Riachão, o malandro pop da Bahia

Especial


Prestes a completar 90 anos, Riachão esbanja alegria e disposição.

Foi atravessando o Beco Língua de Vaca, no Garcia, bairro de classe média baixa de Salvador, que encontrei o malandro mais famoso da cidade. Com seu andar ritmado, fala arrastada, sorriso no rosto, gentileza e irreverência, ele tem muita história para contar. Naquele primeiro encontro, sem terno, toalhinha no pescoço, boina na cabeça e sapatos de duas cores, não vi Riachão. De bermuda, facão na cintura, sandálias de dedo e camisa no ombro, quem estava diante de mim era Clementino Rodrigues, o homem que poucos conhecem.

E ele jogava milho para as galinhas confinadas em um galinheiro improvisado no quintal de casa, no bairro do Garcia, pertinho do centro tradicional da capital baiana. Ali é a roça de Riachão, como ele mesmo intitula, perdida numa Salvador de edifícios e monóxido de carbono. Bananeiras, horta, aipim e quiabo. De tão entrosado com o ambiente, ele nem parecia o sambista cheio de ginga e badalado pela mídia. Mas era ele. Sem holofotes. Clementino, simplesmente.

- Riachão?

- Pois não, sou eu mesmo, minha fofinha!

Os meus olhos percorreram todo o seu corpo negro e miúdo, no sentido de gravar na memória o Riachão que tinha acabado de conhecer. Reconheci o bigode, as pernas levemente tortas e, por fim, o seu sorriso. Ah! Aquele sim é inconfundível! Acabava de conhecer Clementino. Riachão desabrocharia mais tarde.

De onde vem o apelido Riachão? “Antigamente os mais velhos falavam de uma forma muito diferente… sabendo de minha fama de brigão e valente, eles falavam pros filhos não se meterem comigo, porque eu era um riachão! Quer dizer, um menino difícil de dominar, entende, menina?!”, explica, interessado em satisfazer a minha curiosidade. Um esclarecimento oportuno: a bravura dos punhos fechados ficou na infância, mas o apelido ficou. Não descolou nem na vida adulta, quando ele exerceu o ofício de alfaiate ou ao ser contratado office boy do extinto Desenbanco – o Banco de Desenvolvimento da Bahia, fundado em 1966.

Os anos foram passando. Riachão construiu a carreira de sambista em paralelo com a de alfaiate. A malandragem aprendida nas rodas de samba lhe tornou popular. Hoje, símbolo da Bahia boêmia, ele rechaça o papel de ícone intocável. Vai para a rua, anda de ônibus, sobe e desce as ladeiras da cidade e nunca passa despercebido.

‘Deus é a música e a música é o samba’

Filho de José Euzébio Rodrigues, o José Criolino, e Maria Estefânia Rodrigues, Riachão e seus 15 irmãos nunca conheceram a fartura. Era mais uma família pobre e negra, do início do século 20, vinda do interior do estado, mais exatamente de Santo Amaro da Purificação – município do Recôncavo Baiano, a 83km de Salvador, onde também nasceram Caetano e Bethania. Os Rodrigues enfrentaram muitas dificuldades, mas nunca passaram fome. “A gente não era rico, mas também nunca ficamos sem comer, um ajudava o outro, diferente de hoje em dia…”, compara o pequeno notável.

Artista precoce, aos nove anos, Riachão soltava a voz e encantava o público com os clássicos do samba carioca, aprendidos no rádio.  Nesse tempo, somente o Rio de Janeiro propagava o samba, e por isso, há quem diga que o ritmo nasceu nos morros cariocas. Polêmica. Para Riachão, o samba nasceu mesmo foi na Bahia e ponto final. E sabe por quê? “Porque o Brasil nasceu na Bahia. E quem trouxe este samba foi (sic) os negros, cantando o samba na senzala, fazendo o samba de roda.”, teoriza o mestre.

Se a mística sobre o surgimento do samba mexe tanto com Riachão, a vitalidade que ele esbanja parece vir do orgulho que sente de ser baiano, malandro e sambista. “O samba pra mim é Deus. Deus é a música e a música é o samba.”, proclama. E para ilustrar sua devoção pelo samba, arranca da memória um de tantos outros casos marcantes de sua vida: o dia em que compôs seu primeiro samba.

“Menina, isso já faz muito tempo. Eu estava saindo da alfaiataria, isso em 1935 ou 36, e vi um pedaço de papel de revista no chão. Peguei e Jesus me fez ler o que tinha escrito -Se o Rio não escrever, a Bahia não canta – aquilo não saiu de minha cabeça…”, conta. Após um dia de trabalho, preparando-se para dormir, Jesus, o seu parceiro de trabalho, entra em ação e manda o primeiro samba (sim, Jesus, o próprio, segundo Riachão, é seu parceiro de samba. E quem vai contestar?)

Aos 20 anos, Riachão vai à Rádio Sociedade da Bahia, em busca de uma chance para brilhar. Naquele tempo, lugar de artista bem sucedido era na rádio. Assume a verve de sambista e o sucesso aparece. Ele e o parceiro fiel não pararam mais de produzir. Jesus nunca mais pediu férias. Uma onça que fugiu do zoológico, a queima de Judas na Praça da Sé, o incêndio que atingiu o Mercado Modelo, tudo era motivo para um samba. E por isso, ganhou um sobrenome: Cronista Musical da Cidade, dado pelo radialista Ubaldo Câncio de Carvalho, considerado, na época, o melhor comentarista esportivo do Norte e Nordeste do país.

Os exemplos mais recentes de trabalho são os shows que fez pelo Brasil e alguns países como França, Alemanha e Cuba, em meados do ano 2000. Riachão também participou do DVD da cantora Beth Carvalho, gravado em 2006, o Beth Carvalho: Canta o Samba da Bahia. E mais, se tornou pop depois da regravação feita por Cássia Eller, do seu samba Vá Morar com o Diabo e foi tema do documentário Samba Riachão, de Jorge Alfredo. Além das entrevistas da mídia cultural, que sempre o procura.

As saudades e as dores de um sambista

Riachão sorri muito. Canta, quando não está conversando. Faz rima, samba com as pernas levemente tortas. Mas entre uma piada e outra, ele também chora. Um choro de saudade, outro de tristeza. Riachão tem as suas dores.

Como todo malandro que se preze, ele idolatra as mulheres. Todas e por diversos motivos. Mas reserva um lugarzinho especial para as que mais lhe marcaram: a mãe, dona Estefânia, imortalizada numa foto emoldurada que fica no quarto; e a mulher, Dalva, morta em um acidente de carro, em 2008 no Rio de Janeiro. Dalvinha como a chamava, sua segunda esposa, foi seu grande amor. No mesmo acidente que o deixou viúvo, Riachão perdeu também um casal de filhos, um genro e uma nora.  Uma tragédia que apagou seu sorriso por algum tempo. Hoje é como uma névoa que chega e se desfaz. Para Dalvinha, compôs muitos sambas. A musa inspiradora virou sua estrela Dalva.

A casa no Garcia, onde ele nasceu, cresceu e viveu momentos felizes e tristes, ficou maior. Hoje ele mora lá com uma filha. Mas, apesar da tragédia e da saudade dos que se foram, Riachão é feliz. E a alegria, apesar de ser sua marca, não é marketing. Neste ano, ele tem mais motivos para sorrir: em novembro, completa 90 anos. Muito cedo ainda para comemorar? Talvez. Pensando bem, não. A festa poderia durar o ano todo. O ano de Riachão. Justo e merecido. Histórias não faltariam para contar.

Publicado originalmente no Bahia 247

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Sobre Flavia Vasconcelos

Flavia Vasconcelos (flavia@aqueimaroupa.com.br) ingressou na Unijorge em 2004, iniciando o curso de Comunicação Social em Jornalismo, finalizando em abril de 2008. Atua na área de jornalismo cultural, produzindo e prestando assessoria de comunicação em eventos culturais (exposições, festivais). Foi assistente de direção do Festival Nacional A Gosto da Fotografia e coordena, junto com o fotógrafo Marcelo Reis, o Projeto Modos de Ver. Adepta do jornalismo literário e humanista, é autora do livro-reportagem Jornaleiros Militantes, feito para trabalho de conclusão de curso de graduação. Pretende seguir carreira no jornalismo literário.