Chuva, sabor e poesia

Banho de sol


A Banho de Sol, nesse dia chuvoso e conturbado, vem falar sobre algo que aquece até os dias mais frios, sem necessidade de cobertor ou lã: a gentileza. Independente do ramo em que se atua, a gentileza deveria ser um gesto inerente à nossa existência. Algo de berço, cesto de palha ou mangedoura. Mas ainda estamos longe, ou quem sabe, já até passamos e nos distanciamos dela. Porém, eventos como o de hoje demonstram que muitos mantêm acesa essa chama.

A cidade de São Salvador amanheceu vestida de chumbo. Nuvens carregadas se anunciavam ao longe na Baía de Todos os Santos. Itaparica, Bonfim, Recôncavo e demais paisagens(comuns a um dia de sol) se escondiam por detrás da plúmbea e densa cortina. Logo a chuva caiu, insistente e vigorosa, atrapalhando o trânsito e a rotina dos que cedo labutam. Parece até que chover é algo muito incomum. Por mais que propagandas partidárias ostentem as obras de saneamento e drenagem, Salvador ainda é uma cidade meramente praiana. Mas, gentilmente, voltemos ao assunto…

Levemente ensopado, sem bote ou escafandro, cheguei ao trabalho um pouco mais tarde. A chuva insistente continuava até quase o fim da manhã, quando, enfim, resolveu dar uma trégua. Já prevendo a sua volta, antecipei minha saída rumo à vespertina aula de poesia. Para a minha surpresa, o trânsito fluiu relativamente bem, com algumas retenções, o que me fez chegar à Barra precisamente às 13:30h, horário da aula.  Sem tempo para talher e guardanapo, fui direto para a sala de aula, onde, apesar do tempo ruim, estava repleta com meus queridos alunos da chamada “terceira idade”. Aproveitando a ocasião metereológica, trabalhamos juntos com poemas sobre a chuva, numa divertida dinâmica pluvial, capaz de inundar meu ser e estômago até o meio da tarde, quando percebi que a chuva voltaria. Após aquela enchente poética, parti da Barra para o Comércio e, no meio da Graça, eis que gotas grossas diagonais dão o ar da graça e, em segundos, tomam o céu e as poças…

Chegando no Comércio, por volta das 15h, percebi que já era tarde para uma digna refeição.  Ao passar por 03 restaurantes em clima de fim de feira, me deparei com uma placa escrita “Cheiro Verde”. Subi as escadas, novamente molhado e vi que não tinha mais clientes… Mesmo assim, ousei perguntar: “Já fechou?” A resposta, até então certeira, foi convertida num oriental sorriso de quem ainda preza pelo bom atendimento humano: “Só sai A La Carte”, disse-me a moça, num tom simpático e solidário com o meu apetite. Na mesma hora, outra moça foi providenciar o prato, depois de me informar sobre o tempo de espera de 20 minutos. Na mesma hora, me senti seco, calmo e confortável, como se tivesse saído de casa exclusivamente para almoçar. Aproveitei o tempo de espera(menor que o previsto) para ler o texto de Análise do Discurso e, entretido com as páginas e e o clima agradáveis, fui surpreendido por um belo prato todo bem apanhado: arroz, cenoura em cubos refogada, uma forminha de farofa e um galetinho desossado, recém-chegado da brasa. Enquanto degustava aquela refeição, de um lado, ao telefone, a gentil moça fazia pedidos ao fornecedor, enquanto ao fundo, uma voz de criança, provavelmente filho dela, todo conversativo e alegre, quando pude perceber o tratamento de respeito entre toda a equipe  num ar de descontração e prazer. Demorei mais do que o normal naquele almoço e, ao pagar a conta, após um saboroso café (em xícara de verdade), prometi voltar ao Cheiro Verde Grill, um restaurante muito agradável, com preço honesto e atendimento impecável, além da comida, é claro, com tempero suave e feita com o tão falado “carinho”. Fica na Rua Portugal, no bairro do Comércio.

Podem pensar que estou fazendo uma simples propaganda do lugar. Mas a verdade deve ser dita. Estamos acostumados a reclamar, denunciar e apontar defeitos ou insatisfações. Mas devemos, também, elogiar quem merece. Como disse Marcos Valle, na música Viola Enluarada: “A mão que toca um violão, se for preciso faz a guerra”.

E, voltando à chuva, a Banho de Sol se põe com o poema de Cynara Novaes, da cidade de Teixera de Freitas, no sul da Bahia:


A chuva

Vem chuva…

A barra se fez,

o céu mudou de cor,

o tempo nublô.

Cadê guarda chuva?

Cadê lugar pra ficar?

Vem chuva…

A roupa no varal,

o passarinho no quintal.

Tira o feijão do terreiro!

A farinha da mandioca, meu Deus!

Acode, num deixa molhá!

Vem chuva

E as janelas? Abertas!

E o pano do sofá?

Vai molhá o colchão e o tecido de sonhar

O cachorro tá lá fora

e num tem pra onde entrar

Vem chuva…

E a volta da escola?

E os livros no borná?

O ninho da pata,

da perua e do cocá?

A calça no quarador,

a bota no girau,

a toalha da cor do natal

E a roça?E o algodão?

Agora num pode molhá

Corre panha a gamela

e o corante dentro dela…

Se molha, vai bolorá

Os boizinhos de maxixe

a boneca de azeviche

Coitados! Corre buscar.

E o pai lá na estrada?

Num tem venda,

num tem nada…

A água vai lhe pegar…

Vem chuva…

As panelas pras goteiras:

a caçarola e a frigideira.

E o telhado que Zé num arrumô!

Bem que eu disse que a chuva logo vortava

e encontrava os buracos aonde ela dexô.

E a casa de cumade Rita?

Toda feita de ripa, de papel e isopô?

Da última chuva, tudo por lá ensopô

E a lenha lá no mato?

Amanhã já encharcô

Como eu alimento o fogo

sem tê pau de acendedô?

Vem chuva…

chuva chuva chuva  chuva chuva chuva  chuva chuva chuva  chuva chuva chuva  chuva chuva chuva chuva chuva chuva chuva  chuva chuva  chuva chuva chuva  chuva chuva chuva  chuva chuva chuva  chuva chuva chuva chuva chuva chuva  chuva chuva  chuva chuva chuva  chuva chuva chuva  chuva chuva chuva  chuva chuva chuva chuva chuva chuva  chuva chuva  chuva chuva chuva  chuva chuva chuva  chuva chuva chuva  chuva chuva chuva chuva chuva chuva  chuva chuva  chuva chuva chuva  chuva chuva chuva  chuva chuva chuva  chuva chuva chuva chuva chuva chuva  chuva chuva  chuva chuva chuva  chuva chuva chuva  chuva chuva chuva  chuva chuva chuva chuva chuva chuva  chuva chuva  chuva chuva chuva  chuva chuva chuva  chuva chuva chuva  chuva chuva chuva chuva chuva chuva  chuva chuva  chuva chuva chuva  chuva chuva chuva  chuva chuva chuva  chuva chuva chuva chuva chuva chuva  chuva chuva  chuva chuva chuva  chuva chuva chuva  chuva chuva chuva  chuva chuva chuva chuva chuva chuva  chuva chuva  chuva chuva chuva  chuva chuva chuva  chuva chuva chuva  chuva chuva chuva chuva chuva chuva  chuva chuva  chuva chuva chuva  chuva chuva chuva

Ê Zé! Num disse!

Textos relacionados:

  1. Chuva traz de volta conhecidos transtornos
  2. Chuva provoca transtornos em Salvador
  3. Chuva no Rio deixa mais de 350 mortos
  4. Bem-dita Poesia – Oficina de poesia falada
  5. Chuva alaga região do Iguatemi

Sobre José Abbade

José Abbade (abbade@aqueimaroupa.com.br) é publicitário e poeta, pós-graduado em Docência do Ensino Superior (ABEC) e graduando de Letras na UCSAL. Autor do livro Bagagem de Mão – poesia em verso e prosa. Além de trabalhar na área de comunicação, desenvolve oficinas e cursos de expressão oral, recitais de poesia e saraus, através do seu projeto “Bem-dita Poesia, os deslimites da palavra viva”.