Redução de homicídios requer vontade política

É de lei!


Em abril do ano passado, há um ano, portanto, o governo do estado inaugurava, no âmbito da Polícia Civil, o Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP). Como foi dito à época, a criação da unidade perseguia dois objetivos: reduzir o número de homicídios e aumentar a elucidação de crimes na Bahia. Não dá para saber ao certo qual o plano dos gestores para alcançar essas metas, uma vez que ambas dependem muito menos de desejo pessoal e muito mais de vontade política, aqui entendida como a aplicação de recursos em ações que extrapolam a alçada policial.

Além de policiais motivados, para inibir a criminalidade é preciso desmontar cenários adversos, mediante o enfrentamento a outras manifestações delituosas como o tráfico de drogas, por exemplo, apontam os especialistas em segurança. Investir em educação, saúde, habitação e oferta de emprego para jovens são ações indispensáveis a um pacto efetivamente voltado para a paz, como costuma alertar o professor Antonio Jorge Ferreira Melo, pesquisador do Programa de Estudos, Pesquisas e Formação em Políticas e Gestão de Segurança Pública da Universidade Federal da Bahia (Progesp/Ufba), estudioso do tema.

Quanto à pretendida ampliação no volume de casos esclarecidos, os números oficiais do DHPP neste primeiro ano de atuação são positivos. De acordo com a Polícia Civil, dos 1.493 inquéritos analisados pela equipe, 245 teriam sido elucidados. Mas não há evidências de que os autores estejam presos. Nem é possível, no momento, verificar se, após a criação do departamento, houve diminuição no índice de homicídios: segundo a assessoria de comunicação da SSP-BA, o Centro de Documentação e Estatística Policial (Cedep) está introduzindo mudanças no sistema e não tem produzido relatórios estatísticos. Ou seja: não há como comparar o antes e o depois do DHPP.

A estrutura

A sede do departamento fica na Rua das Hortênsias, Caminho das Árvores, bairro de vocação mista, variando entre imóveis residenciais de alto luxo e empreendimentos comerciais voltados para a classe A. E mesmo não fazendo parte do mapa preferencial de homicídios na capital, a localidade está dentro da 16ª Área Integrada de Segurança Pública (Aisp Pituba), tendo como vizinhos bem próximos bairros que abrigam zonas de conflito social como Santa cruz, Nordeste de Amaralina e Chapada do Rio Vermelho.

Não por acaso, dos 1.619 homicídios registrados em toda Salvador no ano passado, segundo estatísticas oficiais, 12,6% foram verificados na região. Com um agravante: em janeiro e abril, a Aisp 16 liderou o ranking de assassinatos, com 19 e 28 casos, respectivamente.

Funcionando em regime de plantão, o departamento conta com 40 delegados, 31 escrivães e 131 investigadores. Como não houve uma seleção específica para o preenchimento desses cargos, de onde teriam sido pinçados os profissionais ali alocados?

 

Impunidade

 

Mas voltemos ao foco principal. O que mudou no mapa da impunidade com a criação do DHPP? Em resposta a consulta do À Queima Roupa, a assessoria de comunicação da Polícia Civil contabiliza que houve um índice de 16,4% de elucidação de casos com identificação do autor. Nada mal para um estado em que a média de solução de crimes de morte raramente ultrapassava os 10%. Ocorre que, nem sempre, o que a polícia chama de solução implica na devida punição. Quer ver?

Apesar de mostrar serviço, neste primeiro ano de funcionamento o DHPP não conseguiu encontrar respostas para casos emblemáticos que permanecem impunes em Salvador e região metropolitana. Um exemplo é o duplo homicídio dos sindicalistas Paulo Colombiano e Catarina Galindo. Militante do PC do B e ativista sindical, o casal foi executado a tiros em 29 de junho de 2010, numa movimentada rua do bairro de Brotas. Transferido para a nova unidade, o caso permanece sem autoria definida, mas a polícia “só vai comentar o caso depois que o inquérito estiver concluído”, conforme nota da Ascom/PC.

Outro crime que permanece impune e não atraiu o interesse do novo departamento é o caso do artista circense Ricardo Matos, 20 anos, morto em 22 de janeiro de 2008, numa quadra de esportes no bairro da Boca do Rio.  Três policiais militares foram acusados e presos, mas provaram ser inocentes. Sobre a flagrante impunidade do caso, a Polícia Civil diz que “O trabalho da polícia acabou no momento em que os responsáveis foram indiciados, em 2008, e o inquérito e remetido ao MP”. Simples assim.

E quanto à morte da bancária Ananda Lima Barreto, 30, mulher de um oficial PM do quadro de segurança do governador do estado? Ela foi asfixiada na praia de Ipitanga, Lauro de Freitas, em 1° de março de 2010 e o crime permanece sem autoria definida. Sobre o crime, uma resposta lacônica: “O DHPP só apura homicídios em Salvador”.  Mas como, se na inauguração do departamento, um ano atrás, foi prometida a criação de 11 delegacias especializadas na apuração de homicídios, cinco das quais no interior do estado?…

Embora tenha atendido prontamente à solicitação de dados sobre o DHPP, a Ascom/PC não se manifestou sobre contato solicitado pelo À Queima Roupa com a direção do departamento para uma avaliação sobre a unidade.

 

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Sobre Jaciara Santos

Jaciara Santos (jaciara@aqueimaroupa.com.br) é sergipana de Aracaju, mas atua como jornalista profissional em Salvador-BA, já há quase três décadas. Foi repórter, chefe de reportagem, pauteira, editora de Cidade, Política e Economia, colunista e subeditora de Segurança. Premiada duas vezes no extinto concurso de reportagens da Associação Bahiana de Imprensa, em 2003 conquistou também o prêmio Banco do Brasil na categoria reportagem por uma série de matérias sobre a ação dos grupos de extermínio na Bahia.