Pai nosso

Com a palavra...


A crise de paradigmas que caracteriza a pós-modernidade, colocando em xeque toda a estrutura valorativa social juntamente com as instituições tradicionais e, em meio a esta crise, a da autoridade paterna, induz a questionamentos a respeito do que é, nos dias atuais, a paternidade ou sobre o que ou quem é o nosso pai.

Em busca de uma resposta para essa questão, lembrei-me do que está na dimensão daquilo que Freud denomina como mal-estar, pois, na realidade, esse mal-estar não atinge apenas a alguns indivíduos, nem a muitos, mas a toda uma civilização.

Mas, se na época de Freud os valores eram bem estabelecidos, em nossa época não há mais valores ou rumos pré-estabelecidos a serem seguidos, pois, inclusive, a família como formadora da individualidade se fragmentou e o pai deixou de ser um parâmetro ou modelo a ser seguido.

Vivendo em um mundo sem limites, onde as referências se tornam confusas, pela falta de referenciais paternos, tendemos a nos tornar adultos sem limites e sem representações que se interponham entre o momento presente e o inexorável fim das nossas vidas: a morte.

Mas, como nos alerta Alexandre Amorim, o ideal de autoridade já não faz parte da construção dos valores que norteiam a vida na pós-modernidade. A palavra de ordem é autonomia e, em tempos de antiautoritarismos, estamos nos tornando reféns do autonomismo.

Dessa forma, o mal-estar do indivíduo na civilização já não surge mais de uma tensão física, sexual, que causava a ansiedade, é psíquica, gerada pela preocupação, pelo medo e pela insegurança causada por condições econômicas e sociais, pois, num mundo em que não há lugar para a função paterna, buscamos a lei nas armas e na violência.

Não é sem sentido que os traumas da violência, a síndrome do pânico, a compulsão de consumo e a depressão, doenças que não eram comuns na época de Freud, tenham se tornado os grandes problemas para os psicólogos e psiquiatras de hoje.

Não se trata aqui do tomar partido na clássica batalha sexista entre homens e mulheres pela manutenção do status quo, pois a paternidade é uma função e, como tal, desbiologizada. O pai é uma representação simbólica e o que interessa para a nossa existência como sujeitos não é propriamente “o pai”, mas “um pai”. Um pai, quer dizer, a autoridade, um outro que se interponha como autoridade.

Nessa lógica, fica aqui um convite à reflexão sobre esta ausência do pai ou a perda de suas referências que nos fazem acreditar que isso pode significar o fracasso do indivíduo, assim como o fracasso social, inviabilizando a interiorização da imagem e da metáfora paterna, levando a impossibilidade da interiorização coletiva da lei pelo enfraquecimento das instituições que sustentam e agem em “nome do pai”.

Concluo, com o pensamento da psicoterapeuta Sandra Maria Baccara Araújo para quem a manutenção da lei paterna como referência nos permite acessar ao reconhecimento da alteridade e ao querer sermos reconhecidos em nossa alteridade. Assim, ter a lei como referência em nível social é crer em uma possibilidade de ordem democrática lastreada na igualdade e no respeito entre os seres humanos, pois, não é à toa que a oração do Pai nosso (Mateus 6.9-15) celebra a relação de um pai totalmente presente na necessidade humana.

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Sobre Antonio Jorge Ferreira Melo

Antonio Jorge Ferreira Melo é coronel da reserva da PM-BA, professor e pesquisador do Progesp (Programa de Estudos, Pesquisas e Formação em Políticas e Gestão de Segurança Pública) da Ufba, da Academia de Polícia Militar e da Estácio-FIB.