Marrocos: trilhões de estrelas entre grãos de areia

Especial


Aos trinta graus o dia começa em Marrakesh. Despertei com o som das motocicletas, barulhentas como sempre. Naquele dia era necessário acordar mais cedo que o habitual para partir rumo ao deserto do Saara, há horas dali, e chegar antes do pôr do sol nas tendas dos berberes, onde passaríamos a noite.

Nas portas do Amour d’Alberge, o guia Latif aguardava para a partida. Eram sete da manhã quando últimos souks abriam suas portas e expulsavam de debaixo das marquises os mendigos que ali dormiam.

Seguimos caminhando por estreitas ruas da Medina onde segundo Latif, encontraríamos a van que nos levaria até o destino. Pequenas barracas montadas na rua ofereciam o café da manhã marroquino, com pães e o tradicional chá de menta, mas não havia tempo para a primeira refeição.

Ao encontrarmos a van, minha tentativa de cumprimentar o motorista foi frustrada, pois Muhammad pelo visto não falava nenhum outro idioma além do árabe. Junto aos outros mochileiros que também seguiam para o Saara, deixei as ruas conturbadas de Marrakesh e apanhei a estrada.

Logo estávamos na zona metropolitana de Marrakesh, constituída de pequenos aglomerados de moradias precárias, construídas com barro, madeira e palha, onde era unanime a presença da Mesquita – avistada em qualquer de qualquer ponto pela sua imensa torre e autofalantes – e dos anúncios de Coca-Cola pintados nos muros de terra batida ressacados pelo sol.

A cerca de 2.200 metros de altitude, a paisagem árida dava lugar ao verde dos bosques de altas copas dos carvalhos e montanhas cobertas de neve. A viagem completava cerca de duas horas, e as estradas sinuosas se tornavam cada vez mais íngremes. Aos poucos, era possível sentir os efeitos provocados pelo ar rarefeito e o clima se tornava cada vez mais seco.

Para aliviar a tensão da longa viagem fizemos uma primeira parada em um pequeno bar na beira da estrada. Enquanto tomava um café no balcão, podia ouvir Je L’aime a Mourir, da latina Shakira, tocando no microssystem do adolescente marroquino que usava e uma jaqueta vermelha com o nome do seu país bordado em verde, sobrepondo à estrela verde da bandeira, e calçando uma falsificação chinesa da Nike.

Seguimos estrada. Mais alguns quilômetros e estávamos na região de Souss-Massa-Drâa. Era hora da parada para o almoço. Decidi então experimentar o cuscuz marroquino, uma excelente opção, tanto pelo preço quanto pelo sabor marcante. Ao fim da refeição, debaixo de uma tenda, o sol começava a perder a timidez entre o céu nublado, convidando para um passeio pela vila onde realizamos uma parada por cerca de duas horas – uma das únicas coisas que Muhammad soube nos avisar em inglês durante todo o trajeto.

Logo na saída da tenda fomos abordados por falantes vendedores de pashiminas com seus turbantes coloridos, que com todo seu jogo de negociação, seduzia, principalmente as mulheres, pela beleza das estampas e cores. Embora fosse claro pra mim que muitos daqueles tecidos nada mais eram que lenços de fabricação chinesa, resolvi comprar um e garantir minha proteção contra o sol forte – e com a dose certa de insistência, consegui pagar um preço abaixo do que normalmente era vendido pelos berberes.

Na beira da estrada para Quarzazate, as colunas do tempo se erguiam com Ait-Ben-Haddou, uma das povoações mais bem conservadas em toda a região. Sua preservação se deu em parte pelo interesse que a indústria cinematográfica lhe dedicou a partir do início dos anos sessenta, quando David Lean realizou ali algumas cenas de Lawrence da Arábia, e a Unesco deu ao povoado o título de Patrimônio Mundial, em 1987.

Outras produções mais recentes, como A Múmia, de Stephen Sommers; Gladiador, de Ridley Scott; Alexandre, de Oliver Stone; e Príncipe da Pérsia, de Mike Newell, também tiveram diversas cenas rodadas em Ait-Ben-Haddou – e esse sem dúvida era o principal comentário dos guias turísticos durante toda a visita.

Mas além das histórias modernas entorno do Cinema, há muito mais a ser desvendados em suas paredes de tijolos de terra. O sistema defensivo de muralhas, que fazem corpo com as casas servia contra os ataques dos nômades. Os ksar serviam assim tanto a possibilidade de abrigarem os habitantes, como também os animais, as colheitas e as caravanas que vinham do Tafilalet, zona do Saara, para o centro comercial em Marrakesh.

Tudo começou como a casa de uma única família que com o crescimento da população, ganhou novos espaços. O túmulo do seu fundador, Ben-Haddou, se mantém preservado na base da colina, por trás da povoação.

Morada do passado, suas ruas impressionavam pelos grupos de pequenas fortalezas, que chegavam a dez metros de altura cada construção. A cidade fortificada, chamada pelos berberes de ksar, foi fundada em 757, como um dos pontos da antiga rota de caravanas entre o Saara e Marrakesh.

Seguindo a história de todas as povoações da África, todo centro de conflitos é também um centro de riquezas. A localização das tribos Glaoui nesta área foi um dos fatores da sua fortuna construída ao longo dos anos.

Este ponto sempre foi uma encruzilhada estratégica, tendo em conta as rotas das caravanas que ligavam os mercados no norte de África com Tombuctu, nas margens do Níger, “três mil quilômetros a sul e a cinquenta e dois dias de viagem”, como anunciam humorísticos cartazes em Agdz e Zagora, no Vale do Draa.

Atualmente a maioria dos habitantes da cidade vive na aldeia mais moderna, onde há água e energia elétrica, no outro lado do Rio Ounila – onde almoçamos – no entanto, dez famílias ainda vivem no ksar, como me contava o berbere Nadhir, enquanto tragava haxixe em um cachimbo dourado, recostado em uma muralha.

Luz, câmera e muita ação

Mas se filmes de aventura eram a atração local, minha experiência não poderia ser diferente. Imerso na atmosfera milenar, tudo era fascinante aos sentidos aguçados. Ainda nas margens do Rio Ounila, prestes a atravessar em direção as construções imponentes do ksar, me deparei com a figura de um berbere que acomodava dois dromedários deitados após beberem água. O homem de cabelos compridos sobre a túnica e trajes nômades, me instigou fotografar aquela cena, e mais uma vez a experiência com a fotografia de pessoas não foi bem vista.

Ao virar-se, percebendo minha presença, o marroquino apresentou um gesto peculiar da nossa cultura, e um semblante nada satisfeito. Enquanto o grupo seguia à frente, eu aproveitava o momento para mudar uma grande angular. Em um intervalo de alguns segundos, o grupo que seguia a passos ágeis havia avançado, e eu, agora sozinho, estava a poucos metros de um homem furioso atirando pedras contra mim.

Enquanto eu fugia apressado saltando pedras sobre o rio, podia ouvir o homem berrando furioso o que certamente eram insultos pelo meu ato. Naquele momento minha intuição me dizia que devia deixar de lado as experiências de risco, ou não chegaria ileso ao fim da viagem.

Do outro lado do rio, pude reencontrar o grupo, agora disperso entre os souks de artesanato, e os que quase paralisados apenas observavam ao seu redor. Ait-Ben-Haddou era o tipo de lugar onde nenhum mapa poderia ser claro o suficiente a ponto de guiar um estrangeiro sem desencontros.

A cada esquina era como se imensas torres de barro vermelho se erguessem, criando um universo místico a cada passo. Ali apenas os filhos da terra conheciam os caminhos de entrada e saída entre suas vielas empoeiradas, e até mesmo os pequenos pássaros não escapavam do tom avermelhado devido a poeira no ksar.

O tipo de arquitetura de terra do vilarejo é semelhante ao de outros ksar. Os edifícios são construídos com tijolos de terra secos ao sol, que podem ter quatro ou cinco andares, não mais que seis ou sete, e as torres são sempre decoradas com motivos geométricos, particularmente as dos tighremts, as casas mais nobres, por assim dizer. Um comerciante também me contou que pelo menos uma vez por ano, logo a seguir à estação das chuvas, é necessário inspecionar minuciosamente as fissuras e os canais de drenagem da água.

Dali por diante, tudo era fascinante. Entre as grandes escadarias, ainda mais cansativas devido ao ar rarefeito, muitos vendedores de artesanato estendiam suas pequenas tendas, apresentando os mais diversos itens aos visitantes. Enquanto caminhava, era possível ouvir o som de um alaúde arcaico vindo das mãos de um senhor que tocava o instrumento, pedindo em troca alguns dihans. Quando a viagem parecia perfeita, notei que era hora de voltar para a van se seguir.
Acompanhe a última parte da reportagem especial sobre o Marrocos na próxima quarta-feira, no À Queima Roupa.

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Sobre Toni Caldas

Toni Caldas: aspirante a fotógrafo, guitarrista frustrado, filho único, saudosista desavergonhado, mochileiro, pretenso escritor e estudante de Jornalismo nas horas vagas.