A manhã seguinte não tinha um roteiro previsto, pois tudo saiu dos eixos quando me deparei com a cidade diante de mim. A rota mais provável era adentrar as ruas e buscar tudo que Marrakesh tivesse a me oferecer. Logo as seis, pude ouvir a primeira prece ecoando da mesquita vizinha. O café da manhã era de pães marroquinos, uma excelente geleia de pêssego e o não menos saboroso suco de laranja. Mochila nas costas, passaporte, algunsdihans no bolso e segui para a rua.
Logo na esquina, um sussurro súbito chegou aos meus ouvidos. O homem que no dia anterior me ajudou a encontrar o albergue me oferecia haxixe, e reforçava dizendo “good price for you, good price”. Uma outra face do Marrocos passava a se revelar. Fiz questão de levar a conversa adiante, discretamente, e ver onde íamos chegar. Questionado sobre como traficar tão livremente dentro da Medina, o homem me explicava com seu espanhol confuso que era tudo uma questão de saber quem abordar e se movimentar bem nas ruas da Medina. Por via de segurança, segui caminho e despistei, prometendo que conversávamos mais tarde. Nunca mais o encontrei.
No principal cruzamento da Jemaa el-Fna, o trânsito já era intenso àquela hora da manhã. Marrakesh parecia ser um único canto do mundo onde o sinal vermelho não queria dizer absolutamente nada aos motociclistas desvairados e pedestres sempre apressados. Mulheres com bebês de colo amarrados por lençóis nas costas, homens de bicicleta, carroças para passeios turísticos, carregadores, e nem sinal de algum guarda de trânsito para coordenar o tráfego. Impressionava-me como apesar de toda atmosfera durante todo o tempo não vi nenhum acidente entre os insanos no volante.
Adentrei então outra zona da grande praça. Para além das najas e macacos, pude notar os diversos souks onde tudo se vende, e principalmente, muito se negocia os valores. Peças de artesanato berbere das mais diversas naturezas eram encontradas ali, desde lâmpadas e máscaras, até por estatuetas e narguilés. Negociei muito e acabei comprando algumas peças raras do artesanato local por um preço bastante convincente para mim – ainda assim, a sensação de que o vendedor levou uma grande vantagem sobre mim era inevitável ao ver seu sorriso satisfeito após fecharmos negócio.
Segui por ruas onde imperava o comércio dos temperos. Em cada nova loja, uma novidade gastronômica, desde grãos a óleos raros. Era possível notar também a presença de fotografias emolduradas do rei Mohammed VI em muitos dos souks, o mesmo rosto impresso nas notas dos dihans. O calor era intenso àquela hora e resolvi trocar as botas pelas havaianas, e continuar percurso de modo menos incômodo. Ao apanhar as sandálias da mochila, um grupo de cerca de oito garotos que jogavam futebol me cercaram, deixando até mesmo a bola para trás. Insistiam para calçá-las por uns minutos sequer, boquiabertos, exclamando sua curiosidade em francês. Outros, mais velhos, já diziam quem eram seus ídolos brasileiros no futebol europeu; mas não deixavam de ponderar que o futebol argentino também era muito bom.
Enquanto isso, um jovem avistou o alvoroço e se aproximou de mim, me abordando na tentativa de trocá-las. Era impossível compreender bem o que ele dizia com tamanha euforia em negociar comigo, compreendia apenas o que ele comentava sobre o verde e amarelo das havaianas, e insistia em saber o que eu queria da sua loja. Neguei a oferta insistente e saí sem muitas palavras, a fim de evitá-lo. Mas não adiantou muito. O jovem me seguiu e acabamos trocando o par de havaianas por cinco luminárias. Um bom negócio afinal.
Mergulhando em mil e uma noites
Decidi então conhecer um local sugerido pela beleza e riqueza histórica e arquitetônica. Os gatos estão por toda parte da sua entrada, sempre cheios da preguiça típica dos nobres. O Palácio El-Bahia sem duvida é um oráculo do minimalismo para qualquer arquiteto moderno. Sua construção teve fim no século XVI, um edifício composto por um emaranhado de salões nobres, jardins de plantas tropicais e amplos pátios, onde se destaca o trabalho de decoração islâmico de arabescos e azulejaria. Suas cores e combinações em padrões seguiam para dentro de um universo mágico, das milimétricas sobreposições de trabalhos artesanais ao fluxo de salas que me envolviam, como se estivesse participando ativamente de um conto das Mil e Uma Noites sendo construído bem diante dos meus olhos pela minha imaginação em pleno fervor.
A comunicação em Marrakesh é o ápice do desencontro. Não havia como negar que a todo tempo eu estava imerso em um turbilhão de informações. Todo o espaço se comunicava intensamente comigo. As vozes dos transeuntes envolvidas de mistério na sua entonação, tantas placas escritas em um idioma perplexamente distinto do que para mim era legível, as buzinas roucas das Moscas à desrespeitar as calçadas e cortar os semáforos, sempre apressadas. Até mesmo uma simples exclamação me instigava pelo seu ruído. Um palco onde era inevitável o estranhamento do mundo novo. Contudo, esse ápice da mistura sinestésica da cidade não representava nenhum tipo de barreira para me comunicar. Sentia-me deixando a cidade sendo um tanto mais castelhano, árabe, americano, francês. Ao fim do primeiro dia já não falava mais o puro português. Perguntava coisas simples como, “onde fica o banheiro?”, de um jeito mais ou menos “donde est bathroom?” e por mais incrível que pareça, era perfeitamente compreendido.
Enquanto pardais alvoroçados cortavam o céu no fim da tarde de Marrakesh, eu caminhava próximo à mesquita central de Koutoubia. Embora não pudesse entrar ou fotografar o templo, assisti toda a oração, bem quieto, junto a uma das dezenas de portas da imensa mesquita. Podia notar a separação de homens à frente e mulheres ao fundo do salão, em uma dinâmica de atos de cerimônia sincronizados a cada verso lido do alcorão. Segundo o islamismo, os muçulmanos devem vestir-se de forma modesta, inclusive quando frequentam a mesquita. Os homens devem estar trajando roupas largas que não revelem as formas do corpo. As mulheres também devem seguir o mesmo padrão, com blusas e calças que cubram os pulsos e tornozelos.
Todos os muçulmanos adultos devem realizar o salá – oração pública – cinco vezes por dia, prostrando-se em direção à Meca. Não é necessário rezar nas mesquitas, mas de acordo com um hadith – corpo de leis, lendas e histórias sobre a vida de Maomé – realizar a oração junto com outros muçulmanos é mais piedoso do que rezar sozinho; como fazia Issam, cinco vezes ao dia em um pequeno quarto dentro do albergue, durante o horário de trabalho.
A entonação das vozes ainda ressoava por toda praça através dos autofalantes, e a vida seguia corrida no coração de Marrakesh. Caminhando mais um pouco, me surpreendi ao perceber as fileiras de laranjeiras floridas plantadas em plena avenida principal. Enquanto me distraia, um garoto que passava na rua chutou uma laranja caída em minha direção. Reconheceria aquele ato em qualquer lugar do mundo, e sabia a melhor resposta. Chutei de volta e assim começamos nossa partida bem ali, no meio da Jemaa el-Fna, chamando atenção de ambulantes e quem mais passava, rindo de tamanha peraltice. Ao fim, um aperto de mão caloroso e a saudação de paz que selou minha partida. Salam Aleikum.
Continue lendo a terceira parte da reportagem especial na próxima quarta-feira através do À Queima Roupa e conheça o roteiro do deserto do Saara, a vida dos povos nômades que nele habitam e a peculiar viagem à bordo de dromedários.
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