O medo do juízo

Com a palavra...


Desde o final do século passado que o nosso país encontra-se, segundo estudos do Instituto Sangari, entre os dez países mais violentos do mundo, em relação às taxas de homicídio por 100 mil habitantes.

Embora Alba Zaluar, ainda em 1997, já esclarecesse que a violência no Brasil está em toda parte, pois não tem nem atores sociais permanentes reconhecíveis nem “causas” facilmente delimitáveis e inteligíveis. Inegavelmente, dentre os números da violência fatal, uma parcela significativa tem sido atribuída a ações das polícias estaduais, em especial à militar, nos chamados “autos de resistência” ou “resistências seguidas de morte”.

Entre causas e concausas, Loic Wacquant, na análise que fez do contexto brasileiro, em 2001, já nos alertava que a insegurança criminal no nosso país é agravada pelo uso desproporcional e ilegal da força na ação das corporações policiais, como fruto de uma tradição nacional multissecular de controle dos miseráveis pela força e que tem a sua origem na escravidão e nos conflitos agrários, fortalecida por duas décadas de ditadura militar, quando a luta contra a “subversão interna” se disfarçou em repressão aos delinquentes.

Nessa lógica, na semana passada, mais uma vez, o Brasil mereceu manchetes negativas na mídia internacional, em função do relatório elaborado pelo Conselho de Direitos Humanos do Alto Comissariado de Direitos Humanos da ONU, que teria recomendado a “supressão” ou o “fim” das Polícias Militares.

Diante das repercussões que o fato alcançou, na última segunda-feira, 04/06, o Conselho Nacional de Comandantes-Gerais das Polícias Militares e Corpos de Bombeiros Militares, apressou-se a esclarecer que as notícias eram equivocadas, pois, oriundas de uma tradução errônea das recomendações constantes do documento elaborado pelo Grupo de Trabalho sobre o Exame Periódico Universal do Brasil, cujo objetivo é diminuir as execuções extrajudiciais, ou seja, as mortes provocadas por agentes do Estado sem que o “réu” tenha o direito de se defender.

Polêmicas à parte, o certo é que não é a primeira e, com certeza, pelo menos a médio e curto prazo, não será a última vez que a polícia brasileira, particularmente a Polícia Militar, sem que isso signifique que a Polícia Civil seja mais eficiente, legalista ou democrática, será alertada pelos organismos internacionais em função das suas violações aos direitos humanos, pois, como bem esclarecido por Marcos Rolin: “os abusos não tem a ver com o tipo da polícia e sim com a forma com que as instituições se organizam e fazem o trabalho”.

Embora entenda a posição do Conselho Nacional de Comandantes-Gerais das Polícias Militares e Corpos de Bombeiros Militares ante o juízo internacional, posto que não se pode culpabilizar uma única instituição pelas mazelas da segurança pública e da justiça criminal no nosso país, é forçoso reconhecer  que a letalidade policial é grande e, diante dos flagrantes e denúncias de casos de abuso cada vez mais expostos ao mundo, não se pode querer tapar o sol com a peneira.

Temos que acabar com os abusos combatendo a fragilidade do sistema de segurança e de justiça como um todo e não com discursos, estratégias midiáticas e reformas cosméticas, porque, na medida que a justiça se mostra incompetente ou impotente para julgar e decidir os conflitos sociais, vão surgindo soluções extrajudiciais paralelas, com os governos utilizando-se do “direito da força” para compensar o enfraquecimento da “força do direito”.

Mesmo que uns não queiram, já passou da hora de termos uma reforma substantiva neste país, se quisermos, realmente, mudar esta realidade, com a redução da letalidade da Polícia, há que se investir seriamente nas condições de trabalho e na formação profissional, no controle externo da atividade policial, na eficiência das investigações, no combate à corrupção e na garantia da preservação dos direitos do cidadão.

Os direitos humanos são condições indispensáveis para a implementação da justiça e da segurança pública em uma sociedade democrática, pondo fim a essa união de liberdade arbitrária e servidão político governamental que tornou natural, em nosso país, a violência policial.

Nessa lógica, entendo que o ensinamento romano que diz: “que cedam as armas à toga” encerra uma fórmula perfeita para se enfrentar a tênue e sutil fronteira entre o arbítrio e a arbitrariedade nas atividades policiais, pois nos permite concluir que, ao lado dos investimentos governamentais, a submissão da ação policial ao império da lei é condição essencial para a efetivação do direito à justiça e à segurança.

Embora seja natural a defesa do “status quo“, não podemos nos esquecer das palavras do historiador holandês Johan Huizinga quando, em 1936, na sua obra “Na sombra de amanhã”, num capítulo intitulado “Apprehension of Doom” (Medo do Juízo), escreveu: “Vivemos num mundo demente. E sabemos disso [...] Em todo lugar há dúvidas quanto à solidez de nossa estrutura social, temores vagos quanto ao futuro iminente, um sentimento de que nossa civilização está a caminho da ruína [...] quase todas as coisas que outrora pareciam sagradas e imutáveis tornaram-se agora incertas, verdade e humanidade, justiça e razão.”

Em sendo assim, aproveitemos a oportunidade e, sem medo do juízo final, sem desespero, não busquemos um bode expiatório, façamos todos uma mea culpa já que a culpa, na verdade, é generalizada.

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Sobre Antonio Jorge Ferreira Melo

Antonio Jorge Ferreira Melo é coronel da reserva da PM-BA, professor e pesquisador do Progesp (Programa de Estudos, Pesquisas e Formação em Políticas e Gestão de Segurança Pública) da Ufba, da Academia de Polícia Militar e da Estácio-FIB.