Caso New Hit: das verdades e das versões

É de lei!


 

A julgar pelo desenrolar dos acontecimentos, jamais  se saberá o que aconteceu realmente no interior do ônibus da banda New Hit, naquele início de madrugada do domingo, 26 de agosto, ao final do desfile do bloco independente Se Jogue, uma das atrações da Micareta 2012 do município de Ruy Barbosa. É possível que a verdade sem retoques jamais venha a público, uma vez que a versão, às vezes, acaba ganhando mais repercussão que o fato. Mas vale um olhar mais desapaixonado sobre as várias verdades até agora postas na mesa.

Vamos lá.

Duas jovens de 16 anos, fiéis seguidoras de um grupo musical de gosto duvidoso, levam a sério o mister de ser fã, o que significa demonstrar a qualquer preço a devoção por seus ídolos. No relato dessas garotas, foi a idolatria cega o que as teria feito entrar no ônibus-camarim da banda, após verem frustradas as tentativas de acesso ao trio elétrico. E que mal há em entrar no camarim de um artista? Quantos milhares de fãs (de todos os sexos) fazem isso no mundo inteiro? Lembro de já ter ouvido minha mãe – hoje aos 80 anos – dizer que uma de suas frustrações é nunca ter conseguido ver de perto o grande intérprete Nélson Gonçalves (1919-1998) e que, na mocidade, se a oportunidade houvesse aparecido, ela bem que teria tascado um beijo nele.

Ora, um camarim é a extensão do lugar de trabalho do artista. É um lugar em que o público e o privado se confundem. Deveria ser um espaço de recolhimento, mas é onde muitos recebem os (as) fãs. Em princípio, nada  sugere tratar-se de potencial zona de risco. E quanto aos meninos da New Hit, com suas roupas coloridas e quadris em fúria? Bem, pra falar a verdade, vendo aquelas figuras rebolando freneticamente num palco, nem dá pra perceber essa masculinidade toda que excita a meninada e faz uma recatada evangélica esquecer os bons modos, transformando-se na mais assanhada das periguetes.

E teria sido o aspecto inofensivo dos rapazes o mote para as garotas adentrarem o covil dos lobos. Isso, na versão delas. Entrar no ônibus era o passaporte para a felicidade suprema. Obter uma foto, um autógrafo, algo que pudesse ser exibido como um troféu. Qual o problema de rolar um beijinho, um amasso?… Não se sabe o que passou pela cabeça das garotas ao subir os degraus do ônibus, mas, certamente, violência não estava no script. Ainda de acordo com o que elas relatam, o que deveria ter apenas sabor de vitória, virou pesadelo. Atiçados pelo cheiro das fêmeas, os machos se transformam em predadores. Anjos em demônios, como uma delas diz em entrevista à reportagem do programa Na Mira, da TV Aratu. Dois a dois os rapazes se revezam no abuso sexual a uma das vítimas. A outra, ainda virgem, é estuprada pelo vocalista. Essa é a versão contada num misto de raiva e decepção pelas jovens.

No dizer das meninas, houve como que uma metamorfose. Algo como a transformação do sensível dr. Jekill no animalesco Mr. Hyde, personagens saídos da imaginação do escritor Robertson Stevenson e que representam a eterna luta entre o bem e o mal que residem em todo ser humano.

E o que dizem os rapazes? Como é praxe em situações análogas, negam a violência sexual. Garantem que as meninas entraram no ônibus espontanemente, não foram impedidas de deixar o local e consentiram em fazer sexo. No mais, há depoimentos de amigos, familiares e fãs que atestam a boa índole dos jovens como forma de descaracterizar uma possível propensão ao crime. Mas há um furo na história dos meninos. São poucos os relatos verídicos em que uma mulher “consente” em participar de sexo grupal. Com nove homens (ou dez, como afirma a vítima),  então.. Ainda na linha da dúvida razoável sobre a história contada pelos suspeitos, há – segundo a polícia – indícios de que houve violência, sim. No ônibus, caracterizado como cena de crime,  foram encontradas peças de vestuário manchadas de sangue. O material foi enviado para análise pericial, cujo resultado ainda não se conhece.

Divulgado no início desta semana, o laudo dos exames a que as meninas foram submetidas mais confunde do que esclarece. Por ser uma peça isolada, não pode ser vista como documento conclusivo e capaz de determinar culpa ou inocência dos envolvidos. Por exemplo: no caso da menina que era virgem, o documento confirma o rompimento do hímem, mas acrescenta que “não há elementos suficientes para afirmar ou negar se houve conjunção carnal”. Com relação à outra, a que diz ter sido violentada por dez homens, o perito responsável pelo exame nega ter encontrado “sinal de violência da qual tivesse resultado lesão corporal”. Como sustentar a tese de curra (sexo simultâneo e involuntário com vários homens deixa de ser estupro: passa a ser curra) sem que disso resultem hematomas, lesões, fissuras?…

Mas o laudo do exame de constatação de conjunção carnal/ato libidinoso é apenas uma das peças que compõem esse intricado quebra-cabeças. A polícia científica ainda vai produzir outras provas. Há testemunhos a serem coletados. A polícia judiciária tem 30 dias, a contar da data do fato, para concluir o inquérito. À sociedade resta esperar que as investigações sejam conduzidas de forma profissional e que a Justiça faça o seu papel, sem ceder a pressões externas. Espera-se, sobretudo, que cada um dos envolvidos seja responsabilizado na medida exata de seu envolvimento no caso.

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Sobre Jaciara Santos

Jaciara Santos (jaciara@aqueimaroupa.com.br) é sergipana de Aracaju, mas atua como jornalista profissional em Salvador-BA, já há quase três décadas. Foi repórter, chefe de reportagem, pauteira, editora de Cidade, Política e Economia, colunista e subeditora de Segurança. Premiada duas vezes no extinto concurso de reportagens da Associação Bahiana de Imprensa, em 2003 conquistou também o prêmio Banco do Brasil na categoria reportagem por uma série de matérias sobre a ação dos grupos de extermínio na Bahia.