Jovens (e/ou) torturadores (?)

Com a palavra...


No começo do mês (05/06) o Núcleo de Estudos de Violência da Universidade de São Paulo (NEV/USP) divulgou relatório de uma pesquisa feita com 4.025 pessoas em 11 capitais brasileiras, onde o mote eram perguntas relacionadas a violações de direitos humanos, e o quadro foi desanimador. Máximas do tipo: “bandido bom, é bandido morto” (40% dos entrevistados acham que estupradores deveriam receber pena de morte e quase 10% dos entrevistados acham que corruptos merecem a pena de morte) não só estão em voga, como também são enaltecidas e incentivadas.

A despeito dum passado não tão distante, onde prisões, torturas e mortes eram realidades cruéis que fazia nove entre cada dez brasileiros arrepiar-se e contorcer-se de pavor. Tais práticas, nunca foram tão toleradas (até desejadas) por tantos brasileiros. O que evidência o grau de torpeza a que estamos chegando.

E mesmo com todas as recomendações e sanções que o Brasil vem sofrendo das comissões de direitos humanos e organismos internacionais, e apesar das significativas mudanças, nossas polícias continuam praticando atos torpes contra a dignidade da pessoa humana e os direitos fundamentais de cidadãos e presos. Pior, contra seus próprios agentes, foi o que entendeu a Comissão Interamericana de Direitos Humanos – CIDH da Organização dos Estados Americanos (OEA), na morte do cadete Márcio Lapoente, em 1990, durante curso de formação de oficiais na Academia Militar das Agulhas Negras – AMAN. E é o que acontece nos quartéis Brasil afora, dentre eles os de policiais e bombeiros militares, que lidam diretamente com o público civil, deixando as ambiguidades em tônica para estes agentes públicos, que devem proceder de determinada forma com o cidadão, mas veem as mesmas circunstâncias lhes sendo negada. Pois a linha que separa determinados treinamentos e tratamentos militares dos maus-tratos e humilhações é tão tênue que se confunde com torturas, quando não o são de fato.

Voltando a pesquisa da USP, dados interessantes podem ser extraídos do estudo, como a aceitação por parte da população de provas obtidas através de tortura para juízos e tribunais. Ou a concordância com a repressão policial a movimentos sociais, notadamente o MST: 1,1% da população acha que polícias devem atirar e matar em ocupações do MST ou 5,4% acha que a polícia deve ‘atirar e matar’ em caso de uma rebelião em presídio. Outros 27,98% acham que a polícia deve atirar, mas não matar.

O mais curioso disso tudo é que “quanto mais jovem o entrevistado maior parece ser a tendência a apoiar o uso de práticas de tortura”. E, vale lembrar, os policiais, delegados, promotores e juízes saem dentre esses jovens: eles não vêm de Marte, como gosta de lembrar o juiz Gerivaldo Neiva. Em 1999, 71,2% eram contra o uso desses métodos por parte das forças de segurança. O número caiu para 52,5%, em 2010. Então, metade dos entrevistados assume tolerar a tortura como um legitimo método de obtenção de provas e afins, pois foi constatado também que é aceitável a prática como forma de vingança.

Talvez porque as novas gerações não tiveram contato com os árbitros de outrora, não tiveram de lutar pelo direito de locomover-se sem que fosse necessário identificar-se, ou mesmo pelo direito de falar e se expressar. Mas pode-se também depreender que esta pesquisa, além da forte influência exercida pelos meios de comunicação, é também um grito de alerta, um pedido de socorro da sociedade que, acuada, não vê saída e acaba induzida a apoiar cada vez mais propostas conservadoras e imediatistas que visam mais interesses individuais do que coletivos. A segurança de uma democracia é, antes de qualquer coisa, a seguridade do desenvolvimento socioeconômica coletivo, autossustentado fundado nas garantias dos direitos individuais e fundamentais de uma sociedade. Qualquer coisa que relativize esses fundamentos vai à contramão do ideal de sociedade justa e progressista.

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Sobre Ewerton Monteiro

Ewerton Monteiro é policial miilitar, graduando no bacharelado de Ciências Jurídicas da Faculdade Anísio Teixeira (FAT) e graduando em Licenciatura em História na Universidade do Estado da Bahia – Uneb.