Até quando vamos aguentar?…

Com a palavra...


Seria muito cômodo ficar de camarote e ver a Polícia Civil a cada dia se afundar. Como nunca fui omisso ou de ficar pelos cantos a reclamar, faço aqui meu protesto. Sei que poderei pagar caro. Mas o que fazer? Calar? Jamais! É preciso reagir. É intragável o que vem ocorrendo na segurança pública do Estado, principalmente com a Polícia Civil. Mesmo respeitando os policiais federais, como colegas de profissão, não posso concordar com o tratamento, tampouco aceitar uma nítida intervenção federal na instituição policial, colocando delegados e agentes federais para dirigir policiais civis e militares. Numa pura demonstração de desconfiança, incapacidade profissional e falta de gestores das polícias estaduais. Afinal, querem enganar a quem?
Pergunto: qual a formação, além de técnica policial, que esses colegas policiais possuem? Será que o Estado da Bahia é desprovido de gestores competentes? Sem rodeios. O republicano Jaques Wagner tem que ser alertado. Ou muda esse estado de letargia, ouvindo os policiais, ou a situação só tende a se agravar, ainda mais. Isso não é ameaça e sim a realidade. De nada adiantará ficar nos bastidores e corredores lamentando ou conspirando. É preciso reagir e falar publicamente, sem medo. A insatisfação no seio policial é cristalina. Do jeito que as coisas estão indo, pela rapidez do domínio dos bandidos, com o crescimento da criminalidade, toques de recolher e os policiais desmotivados e sentindo-se constrangidos e acuados, as cidades baianas ficarão sem controle, idênticas ao Rio de Janeiro, tornando-se uma conjuntura insustentável. É a pura verdade. As duas polícias (civil e militar) vivem o pior momento da segurança pública do Estado.
A Polícia Civil perdeu sua autonomia, qualquer um pode mandar – casa de Chico -, passou a viver só deslumbramento e consolo. As delegacias instaladas nos bairros viraram apenas balcão de registro de queixas e informante do departamento de homicídio. Sem identidade e liderança, chegou ao caos. O descontentamento da maioria dos delegados de polícia é grande, só não percebe quem é cego, ou não quer enxergar. Acabou a investigação criminal e pericial. A hierarquia restou apenas no Estatuto. Os demais policiais mais experientes – investigadores, escrivães, peritos criminais, legistas e técnicos – seguem no mesmo sentido, optaram por lavar as mãos, preferindo o silêncio e ficar cada qual no seu canto, esperando o tempo passar. Os novos e recém chegados por sua vez, coitados, sem ter quem os oriente, ficam perdidos circulando de um lado a outro, sem rumo.
Os bandidos agem livres e abertamente nas ruas dia e noite. Conhecem a realidade e a crise que passa a polícia baiana. Nas delegacias e rádios das viaturas, a revolta e reclamação dos policiais é rotina. Os presos sabem tudo que ocorre nas unidades policiais (rede social de informação é um fato). Controlar comunidades em bairros periféricos, implantando domínio territorial, não convence a mais ninguém governador. O crime se pulverizou por todas as cidades. O policial não é burro. Quem bem sabe de tudo é ele que anda nas ruas. O resto é apenas falácia. É inadmissível aceitar que um agente federal venha dirigir um setor estratégico de investigação da Polícia Civil, como o Setor de Inteligência e ficar engolindo calado. Isso é ou não intervenção? É preciso dizer aos desavisados que Secretaria de Segurança Pública não é delegacia de polícia. É uma pasta para gerir política pública. Sua função não é de execução. É preciso que isso seja dito abertamente. Não aguentamos mais. Chega de publicidade inútil! As instituições de pesquisas e a própria ONU não deixam dúvidas quanto aos índices crescentes da violência no Estado da Bahia.
Com o meu afastamento das atividades sindicais,  a cúpula da Polícia Civil produziu – junto com as entidades que representam os delegados – outra minuta de Lei orgânica da Polícia Civi. A proposta foi apresentada ao governo, retirando de pauta a que tínhamos entregue anteriormente à Saeb. Mas, o que eles não esperavam aconteceu. O governador Wagner enviou, na verdade, para a Assembleia Legislativa foi mais uma Reestruturação da Polícia Civil e não a criação de Lei Orgânica da Polícia Civil, como fez para os Defensores Públicos, para os quais ainda implantou o subsídio como forma de remuneração. Enquanto isso, a Polícia Civil ficou para trás mais uma vez. De nada adiantou festejar com fogos de artifícios, regados a vinhos e cervejas. Até deputado relator carregaram. Mas a Polícia Civil continua na mesma. Relegada a 3º plano. “Sem lenço e sem documento”, ou melhor: Sem Lei Orgânica e Subsídio.
Pra encerrar e não ser mais incrédulo, tudo isso vem ocorrendo por falta de unidade e lideranças comprometidas com a instituição policial e os anseios da categoria policial. A falta de representação por parte da cúpula é a prova desse abandono. Medo, reféns e incompetência. Não sei. Mas o que não pode, nem deveria acontecer, é deixar os policiais civis desmotivados e abandonados, como se encontram. Lembro-me que à época da minha saída e dos demais diretores do Sindpoc, quando fomos expurgados há três anos, eles alegavam que era para garantir melhorias e avanços que iriam acontecer para a Polícia Civil no governo Wagner. C rispiniano Daltro estava atrapalhando e emperrando as negociações. E agora, o que emperra e atrapalha esses avanços?…

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Sobre Crispiniano Daltro

Crispiniano Daltro (crispinianodaltro@yahoo.com.br) é policial civil, administrador e pós-graduado em Gestão Pública de Municípios pela Universidade do Estado da Bahia (Uneb).