Alêêê, Picolino! (…porque o espetáculo não pode parar)

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Da mesa de som diretamente para o túnel do tempo, Dedé, Didi, Mussum e Zacarias – os extintos, mas eternos, Trapalhões – dão voz à fantasia: “Uma pirueta/duas priruetas/bravo, bravo!” (a música é uma das faixas da trilha sonora do filme Saltimbancos Trapalhões. de 1981). No picadeiro, os 20 meninos e meninas do Projeto Alfabetizando e Muito Mais da Associação Picolino de Artes do Circo mandam ver. Atenção, rrrrrrespeitável públicooooo, o espetáculo já começou!
Vestidos de bichinhos da floresta, os pequenos artistas encenam a peça A fábula sem moral, sob a direção do professor Fábio Bonfim (Bimbinho). Misturando as linguagens teatral e circenses, o trabalho é só um pretexto para que as crianças mostrem o que aprenderam ao longo do ano. E tem de tudo, senhoras e senhores! Trapézio, arame, cordas e (olha os Trapalhões de novo!), superpiruetas, maxipiruetas, bravo, bravo!
Se, para a honorável plateia, a tarde é de diversão, para artistas mirins e dirigentes da organização o momento é de glória. Cada pirueta, cada acrobacia daquelas representam muito mais que a encenação da milenar arte circense, contextualiza Márcia Ogafa, porta-voz da organização não-governamental – com a adrenalina no grau máximo, o presidente Anselmo Serrat não teve condições de conversar com a repórter. Ele é um faz-tudo: filma, coordena, afaga, dá ordens, ajeita o datashow, grita com um e outro… Tem nada, não. Márcia dá pro gasto e sacia nossa ânsia de informações. “Isso aqui é uma ação afirmativa de cidadania”, ela resume.
Mas dá pra trocar em miúdos. O trabalho apresentado é o resultado da ação social desenvolvida ao longo do ano pela organização não governamental Picolino, que começou como uma escola particular de artes circenses e hoje é uma espécie de porto seguro para uma parcela da comunidade da Boca do Rio, bairro de Salvador inserido no mapa da violência e que costuma frequentar o noticiário policial por conta da ação de jovens envolvidos com o tráfico de drogas.
No circo, meninas e meninos da Boca do Rio recebem uma espécie de blindagem aos desvios de conduta. Além de aprender as artes circenses, a gurizada tem alimentação (café, lanche e almoço) e aulas de alfabetização. Tudo isso, todos os dias (segunda a sexta-feira), das 8h às 12h. A faixa atendida vai dos cinco aos oito anos e já há fila de espera para 2010. Para que esse espetáculo não pare, o Picolino conta com o apoio de alguns fiéis parceiros como o Ministério da Cultura (Projeto Ponto de Cultura) e a ONG inglesa ABC Trust.
Mas, voltando ao show (que não pode parar), os 20 meninos da turma de alfabetização abriram o espetáculo Abraços, tema do projeto Viva o Circo neste ano de 2009 e uma metáfora ao acolhimento de órgãos e instituições à proposta do fundador da ONG, Anselmo Serrat, o faz-tudo. Olhando a alegria com que os pirralhos dão cambalhotas e o quase profissionalismo que exibem ao andar no arame ou executar as diversas acrobacias, só não dá para concordar com uma parte do script: quem disse que essa fábula não tem moral?… A julgar pelo resultado apresentado é possível extrair pelo menos uma lição: a de que é bom ser bom!
Na plateia, igualdade social
O espetáculo prossegue. Agora é a vez do show “Inclassificáveis”, a cargo dos alunos do básico noturno e dos sábados. Numa dessas mágicas que só a arte circense é capaz de realizar, o grupo reúne “crianças” dos cinco aos cinquenta e poucos anos… Sem distinção de idade, cada um dos artistas dá o seu melhor no manejo dos malabares, nos trapézios, no arame, na formação da pirâmide humana. Da caçulinha Mariana, 5, à madura Ana, 53, passando por Lucas (o Rodrigues), 11, a energia é uma só.
Na plateia, mais uma prova da igualdade social que, talvez, só o circo seja capaz de operar: alunos da Escola Melvin Jones, localizada no bairro de Massaranduba (outro pontinho vermelho no mapa da violência) e portadores de necessidades especiais assistidos pelas Obras Sociais Irmã Dulce (Osid) vibram com a performance dos artistas, ao lado de meninos e meninas de classe média convidados de alunos que frequentam as classes particulares da eclética escola Picolino.
O programa prossegue. Com a mesma alegria do início da programação, sobem ao picadeiro as turmas do Básico 1, com o espetáculo Direito das Crianças. Também formada por crianças de famílias desprovidas de recursos financeiros, a turma integra o Projeto Conexão Vida (Ágata Esmeralda), uma parceria já de 15 anos, como propagandeia Anselmo, sempre que empunha o microfone. O grupo do Balé Aéreo em Tecido, deslumbra a plateia com o show Agora é que são elas, e a turma do curso preparatório, também mantida com recursos do Conexão Vida, encerra a programação com o espetáculo Os Ninguém.
É noite fechada. Num rodízio natural, poucos espectadores do início da maratona permanecem por aqui. Mas a constante renovação garante plateia aos artistas em cada fase desta tarde-noite de “Abraços”. Ao longo do ano, a luta foi grande, assim como os percalços para manter o trabalho. Mas, num momento de celebração como este, as dificuldades terminam sendo esquecidas. “Dez mil cambalhotas/cem mil cambalhotas/ bravo, bravo!/maxicambalhotas/extracambalhotas/bravo, bravo” – mais uma vez, ecoa o coro dos imortais trapalhões lembrando que, sejam quais forem as imposições do mundo real, o espetáculo não pode parar. O sábado chega ao fim, mas, hoje, domingo, pode apostar que tem mais. Alêêêêêêê!!!!!!!!!!



























Belissima reportagem!
@Flavia Valeu garota! Também, com um tema desses, fica fácil, né? Você tinha que estar lá. É um trabalho fantástico, emocionante…
Belíssima mesmo. Bravo, bravo. Parabéns também para Lucas e toda turma do Picolino, que é disparada uma das instituições mais sérias e importantes do chamado terceiro setor em nossa cidade. BRAVO, BRAVO
Parabéns pela excelente materia social.
Esse Ranato Gaucho vai afundar ainda mais o Bahia.
Sou amante do circo e sempre admirei o trabalho do Picolino. Quando posso, assisto o trabalho do grupo. Temos que prestigiar esses trabalhos que engrandecem as nossas crianças e jovens, oferecendo o belo, o bom, a qualificação, o caminho para que voem a cada dia mais alto. Vida longa ao Picolino…
Belo post, cobertura quente e, pra variar, num texto bem bacana. Republicamos no nosso blog. Com os agradecimentos do Núcleo de Comunicação da Picolino.
@Marcus Gusmão Valeu, Marcus! Sabia que o Licuri foi o primeiro blog que li? Ainda estava no Correio (da Bahia, à época) e um colega (não lembro agora quem) me apresentou. Quanto ao post ‘Alêêê, Picolino’ fiz na emoção, mesmo. Adoro o trabalho de Anselmo e equipe. Pena que nós, jornalistas, dediquemos tão pouco espaço a iniciativas positivas como essa do Picolino.