Dona Elita, 83 anos: a arte de costurar os retalhos da vida

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Somente de ouvi-la descrever um dia típico já dá pra ficar cansada: aula de hidroginástica, caminhada à beira-mar, reunião do círculo de oração, plantão num abrigo de idosos, reuniões, sessão de costura. Isso sem falar naquelas outras atividades que sempre terminam consumindo um bocadinho de tempo, tais como pagar contas, fazer compras, visitar parentes e amigos. Ah, sim, até meses atrás, essa rotina incluía, ainda, a redação dos capítulos da autobiografia lançada em agosto, quando a autora completou 83 anos. Quanto?!… Isso mesmo. Numa prova de que a vida pode começar em qualquer idade, Elita Gomes da Rocha Costa, funcionária pública aposentada, acaba de debutar no mundo das letras com o livro de memórias Retalhos Coloridos, produção independente que vem fazendo sucesso entre amigos. Pois é, com uma história pessoal das mais ricas, em vez de ler contos da carochinha para netos e bisnetos, a simpática vovó encarou o desafio de registrar preto-no-branco a sua própria trajetória.
Embora não sendo exatamente uma pessoa tímida, a estreante optou por ficar à margem do circuito comercial. “Não acredito que o grande público venha a se interessar pela minha história”, reflete, modesta. Sei não, viu dona Elita?… Afinal, quem se debruçar sobre Retalhos, vai ter a oportunidade de descobrir uma Salvador quase desconhecida da maioria de nós. Uma cidade cortada por bondes e pontilhada de bucólicas chácaras onde hoje florescem espigões. Uma aprazível província em que o Carnaval durava três dias, era restrito ao circuito Campo Grande/Ladeira de São Bento e podia ser assistido de pontos previamente demarcados por prosaicas cadeiras amarradas umas às outras.

Elita com Miguel: um amor de conto de fadas
Tem mais. Em linguagem coloquial e desprovida de maneirismos intelectuais, a novíssima escritora convida o leitor a acompanhá-la em suas incursões de menina sapeca (adorava tocar a campainha das casas e sair correndo) ou de mãe recém-saída da adolescência, que não hesitava em tomar banho de chuva com os filhos.
Histórias que fazem rir e chorar
O livro tem 187 páginas divididas em cinco tópicos e 67 capítulos, sob o formato de crônicas. Do próprio nascimento, na Gamboa (centro de Salvador-BA), aos dias atuais em seu confortável apartamento com vista privilegiada do mar de Amaralina, a autora brinda os leitores com histórias que fazem rir, chorar ou simplesmente refletir sobre o sentido da vida. Filha temporã de seu Antônio e dona Ricardina, Elita parece ter herdado da mãe a coragem de olhar a vida nos olhos e dizer não às adversidades. Perdeu o pai aos três anos de idade e dele guarda poucas lembranças. Encontrou nos dois irmãos do sexo masculino a referência necessária paterna e nas seis irmãs biológicas réplicas da própria mãe. As duas irmãs adotivas (uma da mesma idade, outra bem mais nova) foram a companhia para aventuras na adolescência.
Como numa colcha de retalhos, Elita vai costurando sua história, entremeando relatos que revelam os costumes da sociedade baiana no início do século passado. Só para se ter uma ideia, ela cresceu numa enorme chácara, cujos domínios se estendiam entre as avenidas Cardeal da Silva (bairro da Federação) e Garibaldi – então chamada de Rio Vermelho de Baixo. Dá para imaginar, hoje, uma propriedade com tais dimensões naquele tão cobiçado espaço urbano?…
E o que dizer da incursão que fez, aos cinco anos de idade, com a mãe a Jeremoabo, município do sertão baiano, a 373 quilômetros de Salvador? A viagem tinha o propósito de acalmar o coração da velha Ricardina, aflito ante a ausência de notícias do filho Edgar, militar recrutado para atuar numa das volantes que caçavam o cangaceiro Lampião. Alheia aos riscos que corria, Elita transforma em aventura a penosa excursão na boleia de um caminhão e ainda conta, divertida, as ameaçavas que pairavam sobre ela e a mãe: “(…) caso os bandidos tivessem conhecimento de que familiares de militar estavam em trânsito numa terra sem lei, poderia ter sido nosso fim (…)”
Passeando pelas páginas de Retalhos coloridos fica fácil entender o espírito irrequieto da autora. Aqui vale uma inconfidência. Por ficar muito pouco em casa, qualquer eventual parada no ritmo de saídas vira motivo de alarme. “Eu sou a única mãe que deixa os filhos preocupados quando fica em casa”, diz. É sério. Quando Roberto, o único varão dos quatro rebentos, liga para o telefone fixo durante o dia e ela atende, vai logo dizendo: “Minha mãe, o que é que está acontecendo? A senhora em casa, a essa hora?…”, conta a espevitada, entre gargalhadas.
‘Não gosto de computador porque prende muito…’
Bonita e namoradeira (“naquele tempo os namoros eram diferentes dos de hoje”, faz questão de ressaltar) na adolescência, dona Elita teve lá uma boa meia dúzia de pretendentes. Descartava a todos. Era como se soubesse que o grande amor estava por vir. E o príncipe encantado chegou lá pelos idos de 1944, quando ela estava na flor da mocidade com seus 17 aninhos. Entre paquera, namoro, noivado e casamento, não mais que dez meses. E nem vá tirando maldosas e precipitadas conclusões: ao contrário do que tanta pressa pode sugerir, ela casou-se virgenzinha da silva, para usar uma expressão da época. Aliás, quer saber mais? A lua de mel mesmo só veio a acontecer duas noites após o enlace matrimonial (ops! Outra expressão contemporânea da personagem), devido a circunstâncias relatadas de forma deliciosa no livro.
A confecção de Retalhos foi uma odisseia. É que nossa protagonista não tem intimidade com o computador, apesar de não ser resistente aos avanços tecnológicos: “Eu acho que computador prende muito”, justifica. Pronto. E agora? Como escrever um livro… sem ficar presa ao teclado de um PC? A solução foi mais fácil do que se possa imaginar. Elizabeth, a caçula dos quatro filhos, se prontificou a digitar os textos escritos à mão pela mãe. Hummm… mas, quem disse que dona Elita se recolheu em casa para reunir as lembranças e aprisioná-las no papel? Foram uns bons três anos de trabalho. “Eu levava tempos sem escrever uma linha”, confessa. “Estava tudo na cabeça, mas não tinha paciência de ficar muito tempo parada só escrevendo”.
A certa altura, toda a família já sabia do projeto. Carminha, Norma e Roberto, pressionavam para não deixar o projeto morrer no nascedouro. Crescia a pressão. Todos cobravam a conclusão do livro. Nesse meio tempo, Elita rompeu um relacionamento de quase 15 anos e há um ano e meio está só. Embora não guarde mágoas do ex-companheiro, prefere silenciar sobre as razões que a levaram a pôr um fim numa relação tão longa, mas dedica um capítulo de suas memórias ao assunto. E foi nesse período pós-rompimento, que Retalhos ganhou mais fôlego. A costura foi ganhando os arremates e quem domina arte do corte & costura sabe que essa é a parte mais delicada do trabalho. Um a um os pedaços da história foram se juntando. Não vou me alongar. Detestaria lhe privar do prazer de apreciar esse mosaico colorido e molhado de lágrimas em alguns trechos.
Aos 83 anos, dona Elita não tem exatamente uma fórmula para uma existência tão longa quanto dinâmica. Mas arrisca um palpite: o amor, que permeia cada uma das fases de sua vida, pode estar por trás de tanta alegria de viver. E se alguém ainda hesita em rimar longevidade com felicidade, segue a reflexão que ela deixa no finalzinho do livro: “Felizes os que envelhecem conseguindo carregar na sua essência uma mente sã e cheia de doces lembranças, uma visão perfeita para contemplar a natureza e forças para nadar contra a correnteza, quando se fizer necessário”. É isso aí. Quem disse que a história terminou? Ela está só começando.

























Jaciara, você me emocionou mais uma vez. Não só por retratar uma tia muito querida, um exemplo de vida para nós todos. Mas por traduzir tão bem o alto astral dessa mulher guerreira e sinônimo de simpatia. Com seu olhar atento para identificar personagens que fazem a diferença, você me deu uma bronca quando contei sobre o livro de tia Elita. “Cadê a entrevista com ela, criatura? A história dela é maravilhosa”, reclamou. Concordo, Jaci. E contada por você ficou ainda mais interessante. O livro Retalhos Coloridos é mesmo uma delícia de leitura e a prova de que amores verdadeiros existem e ainda podem ser reverenciados.
Quem puder ler vai confirmar o meu depoimento, é uma leitua “deliciosa”! Conheci D. Elita através da filha Elizabeth,aqui em Aracaju e acho que o livro deveria ser lançdo aqui também. Fica a sugestão.
Que exemplo de vida! Todos devemos nos espelhar em pessoas como esta simpática senhora para encararmos de melhor maneira os desafios da vida.
Dona Lilita é uma jovem senhoa que tem um sorriso encantador, um astral contagiante
e um afeto pelo filhos de causar inveja a qualquer mãe de plantão.
Gostaria de saber como adquirir um exemplar desse livro. Estou anciosa para deleitar nesse universo de Dona Lilita que com certeza só irá acrescentar o meu.
Eu tenho a felicidade de ser filha de Elita, esta criatura única, regida pelo sol,
que assim como seu astro regente consegue, com sua presença, iluminar qualquer lugar onde chega. Ela é uma mulher alegre e otimista que teve de trabalhar duro e muito para sustentar seus filhos que tão cedo ficaram orfãos de pai, mas que nos ensinou que a vida deve ser bem vivida e que o amor pleno existe.
Carminha, você definiu muito bem tia Elita: uma figura iluminada, que enche de alegria qualquer ambiente. No evento promovido pelo blog, com debate sobre direitos humanos, ela era só entusiasmo. Posou para fotos com os sorteados que ganharam exemplares do seu livro e acompanhou atentamente o debate, sem demonstrar qualquer cansaço. No coquetel, então, demos boas risadas. Parabéns pela mãe maravilhosa e amei te encontrar aqui no blog.