EXCLUSIVO Diego Hypolito: ‘Nada é impossível se a gente acreditar’

Especial


Diego Hypólito e as suas diversas conquistas esportivas

Bicampeão mundial do solo e membro da Seleção Brasileira de Ginástica Artística, Diego Hypolito, 25 anos, já garantiu vaga nas Olimpíadas de Londres (27 de julho a 12 de agosto deste ano), mas não parece totalmente satisfeito. Lamenta a  forma como o esporte é encarado no Brasil e cita como exemplo desta distorção cultural o fato de sua irmã – a também ginasta Daniele Hypolito, 27,  e um dos principais nomes do esporte no país – estar atualmente sem patrocínio. Em entrevista exclusiva ao À Queima Roupa, em janeiro deste ano, Diego falou com emoção da conquista da primeira medalha de ouro na modalidade solo e de planos para o futuro: dentre outros projetos, ele pretende concluir a graduação em Educação física e criar projeto social para massificação do esporte nacional.

 

A contusão no ombro esquerdo está sob controle?

Ainda dói. Está sendo controlada. Existe a possibilidade de a dor aumentar, mas, ao mesmo  tempo, se eu fizer toda a prevenção, a preparação física, isso vai mantê-la sob controle, e  terei toda segurança para competir bem. (A lesão no ombro impediu Diego de participar do Pré-Olímpico, realizado em janeiro último, em Londres, Inglaterra. O ginasta, atleta do Flamengo, estava treinando com a seleção em dezembro, na cidade de Arques, França, visando o Pré-Olímpico. Passou a sentir dores no ombro e, após exames, foi  afastado da competição.).

Como tem sido o seu esquema de treinamento para os Jogos Olímpicos de Londres?

Este ano tive que reabilitar o meu treino, por causa da lesão que tive no ano passado, no ombro esquerdo. Tinha que operar. Mas, por decisão minha, só vou fazer isso depois das Olimpíadas. Achei que teria um tempo muito curto de treinamento, caso operasse. Ficaria cerca de cinco meses parado. A Olimpíada é no final de julho.  Não iria treinar quase nada. Considero que, se eu quero sonhar com uma medalha olímpica, ter a possibilidade de conseguir, não que eu vá conseguir, mas ter a possibilidade, tenho que estar treinado. Todos os atletas do mundo estão treinando. A gente fez uma avaliação médica, com o conhecimento do Comitê Olímpico Brasileiro – COB, que me ajudou em todo esse processo no início do ano, juntamente com a Confederação Brasileira de Ginástica, e toda uma equipe que trabalha comigo – médico, psicólogo, fisioterapeuta, fisiologista, nutricionista… muita gente. Sem contar, lógico, a parte do Flamengo, de assessoria, de treinador, de aparelhagem. Então, tudo isso contribuiu para que eu iniciasse o ano focado.

Além do solo, você vai competir em outra modalidade?

Na reunião  que eu tive com o COB manifestei minha vontade de competir no salto também. Mas isso só o tempo vai dizer. O impacto direto no ombro é muito maior que no solo. Chances mesmo, de uma possível medalha olímpica, caso continue treinando com foco, como venho fazendo, chances mesmo, tenho no solo.

Qual será seu principal adversário em Londres?

Um dos grandes concorrentes é o chinês Zou Kai, campeão olímpico do solo.

Em Pequim você foi o único  representante brasileiro. Nesta Olimpíada, além da sua presença, quantos atletas da ginástica masculina brasileira irão competir?

Em Londres, teremos o Sérgio Sasaki, uma vaga certamente será dele, pois é o atleta mais bem preparado para essa vaga, e o Artur Zanetti, um atleta muito focado, foi medalhista mundial no ano passado – medalha de prata na modalidade das argolas em competição realizada no Japão,  que tem chances de medalha olímpica. Por mais que a gente não esteja competindo como uma equipe, nós somos uma equipe.

Quais são os seus patrocinadores?  

Estou atualmente com a Embratel, a Time Rio, em convênio com a Prefeitura do Rio e o COB. Eles trabalham toda a parte de preparação. Arcam com todas as minhas despesas externas, como, por exemplo, psicólogos, nutricionista, fisioterapeuta, médico… A Caixa Econômica Federal, em conjunto com a Confederação Brasileira de Ginástica, a Forten, e o Flamengo, que desses todos é o principal, onde estou desde novo. É o clube onde aprendi e me fortaleci.

Qual a sua formação? Você é professor de Educação Física?

Não terminei a faculdade de Educação Física. Tranquei a matrícula, em função dessa vida corrida que tive nos últimos anos.  Acabei deixando um pouco de lado, mas a faculdade é extremamente importante. Após o término das Olimpíadas, vou retornar. Acho que a formação é mega importante. Também tenho um plano de ter um projeto social para massificação do esporte nacional.

Um projeto social?…

Cada vez fica mais claro na minha cabeça que o esporte começa, na grande maioria das vezes, com raízes humildes. Não que pessoas com condição financeira melhor não sejam excelentes atletas. Muito pelo contrário. Mas a grande massa do esporte brasileiro veio de raízes humildes. Acho muito importante a gente dar oportunidade a uma criança que sonha ser atleta, poder alcançá-lo. Pode alcançar, ou não. Mas pelo menos dar oportunidade para ir em busca do sonho. E nesse ponto o esporte brasileiro precisa evoluir muito. O Brasil é muito grande e fica muito em cima do Rio de Janeiro, São Paulo, muitas vezes, Porto Alegre e Curitiba, Paraná. Acho que o projeto social é importante. Por meio dele quero passar um pouco daquilo que aprendi.

Fale um pouco sobre a conquista da sua primeira medalha de ouro no solo.

Não esperava ser medalhista mundial. Tinha ido ao meu primeiro mundial em 2002. Dei muita sorte de ter conseguido ficar em quinto lugar. No ano seguinte, ano pré-olímpico, 2003, fiquei em quarto lugar no Mundial. Em 2005, tinha operado meu pé. Coloquei dois pinos no pé direito. Fiquei seis meses sem treinar. Por um voto de confiança da Confederação Brasileira de Ginástica, fui inscrito no Mundial, mesmo eu tendo treinado apenas uma semana Lá, no Mundial – em Melbourne, Austrália -, treinei mais uma semana. Com 15 dias de treinos conquistei meu primeiro título mundial. Não esperava. Só por ter ido ao Mundial já estava mais do que feliz. Não imaginava que seria campeão mundial naquele ano. Não esperava nem ser finalista. Fiquei muito emocionado. Nem gosto de falar sobre isso, pois até hoje me emociono. Eu me lembro que quando eu subi no pódio, apareceu minha irmã no telão, dizendo que ela tinha sido a primeira medalhista da história da ginástica feminina brasileira (Daniele, em 2001, ganhou medalha de prata no Mundial de Ghent, Bélgica. A conquista despertou o interesse pela ginástica, modalidade que, na época, não tinha visibilidade no país) e que eu estava sendo o primeiro medalhista da ginástica também. A minha carreira ficou sólida a partir daquele momento, porque vi que nada é impossível se a gente acreditar. Nos seis meses que fiquei sem treinar, não perdi o foco, o sonho, que era estar lá. Quando você monta uma programação e cumpre  aquilo como tem que ser cumprido, em qualquer área da vida vai dar certo.

 

“Não existe investimento na base. Por isso que o esporte acaba no Brasil”

 

 

Na sua opinião, a ginástica brasileira é respeitada no exterior?

Hoje, quando a gente chega, nós somos respeitados. Somos olhados com um olhar do tipo “o Brasil está na competição”. Isso me deixa muito honrado. Nossa cultura é muito em cima do futebol. Quando a gente chegava nas competições, as pessoas falavam: Brasil, Brasil, futebol, futebol…

Em que momento você acha que o brasileiro passou a ter um olhar mais atento para a ginástica? O fenômeno Nadia Comaneci influenciou?

Começou com a Luisa Parente, que conseguiu duas medalhas em Jogos Pan-Americanos. As pessoas não  acreditavam que o Brasil pudesse ter essa oportunidade. Depois surgiu a minha irmã (Daniele Hipólito), depois a Daiane e a Jade.

A Nadia Comaneci foi a precursora por despertar o interesse das pessoas no Brasil pela ginástica. Mas o olhar foi a partir de Luiza Parente. Hoje em dia já surgem atletas com mais facilidade. Mas para começar a ter estrutura de aparelhagem no país, demorou. O Brasil ainda é muito precário em comparação a outros países.

No Brasil, com as exceções de praxe, os grandes atletas só são lembrados quando se aproximam os grandes eventos…

É por isso que, infelizmente, os atletas acabam no Brasil. E não é só no Brasil. Muitos países são assim, A cultura dos Estados Unidos é diferencial. Eles investem no atleta desde a sua formação de criança, independente de saber se ele poderá ser medalhista, ou não. O esporte muda a vida da pessoa. É geral. Não precisa ser herói para ser campeão. Cito o exemplo mais claro, que é a minha irmã. A Daniele, perante a carreira dela toda, como ela era sempre a única, o Brasil tinha patrocínio para Daniele, investia nela. Hoje em dia porque tem Dani, tem Jade, tem Daiane, eles escolhem sempre uma pessoa e esquecem que as outras têm uma vida toda, uma carreira. Isso vira uma profissão. Então, como pode uma menina de 27 anos, sendo atualmente a principal atleta da seleção feminina, não ter patrocínio?

É complicado…

A Adriana Samuel (medalhista olímpica do vôlei de praia) decidiu, juntamente com algumas amigas, ajudar minha irmã. Essa atitude, que uma empresa grande deveria fazer, pois tem isenção no Imposto de Renda, de formação também deste o início, o Brasil não tem. Só investe nos principais atletas, com mais visibilidade, com possíveis chances de medalha olímpica. Não existe investimento na base. Por isso que o esporte acaba no Brasil. Você vive sempre daqueles que conseguem se manter nos resultados, aí tem patrocínio, tem isso, tem aquilo. Citei o exemplo da minha irmã porque foi o mais claro na minha cabeça. É a principal atleta da ginástica feminina. Pode não ter, entre aspas, tanta visibilidade como tem alguns atletas, e acaba ficando sem patrocínio. Isso para mim é uma coisa que considero triste no Brasil. O Brasil é momentâneo. Você explode, consegue tudo. Mas depois…. Não existe uma manutenção. Por isso, os atletas saem. Não tem escolha. Por isso é que eu falo: não vou deixar de fazer minha faculdade. Minha vida tem que continuar. Depois da ginástica tenho que me manter.

E como estão seus patrocínios?

Não tenho nada que reclamar de patrocínio. Muito pelo contrário. Todas as empresas que entraram na minha vida foram totalmente necessárias para ter o que tenho hoje. Não estou reclamando das empresas. Reclamo da estrutura. O atleta não consegue se manter quando fica mais velho. E também mais novo.

 

“A China já é, há alguns anos, a maior formadora de atletas”

 

Qual o país que tem mais tradição na ginástica?

A ginástica começou na Alemanha. Mas a Romênia é muito bem vista por causa da Nadia Comaneci. A Rússia vem crescendo novamente. Os Estados Unidos é muito sólido, sempre está num padrão muito alto. Mas o principal país, na minha visão, incomparável, é a China que, já há alguns anos, é a maior formadora de atletas.

Já recebeu algum convite para treinar em outro país?

A ginástica não é como em outras modalidades. Para você mudar de país, primeiro tem que abandonar o sonho de ser um atleta da seleção. E esse não é o meu objetivo. Não  quero sair do Brasil para representar outro país. Esse interesse nunca aconteceu comigo.

Nem mesmo só treinar e voltar?

Não, não. Não tem esse comércio na ginástica. Já recebi convites para representar uma cidade ou outra em determinadas competições. Mas não para ficar.

Qual é  a sua religião?

Acho que Deus é sempre o mesmo em todas as religiões, todas as crenças. Sou católico. mas também tenho muita coisa do espiritismo. Acho que a religião parte muito do conceito de cada pessoa. As religiões têm uma coisa que eu não concordo: elas têm preconceito entre elas. Acredito muito em Deus.

Esporte à parte, o que você gosta de fazer no seu tempo livre, além de brincar o carnaval?

Eu gosto realmente de carnaval (risos). Os olhares do mundo vêm para o Brasil, principalmente para o Rio  de Janeiro. Mas adoro ir à praia. Gosto das coisas da natureza, de dançar nos finais de semana. Sou igual  a todo mundo. Faço tudo que todo mundo faz. Às vezes ando de skate. Hoje em dia estou andando menos por causa da cirurgia. Fico com um pouco de receio. Gosto de fazer coisas diferentes….. Voar de asa delta…. Estava aprendendo a surfar. Adoro também jogar vôlei, mas não estou mais podendo, por causa do meu ombro.

Além de ser atleta do Flamengo, você é torcedor do clube?

Sou flamenguista. Eu vi esse caderninho (referindo-se ao bloco  de anotações do repórter, com o escudo do Botafogo) A primeira coisa que eu vi foi seu caderno (risos) E pensei: eu vou falar. (risos) Aqui no Flamengo tem ser flamenguista (risos)

 

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Sobre Paulo Cezar Soares

Paulo Cezar Soares (paulo@aqueimaroupa.com.br) é jornalista profissional e teólogo. Trabalhou na Tribuna da Imprensa, Jornal dos Sports, O Dia, Tribuna da Bahia, entre outros veículos de comunicação de massa, como por exemplo, o rádio, e diversas revistas. Admirador da reportagem policial é um estudioso das questões que envolvem a violência urbana. Já há alguns anos, trabalha como colaborador para duas revistas.