Evoé, Momo! A greve acabou!

Com a palavra...

visualizações (286)                     Envie este texto por e-mail para um amigo Envie este texto por e-mail para um amigo                     Ver comentários

Dentre as operações militares, com certeza, a mais difícil é a retirada, pois, por mais paradoxal que possa parecer, exige que o moral da tropa esteja em grau elevadíssimo. Nessa lógica, podemos refletir sobre as consequências do recente motim que eclodiu na PMBA e que, ao contrário do que o Governo do Estado quer nos fazer acreditar, não acabou, face a permanência das causas e concausas que o geraram e que o fizeram crescer e se alastrar por quase toda a corporação.

Numa crise das proporções que tomou o motim da PMBA, já que o embate armado não interessava a nenhuma das partes em confrontação, as possibilidades de solução eram ou um acordo negociado e aceito, ou, no caso de este não se concretizar, uma retirada em boa ordem, isto é, escalonada e honrosa. Todavia, o acordo não se realizou, e retirada não houve, mas sim uma acéfala desmobilização, num momento em que era indispensável manter na tropa o seu moral e a sua coesão.

A crise da Polícia Militar da Bahia não acabou, mas chegou ao fim mais um pico de agudização do seu ciclo decenal de amotinação, pela perda das condições de continuidade do processo de mobilização das tropas, mesmo que os policiais militares não consigam esconder a sua frustração. Voltaram ao trabalho, absolutamente insatisfeitos e, consequentemente, sem maiores esforços para compreenderem, perfeitamente, os resultados positivos e negativos do movimento, pois todo dia tem o seu “day after”.

A calmaria relativa que se restaurou nos quartéis e nas ruas no interior e na capital não se deve a uma estratégica retirada, mas a um pacto silencioso, celebrado com lágrimas de raiva e com o fermento da frustração cujas consequências, com certeza, se refletirão na segurança da nossa sofrida população que, no seu dia a dia, não conta com a atenção que o governo desta “Terra de Todos Nós” dedica ao carnavalesco folião.

No Reino de Momo, a produção do bem segurança seria impensável sem a PM, pois as milícias que atuam na segurança dos blocos e camarotes no Carnaval de Salvador, não raro, também são parte da corporação, em regime de dupla militância. Mas essa conivência com o duplo emprego que não é uma exclusividade do Carnaval nos dá uma boa ideia da realidade dos seus vencimentos e, em parte, nos explica o descontentamento por parte dos policiais.

O inspirado verso do sambista, “Tristeza, por favor, vá embora”, embute um apelo atemporal para que a coisa ruim, que incomoda e maltrata, desapareça. Na música e na fantasia do poeta, a tristeza, a insegurança e a angústia da perspectiva de uma festa de Carnaval sem a presença policial e outras coisas mais podem ir embora apenas com o pedido sincero do compositor.  Mas, na vida real, não é assim.

Porta arrombada, cadeado de ferro! Assim os mercadores do Carnaval e as autoridades governamentais apressaram-se em pedir a permanência do reforço das tropas federais entre nós. Mas, a quem interessa a imagem do Exército policiando o Carnaval de Salvador? Com certeza, a Momo não interessa a baioneta calada, mas “fanta” que canta.

O que seria da vida, afinal, se não houvesse o Carnaval? O que seria do Carnaval se não fosse a polícia? O Exército não está preparado para atuar nas ruas durante o Carnaval: não faz policiamento, não é treinado para fazer o varejo da segurança. A polícia é quem exerce essa função. E, sinceramente, nada substitui a Polícia Militar da Bahia nesse mister.

Nessa lógica, independentemente da presença do Exército e da Força Nacional de Segurança Pública de prontidão na nossa capital, não tenho dúvidas de que, no que depender da PMBA, o sucesso da festa está garantido.

Evoé, Momo! A Polícia Militar está na rua! O carnaval chegou! Não me preocupo com a festa, mas com os dias de quaresma que advirão, pois, até lá, como dizem os Capitães PM Mauro de Souza Araújo e Nelson Gomes dos Santos Filho:

“Continuaremos a tanger a massa dançante e inocentemente festejosa pelos estreitos espaços públicos destinados aos excluídos que tentem divertir-se mesmo sob a condição de massas espremidas entre os açoites projetantes das cordas e as decoradas e coloridas muralhas dos camarotes burgueses”.

 

Textos relacionados:

  1. Moral da greve e Moraes do Carnaval
  2. Greve da PMBA: Choque se recusa a invadir a Assembleia
  3. Greve da PM: governo diz que quer negociar
  4. Artistas são convidados a negociar fim da greve
  5. E agora, José?… A festa acabou!

Os artigos publicados nesta seção são de responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, a posição do À QUEIMA ROUPA.

Sobre Antonio Jorge Ferreira Melo

Antonio Jorge Ferreira Melo é coronel da reserva da PM-BA, professor e pesquisador do Progesp (Programa de Estudos, Pesquisas e Formação em Políticas e Gestão de Segurança Pública) da Ufba, da Academia de Polícia Militar e da Estácio-FIB.