta será sempre a mesma: Esta tudo como dantes no quartel da Vila de Abrantes.

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Sobre Antonio Jorge Ferreira Melo

Antonio Jorge Ferreira Melo é coronel da reserva da PM-BA, professor e pesquisador do Progesp (Programa de Estudos, Pesquisas e Formação em Políticas e Gestão de Segurança Pública) da Ufba, da Academia de Polícia Militar e da Estácio-FIB.