Segurança pública: crise institucional ou de modelo?

Com a palavra...


 

Há várias óticas para se analisar o contexto da segurança pública em nosso país, mas, de um ponto de vista histórico, não há como negar que este é o resultado da correlação de forças políticas existentes na própria sociedade brasileira.

Este é apenas um dos aspectos da questão, mas, mesmo sem a segurança pública ser apenas uma questão de polícia, a esta cabe uma participação relevante na preservação e na manutenção do que poderíamos chamar de ordem pública, principalmente, em um contexto social autoritário e hierárquico que a transforma em uma linha de defesa dos “bons” contra os “maus”.

Mas como o trabalho da polícia não pode se basear apenas no controle da criminalidade, através do uso da coerção, o crescimento das taxas de delinquência nas cidades brasileiras tem colocado cada vez mais em questão a eficiência das organizações policiais em sua função de controle social.

A atual crise na segurança pública no Brasil e, particularmente na Bahia, não é novidade para nenhum governo, mas somente uma fase aguda de um mal que já se tornou crônico ao ponto de se poder afirmar que o modelo de polícia concebido para atuar no controle social da população mais pobre, excluída ou marginalizada não atende mais às necessidades da sociedade, relativamente à sua segurança.

No modelo atual temos duas meias polícias – as civis e as militares – para realizar o ciclo completo de polícia que, na visão do cientista político Marcos Rolim, constitui um sistema ou modelo de polícia frankstein que gera conflitos com as polícias civis fazendo nascer uma rivalidade crônica e desgastante entre essas corporações nos estados.

Nessa lógica, com a máxima vênia ao posicionamento do estudioso investigador da Polícia Civil Crispiniano Daltro, recentemente defendido aqui mesmo neste espaço democrático, a crise da segurança pública na Bahia e no Brasil não é institucional, mas de modelo e não se pode debitá-la, unicamente, a esta ou aquela corporação policial, mas aos governos que não sabem ou não querem saber administrar o sistema de polícia e a incompetência dos governos nesse sentido se prolonga ao longo dos anos.

Essa dicotomia entre as polícias produz concorrência entre elas, além da mútua usurpação de funções, simplesmente preserva um arranjo político pouco eficaz, baseado na máxima do dividir para conquistar, atende aos interesses do Estado, pois,  mesmo com o modelo de polícia inteiramente esgotado, não se nota interesse do governo federal, muito menos dos governadores, em alterar o atual sistema policial, pois ninguém mais fala da proposta do Sistema Único de Segurança Pública (SUSP) e o Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania (Pronasci) está caindo no esquecimento, eclipsado que foi pela panacéia das Unidades de Polícia Pacificadora (UPP), em que o BOPE é o paradigma máximo.

Salvo algumas experiências adotadas com relativo sucesso em algumas unidades da federação, numa articulação multi-institucional entre estado e sociedade, o que se vê é a continuidade de programas e estratégias de segurança pública, cosméticos e superficiais, que, não visando mudanças estruturais, não impedem o retorno do problema que se deseja evitar.

Sem iniciativa própria, suficiente para encarar o problema da violência e da criminalidade crescentes que assolam esta “Terra de Todos Nós”, o governo da Bahia resolveu copiar de Pernambuco um modelo de uma política pública de segurança, transversal e integrada, construída de forma pactuada com a sociedade, mas, infelizmente, o “eficiente” modelo de gestão implantado pelos nossos vizinhos pernambucanos, entre nós, não está surtindo os efeitos esperados, talvez, como nos ensina Antonio Rizério, porque: “Pernambuco conta hoje com um governo que tem competência técnica e descortino social para encarar o assunto”.

Nesse sentido, para concluir, faço minhas as palavras do poeta e antropólogo baiano Antonio Rizério: “Mas o problema de Wagner não é meramente de segurança pública. É de reinventar a Bahia, como espaço de vanguarda”.

A propósito disso, Nicolau Maquiavel escreveu na sua obra O Príncipe: “Em um governante, dentre outras qualidades, é louvável que honre a sua palavra sempre e tenha integridade, em vez de usar artifícios”.

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Sobre Antonio Jorge Ferreira Melo

Antonio Jorge Ferreira Melo é coronel da reserva da PM-BA, professor e pesquisador do Progesp (Programa de Estudos, Pesquisas e Formação em Políticas e Gestão de Segurança Pública) da Ufba, da Academia de Polícia Militar e da Estácio-FIB.