A Paixão de Cristo (Passio Christi)

Banho de sol


Ainda hoje, acredito que muitas pessoas se perguntem o porquê da expressão “Paixão de Cristo” na semana santa. Principalmente os que não seguem alguma religião com base no Cristianismo.

Lembro-me dessa pergunta que fiz a alguém na infância, com a mera e simples resposta (não me lembro de quem) que dizia mais ou menos assim ” A Paixão de Cristo significa todo o sofrimento de  Jesus desde que foi preso até a sua crucificação. Boa resposta, mas nunca havia me convencido. Faltava o motivo, o porquê.

Para mim, a palavra “paixão” era logo associada a sentimentos como amor, desejo, veneração como no verso de uma das canções de Wando: “Você é fogo e eu sou paixão”. Vários são os exemplos na música e literatura para a palavra “paixão” como algo bom, quente e, mesmo que sofrível, não chegava a ser ruim, afinal de contas, o amor “…rói o coração da gente e dói, dói, dói”. Mas essa “dor” está muito distante da dor que Jesus sentiu na carne em toda a via crucis que é a expressão em latim que significa “caminho da cruz”.

E, por falar em latim( e como não falar?), a resposta à minha transcendental pergunta está nele.

A palavra Paixão, é oriunda do latim, nossa língua-mãe,  que significa sofrimento, bem longe daquela ideia de êxtase do amor.  Etimologicamente, paixão vem de (passio, passionis) que significa passividade.

Voltando ao bom português, quando uma oração está na voz passiva, significa que a ação é sofrida pelo sujeito. Mais uma prova da mesma raiz (latina) de “passivo” e “paixão” e ambas estão associadas ao sofrimento, padecimento.

Passio Christi, conforta me.
O bone Iesu, exaudi me.
Intra vulnera tua absconde me”

(trecho de Anima Christi)

É claro que, nos terrenos do amor, também existe o sofrimento, a espera, a dor de não ser correspondido… aí sim, temos a paixão. Há até quem defenda a tese de que um amor, mesmo sendo retribuído, também provoca certa dor, algum sofrimento…

Neste caso, a palavra “paixão” está muito bem empregada, afinal, como cantou Angela Rorô, ” Amar e sofrer, eu vou te dizer. Mas vou duvidar. Querendo ou não. O meu coração já quer se entregar“. E é por essas e outras que o Latim não pode ser considerado língua morta…

Uma ótima Semana Santa a todos!

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Sobre José Abbade

José Abbade (abbade@aqueimaroupa.com.br) é publicitário e poeta, pós-graduado em Docência do Ensino Superior (ABEC) e graduando de Letras na UCSAL. Integrante do Grupo CANTO IN VERSO e autor do livro Bagagem de Mão – poesia em verso e prosa. Além de trabalhar na área de comunicação, desenvolve oficinas e cursos de expressão oral, recitais de poesia e saraus, através do seu projeto “Bem-dita Poesia, os deslimites da palavra viva”.