A gente se acostuma, mas não devia…

Com a palavra...


Esta semana, ao enfrentar o desafio da folha de papel em branco, buscando saber por onde andava a minha inspiração, me recordei de uma crônica da grande escritora e jornalista Marina Colasanti que, de forma emocionante e primorosa, descreve o nosso dia a dia onde, aos poucos, nos gastamos de tanto nos acostumar com o que não devíamos.

Nesse sentido, o estudo que a Organização das Nações Unidas (ONU) divulgou na semana passada e que, em escala global, faz um comparativo da violência me chamou atenção para o quanto “a gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá.”

 Segundo o referido estudo, infelizmente, o Brasil ocupa uma posição de destaque negativo em comparação com os demais países do mundo, pois, somos a 24ª nação em que mais se mata no mundo e o 3º país mais violento do contexto latino-americano.

Além de brasileiro e baiano, nasci soteropolitano e, meio sem perceber, me acostumei e, até mesmo, passei a gostar de viver, morar e trabalhar em uma cidade que, se fosse um país, ocuparia o terceiro lugar em número de assassinatos, sendo superada apenas pela África do Sul e por El Salvador.

Somos, quando nascemos, como uma folha de papel em branco, mas, aos poucos, nos acostumamos à vida da forma que não deveríamos, não raro, escolhendo o silêncio cansado e cúmplice em lugar da justa indignação. Assim, sufocando dor e o desalento, vamos nos acostumando às  mentiras, às indignidades, à violência, aceitando o mito de que o brasileiro é pacífico e cordial e esquecendo de que precisamos de leis para tentar proteger as mulheres, as crianças, os adolescentes, os idosos, os afrodescendentes, os índios e o segmento GLBTT da violência de todos nós.

A gente se acostuma e já nos acostumamos a pensar que pobreza gera violência, sem procurarmos compreender os porquês de nós, soteropolitanos, superarmos quase todos os países do mundo no número de mortes violentas, mesmo sem sermos a cidade com o maior número de pessoas em situação de pobreza no planeta.

A gente se acostuma a ouvir do governo que a sua maior preocupação são os crimes contra a vida e que está vencendo a guerra contra as drogas, mas, aceitando a guerra, aceitamos as mortes, transformando-as em estatísticas, pois não há guerras sem baixas de combatentes, nem perda de vidas inocentes.

A gente se acostuma a aceitar as balas perdidas, mesmo sabendo que perdido é aquilo que desaparece, que não se consegue mais achar, rezando para que nenhuma delas possa nos encontrar.

A gente se acostuma a ver muito, muito sangue nos jornais e, até mesmo, a achar natural o assustador número de crianças nas ruas, assediando os carros parados no sinal.

A gente se acostuma!  E se o hábito faz o monge, habituados ficamos, ao abrir jornais, ao ligar o rádio e a assistir TV para engolir a publicidade oficial, tentando nos iludir e nos levar a crer que a Bahia vai bem e que o governo trabalha, tem obra chegando em todo lugar….

 É, eu bem sei que a gente se acostuma, pois, já me acostumei a tomar remédios para a hipertensão e a acordar de manhã sem pão com manteiga, nesta minha vida com pouco açúcar e pouco sal, mas, mesmo tendo sido um profissional de segurança pública, durante 36 anos, vivendo e aprendendo a esquivar-me das balas e das falas para poupar a vida e a carreira, confesso que ainda estou longe de compreender os meandros dessa intrincada equação política de onde parte o discurso da lei e da ordem.

Marina Colassanti sabe das coisas…, nós nos acostumamos com o que não devíamos, mas de tanto nos acostumarmos com a injustiça, o sofrimento e à dor que nos aflige ou nos poupa, conforme a hora e o lugar, vamos desgastando as nossas vidas, de tanto nos acostumar. Afinal, também, nos acostumamos a sentar e assistir, em lugar de levantar e agir, acreditando que há luz no fim do túnel, mas como se saber o que tem no final se nos acostumamos com a escuridão da inconsciência?

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Sobre Antonio Jorge Ferreira Melo

Antonio Jorge Ferreira Melo é coronel da reserva da PM-BA, professor e pesquisador do Progesp (Programa de Estudos, Pesquisas e Formação em Políticas e Gestão de Segurança Pública) da Ufba, da Academia de Polícia Militar e da Estácio-FIB.