Um dialeto chamado baianês (lá ele!)

Não ria que é sério


Tempos atrás, publiquei aqui um delicioso texto sobre a baianíssima expressão “lá ele”. O artigo me chegou via internet e, como a maioria das mensagens que circulam de e-mail em e-mail, não identificava o autor. Terminei descobrindo que era da lavra do estudante de publicidade que assina Pedro Pregu Publicidade e Propaganda, do blog QuatroP.  Como uma coisa puxa a outra, cheguei a outro artigo também superdivertido a respeito do idioma praticado aqui na Bahia e que nem todos os baianos conhecem. Este é do blog Oh! sua miséra! Confiram e confirmem!

Oxente, rapaz! Lá ele!

Baiano é bicho escroto. Soteropolitano ainda mais. Cariocas, os famosos malandros, tremei!

Se as brincadeiras com rima já movimentam o malicioso dialeto praticado na velha Salvador, imagine as perguntas que puxam respostas de duplo sentido? Quando você menos espera, acaba caindo em uma – Epa, lá ele! Me saí dessa com habilidade, pois usei um antídoto infalível: o “Lá ele!” Se você está em Salvador, é só largar um “lá ele” que estará a salvo. Por quê? Quem cai, geralmente cai sentado em algo e isso é esparro (algo perigoso)…

A gente (às vezes isso soa como ‘arrente’, não estranhe) utiliza o recurso do “lá ele” pra dizer que outro otário cairia em nosso lugar. Algo do tipo: “Ele lá que caiu e não eu!”. Mas, como resposta, sempre acaba vindo de seu oponente um “aooooondeee?”. Esse outro significa “onde você viu isso, seu sacana?”. No final das contas a peteca pula de mão em mão e todo mundo se salva, ficando de cabra macho! E as meninas de santa.

“Quem é Mário?” – “Ora, ora… aquele que lhe carcou atrás do armário”. – “Oxente, rapaz? Lá ele!” A coisa funciona mais ou menos nesse diapasão. Tem até a forma mais direta: – “Onde eu coloco isso aqui?” – “Lá nele” – responde o mais esperto.

Outra função interessante para o “lá ele” é substituir nomes feios. Palavrões, se é que vocês me entendem (o que baiano adora. Aqui, porra é vírgula). Olhe quanta utilidade tem essas coisas que os malucos inventam em Salvador. Rapaz, isso que é cultura!

Mas aí o “lá ele” geralmente assume a forma feminina do “lá ela”! Isso porque a maioria dos palavrões mais pesados é feminina (lógico! Com elas ninguém pode! Por que você acha que nome de furacão é tudo de mulher?).

Exemplo: tem nêgo que adora soltar um “desgraçaaaa” (afimaria, você disse aí, né?). Pois bem. A maioria da turma que não suporta este palavrete que costuma aliviar a alma dos mais desesperados – aqueles que estão na bruxa – abusam do “lá ela” para não pecar:

“Joãozinho chegou aqui, na bruxa, dizendo ‘lá ela’ na maior altura. Avemaria! Creimdeuspai, Deuzépai!”. É comum conferir essa variação do “lá ela” da boca de religiosos.

Mas, o mais engraçado foi o que as meninas inventaram para chamar a própria bacurinha. Isso mesmo! Já tá dando risada? Tem umas meninotas de Salvador que, para evitar o nome próprio mais conhecido daquilo, usam o “lá ela”.

- “Menina…….. o carinha estava tão doido que, quando a gente estava naquele amasso, passou a mão em minha ‘lá ela’” … Meu Deus… onde isso vai parar?

O “lá ele” e suas variações também já fizeram tanta fama, e ajudaram tanta gente na Boa Terra, que viraram nome de livro! É sério! Procure por “Lá ele – o esparro a Bahia”, de João Jorge Amado. Tive a oportunidade de bisoiar algumas páginas, que oferecem uma revisão dos maiores esparros, aqueles que exigem ‘de com força’ um bom “lá ele!”.

Ô mô pai…”

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Sobre Jaciara Santos

Jaciara Santos (jaciara@aqueimaroupa.com.br) é sergipana de Aracaju, mas atua como jornalista profissional em Salvador-BA, já há quase três décadas. Foi repórter, chefe de reportagem, pauteira, editora de Cidade, Política e Economia, colunista e subeditora de Segurança. Premiada duas vezes no extinto concurso de reportagens da Associação Bahiana de Imprensa, em 2003 conquistou também o prêmio Banco do Brasil na categoria reportagem por uma série de matérias sobre a ação dos grupos de extermínio na Bahia.