*Marília Marques
Quando eu entrei no avião, no voo de retorno ao Brasil depois de um ano vivendo, viajando e estudando em Portugal, um senhor já estava sentado na poltrona ao lado da minha. Com a minha mala e muitos casacos na mão, eu o cumprimentei com um “boa tarde” antes de sentar-me. Ele respondeu-me sério, mas gentilmente e ofereceu-se para pôr minha mala (e os 367 casacos que eu trazia na mão, rs) no porta-malas.
Era mesmo um senhor daqueles que têm cabelos brancos, usa óculos, deixa as pernas cruzadas e segura um jornal sobre os joelhos. Eu ri da figura meio-exótica-meio-normal ao meu lado, que olhava todas as pessoas do avião como que tentando desvendá-las e, de repente ele percebe meu riso de leve analisando a excentricidade dele, para o olhar sobre mim e pergunta-me:
- Tudo bem?
Sinceramente não estava tudo bem. Eu já estava concentrada nos sons à minha volta, que eram os mesmos que um dia, um ano atrás eu já tinha escutado: da turbina do avião mesclados com o da minha respiração ofegante antes da decolagem. E eu pensei no momento da pergunta dele em dizer tudo isto. Em pedir: “Um momento, por favor, este momento é só meu. Quero estar aqui quietinha… concentrada na minha dor de ser arracada de um lugar que eu ainda não queria deixar!”
Mas tudo isso seria dramático demais…E eu apenas respondi:
- Sim, tudo bem e você?
Pronto! Foi a oportunidade dele poder me perguntar mais. Perguntou-me se eu vivia em Portugal e há quanto tempo eu estava. Depois que eu contei-lhe que era um intercâmbio e que eu estudava jornalismo e tal e coisa, ele me perguntou em tom de desentendimento:
- E por que já está voltando?
Eu sorri. E não quis responder com palavras (era complexo demais para mim aceitar que estava voltando tão cedo)… Mas talvez não tenha respondido pois realmente nem eu sabia o porquê. Fiz-lhe simplesmente um levantar de ombros. Ele entendeu.
Eu realmente não estava pra conversa. Estava sendo duro demais para mim partir. A cena da despedida dos amigos na rodoviária de Bragança/Portugal – cidade onde eu estava vivendo – ainda estava viva na minha cabeça. Isso de dizer “adeus”, balançar o braço e dar tchauzinho já era parte da minha vida há uns três anos desde que fui viver fora de casa para estudar em outras cidades, mas confesso que não é nada fácil de lidar com despedidas; principalmente se for daquelas em que você abraça teus amigos e tem a noção de que no instante do abraço nasce o medo de nunca mais revê-los. Estranha sensação de olhar nos olhos de cada um, rever e sentir tudo o que já se passou em um ano de convivência.
E depois que eu não soube lhe explicar porque eu já estava voltando do intercâmbio, ficou um silêncio entre nós, até o momento em que o avião já havia ganhado altitude. Eu me via entre as nuvens novamente – sensação que me fazia bem – com a cabeça em direção à janela observando a cidade de Lisboa ficar pequenina, até o senhor interromper meu transe e perguntar-me em tom de afirmação:
- O teu sonho acabou, hein?!
Aquilo foi tão duro de ouvir que eu olhei incomodada para ele e respondi:
- Ainda não.
Ele brincou:
- Ah, então só acaba quando chegar em Salvador…?!?
Eu sorri:
-Quando eu chegar, meus sonhos só estarão recomeçando, acredite.
Ele ergueu a sobrancelha direita em tom de desafio e prosseguiu novamente em silêncio. Mas, em seguida a esta minha última frase, que era só uma “consolação” de mim para mim mesma, eu logo lembrei:
É verdade, vai ser complicado voltar. A cidade se preparando para o Carnaval (algo que nem de longe estava em minhas prioridades participar por agora), sem falar na drástica mudança climática – afinal não é fácil deixar o inverno rigoroso de uma cidade europeia para aterrisar em pleno verão de Salvador. Sem falar de que as pessoas da cidade estavam se recompondo da onda de violência que foi notícia em alguns jornais do mundo em decorrência da greve da Polícia Militar na Bahia.
Deixei os pensamentos de lado. Nesse instante, eu tinha a mente limpinha. E o tal senhor insistia em me fazer pensar sobre o meu retorno. Perguntou-me se eu estava feliz, se um dia eu pretendia voltar e quais eram o meus planos em relação aos estudos. Notei que tudo estava ficando filosófico e profundo demais. E enquanto conversava agora tranquilamente com ele, uma lágrima – bem discreta – caiu em um dos meus olhos. Eu, rapidamente enxuguei-a com uma das mãos e prossegui na conversa, meio sem jeito. O tal senhor disse-me num tom sério:
- Não tenha receio em deixar transparecer se tens medo.
Eu nem hesitei e repondi:
- Não estou com medo.
E ele:
- Está sim. Tens medo de como será a tua volta ao Brasil.
Eu novamente disse-lhe:
- E por que você está dizendo isso?
O senhor respondeu imediatamente:
- Porque se fosse eu teria. Eu estou só há dois meses longe do Brasil. Mas sei que a cidade está um caos. Estávamos em greve da polícia, a segurança é um assunto esquecido pelo governo; no calor nem se fala… O Carnaval é a maior preocupação atual, o prefeito não quer mais saber da nossa cidade. Tem lixo, muito barulho nas ruas, desorganização… Você bem sabe, mas agora tudo o que você vir será de um ângulo diferente. Tudo fica mais intenso.
Sim, eu sabia que a minha visão das coisas e pessoas não seria mais a mesma. Eu sabia! Mas ele não precisava ser tão direto assim! Reclinei a poltrona e prossegui vendo as nuvens passarem. Já era quase noite no céu. Eu estava sobre o oceano e ainda faltavam algumas horas de voo até a chegada em solo brasileiro.
O senhor disse-me mais muitas coisas sobre as experiências dele de viagens, de jornalistas que ele conhecia, das coisas que ele achava sobre o mundo e sobre as pessoas. Depois dormiu. E de repente, como se estivesse com o corpo programado, acordou quando estávamos próximos a aterrisar, e na fila para descermos do avião ele estava em minha frente. Próximo à saída ele virou-se para mim e disse-me mais ou menos assim:
- Quando a realidade chegar de verdade, garota, lembre-se que não foram as coisas que mudaram, é você que não é mais a mesma! Até logo!
E nesta noite em que a temperatura era nada menos que 28 graus, o ar quente de Salvador entrou pelo meu nariz e foi aí que senti que realmente eu estava de volta.
*Marília Marques é estudante do 3º ano de jornalismo. Brasileira, intercambista em terras lusitanas. Autora do blog Abre Aspas
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Bom dia,
Apresentou-me, o meu nome é Jerome MONDRY eu sou Frances e atualmente estou no Brasil fazendo um estagio. Li com grande atenção este texto. Acho que é texto claro e muito sincero.
A traves destas linhas, eu fui realmente captivado. Entendo perfeitamente o sentido do texto, o seja a emoção da autora.
Como estudante em comercio exterior, tive a oportunidade de conhecer varios paises e varias pessoas…penso que viver uma experiencia fora do seu pais é realmente uma sorte, uma experiencia única em emoções e este texto mostra bem isto.
Boa continuação.
Jerome MONDRY
Etudiant – COMERCIO EXTERIOR
UNIVERSIDADE PARIS – EST – CRETEIL
FRANCE
Muito bom! Pelo tempo que passei em Portugal posso dizer que é esse mesmo o sentimento. E que a última frase que esse cara disse é pura verdade, estou vivendo isso. Ótima crônica!
Muito bonito e profundo, às vezes sinto que o Mundo está cheio de pequenos mensagueiros e de pequenas frases que nos entram pela cabeça e que de uma forma ou de outra modificam a nossa vida, ou nos alertam para a mudança que ja aconteceu, ás vezes somos pequenos observadores do mundo, outras vezes somos a janela por onde o mundo olha.