Ode ao 1º de abril

Com a palavra...


Sou daqueles que acreditam que nada acontece por acaso, mas, coincidência ou não, mais de um mês após o fim da greve da PM em Salvador, que durou 12 dias, o governador da Bahia escreveu um artigo publicado na edição de domingo, 1° de abril, no Jornal Folha de São Paulo, dando a sua visão do episódio, explicando e justificando os métodos democráticos que utilizou na negociação com os grevistas para impor a sua paz romana.

Pensando na diferença do discurso e dos métodos do atual governador da Bahia e nas estratégias e táticas de 11 anos atrás quando o então candidato ao cargo máximo do poder executivo baiano brandia, indignado, um contracheque do então soldado Marcos Prisco, me recordei que, quando criança, eu sempre quis saber o motivo de se instituir o Dia da Mentira, mas, independentemente das razões que levaram à escolha da data, as minhas inquietações e angústias tinham motivações mais existenciais e morais do que a simples curiosidade investigativa infantil.

Em minhas recordações, lembrei-me de quando aprendi com meus pais, avós, professores e outras figuras de autoridade que mentir era feio e errado e de como eu achava difícil falar sempre a verdade, em qualquer circunstância. Assim, em minha santa ingenuidade, imaginava que necessitávamos de pelo menos um dia no ano para convivermos com as mentiras, sem culpa e sem medo de censuras ou castigos.

Felizmente, em minha caminhada para me tornar um adulto, pude perceber que o hábito de mentir era inerente a todos nós seres humanos e, aos poucos, tomei consciência de que era irônico termos um “Dia da Mentira”, afinal todo dia era dia da mentira, pois acabávamos mentindo por necessidade, por brincadeira, por bondade ou, até mesmo, por pura e simples maldade, pois, como afirma a psicóloga Mary Ann Mason, “viver sem mentira seria insuportável”.

Nessa lógica, enfim, consegui compreender o porquê da mentira não ter sido classificada como um dos sete pecados capitais pelos codificadores da fé católica. Afinal, se a gula, a luxúria, a preguiça, a ira, a avareza, a soberba e a inveja estão na lista dos pecados que levam os crentes direto para o inferno e a mentira não, é porque mentir é humano.

O certo é que, de uma forma ou de outra, de mero mecanismo de conveniência e convivência social, a mentira tornou-se a ferramenta de trabalho e estratégia de sucesso dos políticos, pois, como nos ensina Octavio Paes“a mentira política se instalou em nossos povos quase constitucionalmente e o dano moral tem sido incalculável, alcançando zonas muito profundas do nosso ser. Movemo-nos na mentira com naturalidade.”

Convencionalmente aceita no que diz respeito à diplomacia, à razão de Estado, etc., a mentira perdeu esses limites, varrendo qualquer resquício de pudor, escrúpulo ou reserva de verdade, ao ponto de, na política brasileira, não ser mais considerada um escândalo, mas uma arte. Assim, vive-se e sobrevive-se na política embrulhando com maestria a verdade e, não raro, desembrulhando com mestria a mentira.

Sim, existem greves legais e greves inconstitucionais, assim como se misturam, em nossa classe política, democratas verdadeiros e falsos democratas. Nesse sentido, na atualidade, os cidadãos agem de forma saudável quando tratam com ceticismo as versões oficiais dos fatos, pois, mesmo em regimes democráticos, com a imprensa livre e vigilante, não raro, os governantes mentem, omitem dados ou douram a pílula. Mas existem casos em que não devemos ser apenas céticos, pois se torna necessário questionar, no mínimo, para que fique claro que somos úteis, embora não tão inocentes como possam imaginar em suas vãs filosofias.

Desnecessário dizer que todas os grandes engodos e as maiores falácias engendradas por politicos sempre são proferidas em nome do interesse do Estado, do conjunto da sociedade ou da liberação dos oprimidos, pois, como regra geral, as mentiras travestidas de verdades ditas pelos governantes escondem-se sob a justificativa do bem comum quando, em verdade, interessam mais à sobrevivência deles e de seu grupo. Mas deixemos que a história seja a inexoravel juíza de si mesma.

Sabe-se de antemão da mentira anunciada/prometida, pois, segundo os cientistas do comportamento humano, os políticos formam a categoria de pessoas que têm mais razões para mentir, sair-se com evasivas ou omitir dados. Mas, antes de atirar a primeira pedra, aconselham, é bom lembrar que todo mundo mente. Assim, o problema político da mentira já não é a mentira em si. O problema é o de saber até quando continuaremos dispostos a acreditar nelas, pois, de “País do Futuro”, o Brasil se transforma em país sem presente e, parodiando Nietzsche, ouso perguntar: “quem virá salvar-nos de nossos salvadores”?

Como, segundo Jaques Wagner, “nas sociedades democráticas, as liberdades de palavra e reunião são concedidas mesmo aos inimigos mais irredutíveis”, salve o 1° de abril!  Quem tem boca que diga o que quiser e quem tiver dinheiro, talento ou uma boa assessoria que escreva e publique onde puder. Não é sem sentido que o famoso chanceler alemão Otto von Bismarck dizia que “as pessoas nunca mentem tanto quanto depois de uma caçada, durante uma guerra e antes de uma eleição”.

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Sobre Antonio Jorge Ferreira Melo

Antonio Jorge Ferreira Melo é coronel da reserva da PM-BA, professor e pesquisador do Progesp (Programa de Estudos, Pesquisas e Formação em Políticas e Gestão de Segurança Pública) da Ufba, da Academia de Polícia Militar e da Estácio-FIB.