Reféns do medo

Com a palavra...


 

“O medo é a moda desta triste temporada” diz o poeta Zeca Baleiro, na canção “Balada para Giorgio Armani”, em uma feliz definição desta nossa sociedade onde o medo se instalou.

Assim, em meio a muitos medos, como o do desemprego e da violência social, seguimos reprimidos, alienados e egoístas, sem a capacidade mínima de perceber a necessidade do coletivo, do ter o outro presente como alternativa para mudar esse cenário que nos faz tão mal.

Embora este não seja um problema local, entre nós, brasileiros, de um modo especial, o medo tomou conta das nossas cabeças e, em meio a uma verdadeira epidemia que não poupa nada nem ninguém, construímos o nosso modus vivendi nesta pós-modernidade lastreados no nosso jeitinho, no patrimonialismo,  no clientelismo e na corrupção.

Nessa lógica, vivemos com medo de tudo, transformados em reféns de um assistencialismo, travestido de políticas sociais, e de uma repressão sutil e quase subliminar que nos limita, paralisa e enquadra de acordo com a nossa condição econômica, cultural e social.

O medo nos faz reféns. Reféns de que? De quem? Dos políticos, dos governantes, do mercado ou de um Estado, ao mesmo tempo algoz e protetor? Sinceramente, penso que somos reféns de nós mesmos e, acima de tudo, da nossa inação, da nossa apatia, da nossa falta de reação ante àqueles que nos governam, na base do aguardem e confiem, não raro, dando o alerta do lobo para se apresentarem como pastores, encarnando a salvação do rebanho.

E assim, criando o medo para melhor confortar depois, apresentam-se como “defensores dos fracos e oprimidos”, ou posam de Robin Hood, protegidos pelo escudo blindado do “rouba, mas faz”, conquistando a  nossa obediência, a nossa submissão.

Não se trata de ignorar que, num país tão desigual, não existam pessoas e lugares que exijam intervenções políticas de caráter assistencial ante o estado de miséria da população. Todavia, não devemos nos esquecer que tornar definitivas tais práticas, sem uma genuína preocupação com a geração de emprego e renda, só aumenta  a propensão do povo para agradecer o peixe que recebe, sem ter aprendido  a pescar, enchendo as “redes” de votos a cada eleição.

Se o hábito faz o monge, habituados ficamos ao medo de perder o peixe sem exigirmos que nos ensinem a pescar e com pena de nós mesmos por vermos o nosso medo como um daqueles sentimentos presos ao vício, ou pelo menos à fraqueza de caráter. Afinal, ser medroso, nunca foi uma virtude. Somos escravos dos nossos temores, e perdemos a liberdade quando agimos por medo, não é assim?  Mas será que realmente temos medo ou fomos educados para não ter coragem?

Nessa lógica, em lugar de uma conclusão, deixo aqui essa interrogação, pois, se fossemos como Riobaldo, o personagem-narrador do “Grande Sertão: Veredas” de João Guimarães Rosa, poderíamos dizer: “Medo não, perdi a vontade de ter coragem”.

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Sobre Antonio Jorge Ferreira Melo

Antonio Jorge Ferreira Melo é coronel da reserva da PM-BA, professor e pesquisador do Progesp (Programa de Estudos, Pesquisas e Formação em Políticas e Gestão de Segurança Pública) da Ufba, da Academia de Polícia Militar e da Estácio-FIB.