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Sobre o tempo e a condição de transformar-se

Infinito Cotidiano

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“-Lá vem o pato, pata aqui, pata acolá!”

“-Tenho 3 dinheiros, será que dá pra comprar quantos picolés de uva?”

“-Tomar banho agora, não!”

“-Um, dois três, salve todos! Está guardando caixão, não vale!”

“-Paaaaaaaai, tem muriçoca aqui! Mãaaaae faz vitamina pra mim?”

“- Irmã, me ajuda aqui, ta muito pesado!”

E os olhos brilhavam quando ganhava boneca nova, um estojo de lápis de cor ou um livro bem colorido…e viajaaaaaaava nas gravuras do livro, se imaginava dentro! E chorava quando se via sozinha, sem a mãe, sem o pai ou sem a irmã…esteja onde estivesse… na escola, com as amigas …  ”Quero voltar!”

 Muito carinhosa sempre, garotinha que se achava a mãe de todos, queria cuidar de todo mundo e já se sentia responsável em ajudar, em alegrar e fazer feliz. Tinha medo de índio! Do barulho que eles faziam. Tinha medo dos bonecões que toda a criançada adorava! Eram muito grandes! Tinha medo de escuro demais, porque, mesmo no escuro, via as bonecas se mexerem! Adorava histórias, lê-las e ouvi-las.

Rendia-se a bolo e suco de uva, mesmo fazendo marra! E quando o pai tocava violão? Era uma felicidade na casa toda, e ela feliz mais ainda. Grudada no pai, sempre preocupada se a mãe estava ao lado e se a irmã estava também. A garota foi crescendo, como uma florzinha que aos poucos vai desabrochando.

 Sabe, o tempo passa. E o que a gente tem que fazer é viver junto com ele, mas a garotinha às vezes esquecia dessa condição que o mundo nos deu e fazia de tudo para o tempo sentir preguiça de seguir.

Ela gostava de ver a lua. Olhava para o céu, até não saber mais onde estava, se no chão ou entre as estrelas. E era nessas horas que ela desejava muito e muito que o ponteiro se arrastasse, para que as estrelas não se despedissem dela e ficassem ofuscadas pelo sol.

Quando era dia, ficava observando o passarinho que a visitava sempre na janela da cozinha, depois do seu programa favorito de TV. Conversava com ele sobre o episódio do dia, sobre o que tinha aprendido na escola, mostrava as piruetas que tinha conseguido fazer e o passarinho ali, na janela da cozinha, quieto. Só não se sabe se o animalzinho a escutava ou estava mesmo era à espera das migalhas de pão que a garotinha sempre lhe dava no fim.

Na escola, era muito concentrada. Só não com os números e mais com as letras e as tintas. Era boa de imaginação. Uma música que o pai cantava, de princesas e castelos, bastava para provocar nela grandes histórias na cabeça.

 Bom, a garota cresceu e continua a mesma coisa! Um pouco mais endurecida, o que é normal. Afinal, para viver no mundo, a condição é transformar-se.

  1. RÊ ARAÚJO
    1, fevereiro, 2010 em 11:55 | #1

    QUE LINDO TEXTO.ME FAZ LEMBRAR MINHA FILHA, ELA ADORA HISTÓRIAS, CÉU, ESTRELAS, BICHOS, PRINCESAS, CASTELOS, CANTIGAS, TODO LIXO NA SUA MÃO VIRA ARTE(CATA TODOS OS CACARECOS). E FICO PENSANDO O QUANTO ELA VAI TER QUE SE ENDURECER PARA VIVER NESSE MUNDO.

  2. henrique lustosa
    1, fevereiro, 2010 em 14:09 | #2

    Parabéns pelo belo texto.

    Vou enviar para minha filha, pena que as emissoras de televisões atualmente seus
    desenhos animados decairam muito…. Aumentou a qualidade dos desenhos.

    Mais cadê a mulher maravilha, o super homem, a inocência dos desenhos.

    Atualmente as histórias giram dos desenhos animados giram em torno de brigas, rixas, rivalidades, violências e por final o suposto moçinho mata o animal – monstro etc…

    Saudades dos desenhos e filmes mais velhos…

    Na minha época tinha agente 007 ou humor do agente 89.

    Depois iniciamos a era dos Rombos – Exterminadores do futuro e das missões impossíveis…

    Que o moçinho faz a Justiça com as próprias mãos….

    É UMA PENA … PARABÉNS pelo belo texto.

  3. Luciana Rodrigues
    1, fevereiro, 2010 em 15:14 | #3

    Lindas linhas, lindo quadro, linda menina. Que a imaginação e a doçura permanecem seeempre, mesmo em dias “endurecedores”.

  4. Flavia Vasconcelos
    1, fevereiro, 2010 em 15:16 | #4

    @henrique lustosa
    Obrigada Henrique! Os desenhos animados acompanham a demanda da nova era. Mas a imaginação é atemporal… nada está perdido!

  5. Flavia Vasconcelos
    1, fevereiro, 2010 em 15:21 | #5

    @Luciana Rodrigues
    Obrigada Lu.. é como disse Guevara, “Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás.”

  6. 2, fevereiro, 2010 em 08:05 | #6

    O melhor de tudo, Fau, é que, mesmo perdendo o ancestral medo de índios e de bonecões, a menina conserva a doçura do tempo em que entrava nos livros de fadas e princesas. Obrigada por compartilhar conosco lembranças e emoções tão íntimas.

  7. Matheus Morais
    2, fevereiro, 2010 em 09:28 | #7

    Talvez tenha sido essa mesma doçura que me aproximou dessa menina e nos tornou grandes amigos! Tenho um orgulho danado de você, minha irmã! Seu texto me emocionou…

  8. Camila Vasconcelos
    2, fevereiro, 2010 em 12:21 | #8

    Sua irmã continua aqui, ao seu lado. Pesado ou leve, estou aqui.

    Um beijo e um suco de uva.

  9. 2, fevereiro, 2010 em 16:41 | #9

    BONS TEMPOS HEM MENINA,FICA NAS LEMBRAÇAS.

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