Meus pais, minhas mães…

Com a palavra...


À semelhança com o que acontece com o Dia das Mães, o Dia dos Pais nos interpela em nosso papel de genitores e, nesse sentido, ao longo dos anos, porém, a família vem mudando, ou melhor, as pessoas que dela fazem parte vêm desempenhando papéis diferentes daqueles que nossos pais desempenhavam quando nos criaram.

Particularmente, neste último domingo, com a família reunida, ao olhar para meus filhos e minhas netas, senti uma saudade imensa de meus pais, particularmente de meu pai, pois naquela mesa estava faltando ele e a saudade dele doeu muito em mim.

Ao lembrar, mais uma vez, do velho marinheiro, lembrei-me, também, da sua forma austera e rígida de cuidar que lhe era peculiar, como pai/patriarca, como chefe de família, pré-estabelecendo normas e preceitos e exigindo obediência incondicional. Não delegava as coisas, não, era ele que resolvia tudo, dando sempre a decisão final. E, contrastando com minha mãe, sempre nos fazendo concessões, protegendo, e acolhendo, o que ele determinava tinha que se fazer. Era realmente autoritário, no seu jeito de amar e cuidar para que nenhum de seus filhos viesse a sofrer as mesmas dores que ele sofreu, pois, de modo nenhum, queria que aprendêssemos por nós mesmos, como se deu com ele e os irmãos, devido à morte prematura do seu pai.

Foram só alguns segundos, e voltei no tempo! Foi muito rápido… Senti a presença invisível dele. Um turbilhão de emoções passou dentro de mim. Logo voltei à realidade e lembrei que meus pais já não estão mais aqui, neste plano, e que a família contemporânea mudou. As dinâmicas familiares continuam as mesmas, mas os membros que as compõem são diferentes.

Inegavelmente, o significado da paternidade relaciona-se à identidade de gênero e às experiências dos homens com seus próprios pais e parentes. Contudo, com relação a árdua tarefa daqueles que se propõem a ser pai, cito Artur da Távola e sua “Oração do Pai Contemporâneo”, para quem não existe mais uma definição simples de paternidade de sucesso, que possa reivindicar aceitação universal.

O tempo não para e as mudanças, os desafios e as contradições do ser pai passam a ser questões importantes nesta nossa pós-modernidade, para a reestruturação da sociedade em face dos novos paradigmas parentais que, inequivocamente, alteraram os modelos do casamento e da família.

Não é sem sentido que Edgard Morin nos alerta que: “nunca o casal foi tão frágil e, contudo, nunca a necessidade do casamento foi tão forte; é que, diante de um mundo anônimo, de uma sociedade atomizada, em que o cálculo e o interesse predominam, o casamento significa intimidade, solidariedade”. Para ele, a família está em crise, o casal está em crise, mas, ao mesmo tempo, o casal e a família são respostas a essa crise.

É, Lulu Santos é que tem razão quando afirma que “nada do que foi será do jeito que já foi um dia” e, nessa lógica, em tempo de relações familiares que não obedecem às convenções tradicionais, marido/esposa/filhos, cada vez mais, o ser pai tem que se traduzir na complexidade dessas relações afetivas, sendo irrelevante se é uma relação entre um homem e uma mulher.

Ninguém nasce sabendo ser pai e todo o aprendizado que temos sobre o como ser pai, com certeza, virá da nossa experiência como filho. Assim, quando, hoje, vejo a mim e meus cinco irmãos com nossas famílias, eu agradeço a meu pai os ensinamentos e as chances que ele nos deu para que aprendêssemos os caminhos da paternidade e, sinceramente, o eximo de qualquer responsabilidade pelos erros que, por ventura, tenhamos cometido nesse caminhar.

Mesmo não sendo lá muito fácil conciliar o papel de pai às novas demandas, cumpre a homens e mulheres o constante desafiar-se para dar o melhor de si e plantar nos filhos o que só poderá ser reconhecido no futuro, pois, como nos ensina LeonTolstoi no início arrebatador do seu romance “Anna Karenina”: “Todas as famílias felizes se parecem entre si; as infelizes são infelizes cada uma à sua maneira”.

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Sobre Antonio Jorge Ferreira Melo

Antonio Jorge Ferreira Melo é coronel da reserva da PM-BA, professor e pesquisador do Progesp (Programa de Estudos, Pesquisas e Formação em Políticas e Gestão de Segurança Pública) da Ufba, da Academia de Polícia Militar e da Estácio-FIB.