Eu e Maria Clara, Maria Clara e eu

Infinito Cotidiano


Ainda não conheço Maria Clara, mas já vou adiantando: ela é uma menina linda. Que criança não é linda ao nascer? Há quem diga que recém-nascidos – todos, sem exceção! – têm cara de joelho. Nunca entendi essa comparação, mas, quem disse que joelhos, necessariamente, são feios ou esquisitos?… Bom, voltando à lindíssima Maria Clara, posso assegurar que, nascendo saudável e cercada de amor, só pode ser uma pequena obra-prima. Bem pequenininha, aliás, levando em conta sua herança genética, filha de um casal em que a estatura não é lá muito avantajada.

Lembro de quando recebi a notícia de que Maria Clara estava a caminho. A bem da verdade, era ainda um projeto, sem nome nem gênero definido. Era o bebê. Como não havia sido planejada, sua vinda causou surpresa generalizada. “Não acredito” era a resposta mais ouvida à frase “Ênio vai ser pai”. A variável mais comum era “Mentira!” ou “Tá brincando?…”. Sabe como é: jovens de vinte e poucos anos não costumam ter como prioridade o encargo de ser pai. E enquanto a incredulidade fazia um rebuliço cá fora, Maria Clara (ainda “o bebê”) gozava da calma segurança do seu lar-doce-lar. Ali, no bem-bom do ventre de Jailza, ia se desenvolvendo sem se importar com dúvidas e incertezas daqui de fora.

E foi ali, no aconchego morno da barriga da mãe que, entre piruetas e chutes certeiros, “o bebê” virou Maria Clara. Se, lá dentro, ela crescia em tamanho e formas, do lado de fora também Ênio e Jailza cresciam em talentos e habilidades, transformando-se em pais. É, porque, ninguém duvide: a capacidade de ser pai & mãe não surge do dia pra noite, vai se formando. Pode-se mesmo dizer que é gestada junto com a criança. Não acredito no mito de que toda mulher já nasce mãe, muito menos na falácia de que dentro de todo menino existe um pai. Talvez por isso, a Natureza conceda ao ser humano um necessário período de adaptação à nova condição, aquele que fica entre a concepção e o nascimento.

Vale lembrar que, para a mulher, o aprendizado é mais fácil. Sentimos dentro de nós o pulsar da nova vida e, gostando ou não, torna-se impossível ignorar a presença daquele ser em desenvolvimento. Já o homem, por mais “grávido” que se apresente, precisa se esforçar muito para lidar com sensações abstratas e que transitam entre o real e o imaginário. Provavelmente, é ao ouvir o primeiro choro e ver a criança à luz que se dá a transformação de homem em pai, como bem retrata o poeta Antonio Viana em seu poema “A Filha”, publicado no site Luso Poemas. Acredito que, guardadas as devidas especificidades, Ênio e Jailza percorreram esse caminho no difícil processo de se habilitarem como pai e mãe. E é em transformações assim que reside o milagre da vida.

Quando comecei a escrever este texto, ainda não sabia como Maria Clara era. Foi somente há pouco que vi suas primeiras imagens, postadas numa rede social pelo orgulhoso e emocionado papai. Não retiro uma palavra do que disse no início: Maria Clara é linda! E, como acontece sempre que nasce uma criança,  sei que hoje o mundo amanheceu um pouco melhor.

Confira abaixo a emoção do descobrir-se pai, descrita pelo poeta luso Antonio Viana:

 

 

A FILHA (Antonio Viana) 

Vi-te, eras nova, eras a prova,
A prova de corpo de um amar.
Vi-te, tinhas nascido, e eu a rir
Renascido no meu gostar,
Um novo olhar, um novo sentir,
Um ressurgir para a vida abraçar.

Cheirei-te com os meus sentidos,
Todos eles em lágrimas,
Lágrimas de uma plenitude alegre,
Choro de festejos do teu nascer,
De quase te querer ter
Como homem algum poderá obter.

Peguei-te, desajeitado, como quem pega
O mais lindo diamante, por saber naquele instante,
Poder o meu pegar ser de forma cega,
Não te saber mostrar o quão eras importante,
O quanto tu eras mais uma futura regra
Para minha vida ainda ser mais pujante.

Abracei-te, e à tua mãe, ao te abraçar,
Mais uma vez a desejei e de todo a amei,
Num amar feito de frutos a despontar
E tu eras de todos o mais perfeito, sei,
Eras a prova do amor com novo desabrochar,
Eras o corpo de um amor que não esquecerei.

Entreguei, nos braços da tua mãe te depositei,
E ao entregar-te àquele seio, através de ti,
Com maiores razões, me rendi, me devotei
Com uma paixão que até lá, no momento vi,
Era feita de promessas, coisas que nem sei,
Não era feita do completar que contigo vivi:
Trouxeste a plenitude, a que sempre desejei.

És a minha filha, és o meu fruto,
És de mim o melhor produto,
És o sonho de qualquer Homem
Que em si quer pôr alguma ordem,
A ordem que o Universo nos dá.
És o compor da união, a que não é só já,
És da parte que nunca será má!

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Sobre Jaciara Santos

Jaciara Santos (jaciara@aqueimaroupa.com.br) é sergipana de Aracaju, mas atua como jornalista profissional em Salvador-BA, já há quase três décadas. Foi repórter, chefe de reportagem, pauteira, editora de Cidade, Política e Economia, colunista e subeditora de Segurança. Premiada duas vezes no extinto concurso de reportagens da Associação Bahiana de Imprensa, em 2003 conquistou também o prêmio Banco do Brasil na categoria reportagem por uma série de matérias sobre a ação dos grupos de extermínio na Bahia.